quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A TEORIA DA PROJEÇÃO NA INTELECTUALIDADE CULTURAL BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante que se relaciona aos temas da cultura popular é dada a exercer o que, na psicologia, é conhecida como a Teoria da Projeção.

Lançada por Sigmund Freud (1856-1939) e aperfeiçoada por sua filha, a também psicanalista Anna Freud (1895-1982), a Teoria da Projeção consiste na transferência dos atributos e posições de um determinado indivíduo para outras pessoas.

Dizendo com mais clareza, é quando uma pessoa acusa os outros de serem, fazerem ou pensarem o que na verdade é a própria pessoa que é, faz ou pensa. São atributos considerados desagradáveis e, por isso, a própria pessoa não as assume, preferindo atribui-los a outras pessoas.

Pois é o que vemos nos intelectuais brasileiros que defendem a "cultura de massa". E que mantém sua supremacia de pensamento e influência desde 2002, com o apoio dos barões da grande mídia, em que pese o proselitismo que esses mesmos intelectuais fazem na mídia esquerdista mais mediana.

Algumas dessas acusações mostram o quanto essa intelectualidade, formada ideologicamente sob a influência do pensamento neoliberal da USP (que partiu de professores ligados ao PSDB e à grande mídia paulistana, sobretudo Folha de São Paulo), aprendeu com a chamada Teoria da Projeção. Vejamos elas:

1) PRECONCEITO - A tão famosa acusação de que a rejeição que a sociedade faz ao brega-popularesco é "preconceituosa" é um exemplo disso, e que mostrou uma incoerência que só tardiamente foi melhor analisada. Afinal, quem rejeita ritmos como o "funk carioca" e o brega setentista, ou as chamadas "popozudas" nem de longe é preconceituoso, porque conhece tudo isso e tem razões para não gostar. Pior são aqueles que defendem o brega-popularesco sem qualquer razão consistente. Estes é que são preconceituosos.

2) ELITISMO - A acusação de elitismo contra a mesma rejeição também é inconsistente. Afinal, essa rejeição não se dá porque são fenômenos ligados às classes populares, até porque essas expressões ditas "populares" são em boa parte "processadas" ou "remodeladas" pelos escritórios executivos da mídia. Elitistas são esses intelectuais que defendem o brega-popularesco, porque eles defendem uma imagem estereotipada das classes populares.

3) PATERNALISMO - A mesma rejeição ainda inspira outra acusação indevida, a de que nós adotamos uma visão paternalista da cultura popular. Grande incoerência. Quando questionamos a suposta "cultura popular" midiática do brega-popularesco, agimos justamente contra essa visão paternalista, porque sabemos que essa "maravilhosa cultura", em seus valores, procedimentos, símbolos e ídolos, é claramente elaborada pelo mercado e pela mídia, a serviço de interesses ocultos dos donos do poder político, econômico e midiático.

4) IDEALIZAÇÃO DA MPB OU DA CULTURA POPULAR - A acusação de idealização também é inconsistente. Afinal, não queremos um "modelo" de música brasileira, mas a libertação da música brasileira das regras mercadológicas do brega-popularesco, o "nosso hit-parade". Os defensores do brega-popularesco, além disso, aplaudem quando ídolos da música brega apostam num simulacro de MPB, como os neo-bregas dos anos 90. Isso é que é "idealização da música brasileira".

5) DIRIGISMO IDEOLÓGICO - Houve quem dissesse que as críticas que pessoas como eu fazem contra o brega-popularesco são fruto de algum "dirigismo ideológico" para a cultura popular. Grande engano, fruto de uma paranoia que vem desde os tempos da "revisão" tucana dos papéis históricos dos CPCs da UNE. Não queremos uma música brasileira "panfletária" ou "academicista", mas coerente com sua história. Em compensação, os defensores do brega-popularesco é que fazem dirigismo ideológico, na medida em que desejam uma "assepsia" ideológica aos ídolos ditos "populares", em que pesem todas as alegações "revolucionárias" a esse tipo de "cultura".

6) PURISMO - A acusação de purismo é ridícula. Isso porque não queremos uma música brasileira isolada das novidades estrangeiras ou a avanços tecnológicos (como a guitarra elétrica, nos anos 60). Queremos, sim, uma música brasileira livremente vinculada às suas tradições culturais, que as conhece suficientemente para poder transformá-las com segurança e criatividade. Puristas são, por exemplo, os defensores do "funk carioca" que não suportam cobranças de que o ritmo deveria ter cantores melhores e se munir de instrumentistas e arranjadores.

7) HIGIENISMO - Outra incoerência. Não queremos higienismo, afinal reconhecemos a validade do folclore brasileiro e suas manifestações das classes pobres. Mas isso que está aí sob o rótulo de "cultura popular" não é o novo folclore brasileiro. Pelo contrário, isso é que é um processo de higienismo cultural, na medida em que o brega-popularesco domestica as classes populares.

8) SEPARATISMO - A acusação de "separatismo" ou "apartheid cultural" é outra inconsistência. Até porque os defensores do brega-popularesco usam o pretexto da "ruptura de preconceitos" e do "fim do separatismo cultural" como forma de ampliar os mercados dos ídolos popularescos, entrando em espaços antes inapropriados. Mas esses defensores, por outro lado, reforçam o verdadeiro separatismo, que é marginalizar a cultura brasileira de qualidade para públicos ainda mais seletivos. Na prática, a MPB autêntica, nesse caminho, acaba sendo apreciada apenas por pequenos e cada vez mais fechados feudos, já que até a classe média e a universitária foram entregues ao lodo brega-popularesco.

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