quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A QUESTÃO DO TRADICIONALISMO NA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Quando muitos defensores da autêntica música brasileira falam que as classes populares deveriam se manter vinculadas às raízes culturais, a intelectualidade etnocêntrica vem com suas "urubologias".

 Os intelectuais vão logo acusando os primeiros de "antiquados", "dirigistas ideológicos", "museólogos doentes", "saudosistas radicais" e outras coisas.

Para essa intelectualidade, basta se conformar que a cultura brasileira, para eles, nasceu em 1967 com o berro tropicalista de um Caetano Veloso contra a vaia das supostas "patrulhas ideológicas" durante a música "É Proibido Proibir".

Partindo desse ponto e juntando o deslumbramento tropicalista com a "cultura de massa" com as teses neoliberais da Teoria da Dependência do tucano Fernando Henrique Cardoso - em que pese a postura pretensamente esquerdista desses intelectuais - , o brega-popularesco seria uma "evolução" (?!) da modernidade tropicalista.

Com isso, a intelectualidade dominante, que detém a supremacia da opinião pública relacionada à cultura brasileira - com um Pedro Alexandre Sanches gozando de um "carisma" que seus amigos e mestres do Projeto Folha, como Otávio Frias Filho, gozavam há 20 anos - , tenta liquidar o patrimônio cultural brasileiro, jogando o folclore brasileiro para os museus e a MPB mais sofisticada para as mansões.

Tentando "rever" algumas posições, sobretudo quanto ao radicalismo que Sanches, Paulo César Araújo e outros tiveram contra a MPB esquerdista, os intelectuais dominantes da cultura popular tentam se apropriar de nomes menos acessíveis da MPB autêntica para tentar não só uma associação tendenciosa ao brega-popularesco, quanto para tentar dar a impressão de que não são intolerantes.

Além disso, tenta-se isolar a MPB "biscoito fino", herdeira por excelência da Bossa Nova - um dos últimos grandes sopros de verdadeira modernização da música brasileira - , até mesmo do resto da MPB autêntica. Como se Sérgio Ricardo não tivesse o mesmo pano de fundo cultural de Chico Buarque.

Dessa forma, tenta-se dissimular o preconceito (mesmo!) que os intelectuais têm às tradições culturais da música brasileira, um preconceito cruel de gente dita "sem preconceitos". Os elogios que eles fazem em relação a alguns nomes menos massificados da MPB autêntica não resolve a falta de acesso que o grande público sofre em relação a estes.

Vejam só o caso sintomático. A revalorização da obra de Wilson Simonal em nada resultou na repercussão natural do cantor para o grande público, e nem se estendeu para a ascensão de seu maior herdeiro artístico, o próprio filho Wilson Simoninha, cujo nome de batismo é o mesmo do pai e que, na infância, vivenciou o sucesso que este viveu nos anos 60.

Mas oportunistas do sambrega, como Leandro Lehart, Thiaguinho, Péricles e, sobretudo, Alexandre Pires, que nunca se interessaram naturalmente na obra de Simonal, passaram a pegar carona na reputação do falecido artista, e Alexandre Pires, na capa de seu disco Eletrosamba - uma suposta moda que o ex-Só Pra Contrariar inventou e que não tem pé nem cabeça - , tentou imitar as caras e bocas de Simonal, sem soar sequer convincente.

Pelo contrário, tocando-se o disco de Alexandre Pires, o que se vê é o habitual sambrega que ele fez desde os tempos em que era um dos símbolos musicais da Era Collor, nos anos 90. Primeiro, porque é um disco ao vivo, com os mesmos sucessos do cantor neo-brega desde os tempos de sua ex-banda. Segundo, porque é um repertório que alterna falsos sambas e baladas bregas que em nada acrescentaram nem acrescentam coisa alguma à música brasileira.

Ídolos assim nem de longe representam qualquer tradicionalismo cultural na música brasileira. E nem mesmo qualquer inovação. Como, no caso do "sertanejo", não representam tais qualidades Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel e quejandos. E esse é o problema que os intelectuais dominantes tapam os olhos e ouvidos no debate cultural brasileiro.

Afinal, o brega sempre representou uma recusa às tradições culturais brasileiras. O brega rompeu com os laços sociais e comunitários, preferindo se aliar aos donos de rádios e TVs regionais, associados ao poder latifundiário. Não pode depois correr atrás das tradições negadas se já assumiu responsabilidade na primeira decisão.

Por isso, quando defendemos a ruptura com o brega-popularesco e a revalorização da MPB autêntica, nem que seja preciso apostar em ritmos e artistas antigos e até falecidos, não queremos uma música brasileira parada no tempo.

Queremos uma MPB que se atualizasse constantemente, mas não da forma que a "cultura de massa" impõe, mantendo o grande público escravizado pela breguice dominante ou, quando muito, com acesso limitado à MPB "feijão com arroz".

A valorização das tradições culturais é defendida porque a cultura brasileira assumiu um caminho de mais de 500 anos, anterior até mesmo a 1500, e essa valorização não pode se limitar ao oportunismo pretensioso de aventuras pedantes do brega-popularesco.

É muito fácil "descobrir" Simonal, Luís Gonzaga, Sérgio Ricardo, Paulo Diniz e Inezita Barroso, pegar carona nas músicas mais conhecidas, dizer que "sempre foi fã" apenas quando eles são resgatados pela grande mídia.

Mas isso em nada resolve, apenas é uma apropriação de intelectuais propagandistas do brega-popularesco ou, quem sabe, dos próprios ídolos da Música de Cabresto Brasileira que venham a gravar suas músicas em tributos caça-níqueis. Ou então imitar seus arranjos às custas da ajuda de outros arranjadores. Mas essa cosmética existe há uns quinze anos e a música brasileira nem de longe se evoluiu com isso.

Por isso, será necessária uma ruptura com o brega-popularesco. Nada de transições. A mediocrização cultural não se tornará melhor por causa da cosmética dos "banhos" de vestuário, tecnologia e técnica. Isso pode fazer os neo-bregas virarem "MPB de mentirinha", mas não os tornará mais espontâneos nem mais artísticos.

Daí que é necessário voltarmos ao passado, resgatarmos os verdadeiros sambas, baiões, maxixes, lundus, modinhas, cateretês e outros ritmos, conhecermos o que foi feito outrora para retomarmos a verdadeira criatividade que falta na música brasileira atual. Sem nos isolarmos ao que vem de fora, mas também sem nos isolarmos ao que fizemos dentro do país em outros tempos. Mas, em ambos os casos, queremos sempre uma cultura brasileira mais orgânica e livre da escravidão da grande mídia.

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