quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A VISÃO "SOROSPOSITIVA" DO ATIVISMO SOCIAL


Por Alexandre Figueiredo

Os setores medianos das esquerdas tentam idealizar os movimentos sociais, o ativismo político e os anseios das classes populares de uma forma estranha. Com uma retórica sedutora e por vezes fantasiosa, essa militância, com um quê de neoliberal e tecnocrática, tanta se sobressair como o "modelo ideal" de ativismo social, político e cultural.

A princípio, tudo parece perfeito. Um discurso paternalista que evoca as periferias como se fosse um conto da gata borralheira. Uma visão romantizada e glamourizada, mas carregada de um otimismo sedutor, digno dos discípulos de Auguste Comte, o filósofo positivista.

É uma visão que tenta afirmar o reconhecimento dos movimentos sociais e das reivindicações das classes populares. Mas que tenta diluir as causas sociais apenas ao atendimento das necessidades que não interferem no status quo dominante.

Lendo um texto sobre a análise dos movimentos sociais e das novas redes digitais, promovido pelo Coletivo Fora do Eixo, fiquei estarrecido com a preocupação que eles têm da não existência de um movimento como os de "ocupação" no exterior. Fiquei espantado não com a preocupação em si, mas com o modo de sua preocupação, como se eles quisessem discutir um "modelo" de manifestação social a ser implantado no Brasil.

O grande problema, neste caso, não é a criação de modelos. Isso não faz sentido. O Brasil tem problemas e para se manifestar não é necessário criar "modelos" ou aderir a modismos, mas sim ter indignação, reunir gente e ir para a rua.

O verdadeiro ativismo social não é "occupy qualquer coisa". Não é enfatizar a forma nas manifestações sociais. O grande problema da intelectualidade "sorospositiva", patrocinada por George Soros e pelas fundações Ford e Rockefeller, é o desejo de implantar manifestações sociais que se reduzam à forma, quando a essência está no conteúdo.

Muito fácil nos reunirmos numa Avenida Paulista para falar besteira e tomar cerveja (digo "nós" por questão impessoal; eu não bebo álcool), sem que tenhamos qualquer propósito definido, apenas algumas causas superficiais, tipo "defender a cidadania" e coisa e tal.

As preocupações dessa "esquerda sorospositiva" são muito estranhas. Querem a coisificação dos movimentos sociais pela tecnologia, como se as novas mídias não fossem os instrumentos, mas os sujeitos das transformações sociais. Segundo esse raciocínio, não sou eu que uso o Twitter para ameaçar o poder imperialista, é o Twitter que me usa para combater esse poder. Eu é que tenho que adequar meu ativismo em cerca de 140 tecladas.

E a cultura? Discutem mais as verbas para viabilização dos eventos culturais. É muito importante discutir os patrocínios, os espaços culturais, a Educação etc. Mas limitar o debate para o aspecto financeiro não traz eficiência. Afinal, vamos melhoras os investimentos para a cultura para quê, para termos Belo cantando no Teatro Municipal e instaurar "bailes funk" nas universidades, ou renovar as bibliotecas com jornais Meia Hora e revista Conta Mais?

E as periferias? Esse ativismo de butique dos "sorospositivos" faz com que as favelas, construções acidentais provocadas pela exclusão imobiliária, sejam convertidas em "arquitetura pós-moderna", numa clara demonstração de glamourização da pobreza.

A educação cultural não é enfatizada nem amplamente discutida, implanta-se um modelo educacional bem distante das ideias de Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e, sobretudo, de Paulo Freire. Quando muito, dilui-se os projetos deles para o nível mais inofensivo, criando pessoas apenas capazes de argumentar habilidosamente a favor do "sistema".

As periferias são idealizadas, com esse discurso, para serem modernas Disneylândias do entretenimento. Sem um projeto de urbanização ou mesmo de desfavelização - no caso de permitir a desocupação de áreas para reflorestamento - adequados, apenas se pensa em maquiar as favelas num pragmatismo urbanístico paliativo, enquanto se transformam tais residências em paisagens de consumo para turistas socialmente paternalistas.

E a cultura, sabemos, deve se tornar a gororoba que mistura alhos com "bregalhos". Apenas a MPB autêntica se reduz a uma coadjuvante da breguice que toma conta do mercado. Tudo se submete a estereótipos das classes populares, muitos deles tragicômicos, que nunca se evoluem significativamente, só melhorando a fortuna pessoal dos ídolos que aparecem na grande mídia.

A arte se submete ao mercado, "sem preconceitos", e a "cultura de massa", em vez de se tornar uma problemática, vira apenas uma "problemática sem problemas", cujos debates não a debatem, forçando a opinião pública a aceitá-las jogando a "culpa" desse império do "mau gosto" para as populações pobres ou, quando muito, para Gregório de Matos e Oswald de Andrade, que nada tiveram a ver com tudo isso.

Criar um ativismo social que se reduz à forma, superestimar as redes sociais de forma que elas se tornem sujeito e não instrumento de mudanças sociais, glamourizar as favelas como se fossem arquitetura pós-moderna, submeter a cultura popular ao mercado do "mau gosto" e submeter a cidadania ao consumo sob o pretexto de combater a ideologia do consumo são plataformas estranhas da intelectualidade brasileira dominante.

Sob as mesadas de George Soros e companhia, esses intelectuais não querem realmente transformar o país. Querem promover seu neoliberalismo travestido de um esquerdismo torto e de um pós-tropicalismo ideologicamente oco. No fim, se mostrarão apenas tecnocratas que veem a visão das classes populares conforme seus preconceitos "sem preconceitos", tipicamente paternalistas e etnocêntricos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...