quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A MÍDIA MACHISTA E SEUS MALES


Por Alexandre Figueiredo

Na revista Fórum deste mês, a blogueira mineira Cynthia Semiramis escreveu um longo texto sobre mídia machista, detalhando as questões e a campanha que é feita a partir das marchas ocorridas em todo o país. Estão previstos novos manifestos, em reação à exploração machista da imagem da mulher.

Em minhas pesquisas nos portais da grande mídia, nota-se que o machismo destaca os homens "bem sucedidos" como associados a uma "racionalidade" vinculada à liderança profissional - geralmente empresários, profissionais liberais e executivos - , enquanto a mulher "bem sucedida" é aquela que se destaca porque "mostra demais" seu corpo.

Ou seja, o homem é valorizado pela mente pela mídia machista, que vê a mulher como um objeto sexual. E muito dinheiro é investido nessa manipulação ideológica, tão cruel quanto hipócrita. Afinal, as mulheres que decidem investir no aprimoramento de sua inteligência e de sua independência profissional são "convidadas" pelo status quo midiático a serem conjugalmente vinculadas aos homens "bem sucedidos".

Qualquer outro que não tenha um cargo de comando ou uma fortuna é considerado "pé rapado". Neste caso, o machismo também discrimina os homens, porque se é um homem de grande caráter e batalhador, mas é um simples servidor público em estágio probatório, ele é visto como "pé rapado", por mais que se dedique com inteligência e moralidade à sua vida.

A estes se reservam as mulheres vulgares ou então as fãs de brega-popularesco mais "desajeitadas" por influência da mídia. De que adianta um homem ter uma inteligência refinada e um caráter diferenciado se ele, sendo um operário ou um servidor público, para não dizer um desempregado pela força das circunstâncias, na melhor das hipóteses, só terá direito a uma ex-integrante do Big Brother Brasil ou a uma "pobre mortal" fã de "sertanejo" e "pagode romântico" para namorar, moças que não servem sequer para conversa?

Isso é apenas um aspecto do machismo midiático que sutilmente penetra nos valores sociais dominantes hoje. E que, da parte das "musas populares" - eufemismo para as mulheres-objeto atuais - , tenta criar um falso feminismo que chega mesmo a pegar desprevenidas algumas feministas menos prevenidas.

É quando o discurso machista se traveste de moderno e associa a vulgaridade feminina a uma suposta "liberdade do corpo". Usando o termo "popular", tenta neutralizar as críticas, porque existe uma tendência das classes médias razoavelmente intelectualizadas em não contestar o que é "popular", o que faz com que boa parte das explorações grotescas da imagem da mulher sejam aceitas, porque "é o que o povo quer".

Alguns casos até fazem com que certas musas da vulgaridade sejam excluídas do debate público por aspectos politicamente corretos. Como no caso da dançarina da Gang do Samba, Rosiane Pinheiro - "genérico" das Sheilas do Tchan - que, por ser negra, passa incólume de qualquer contestação, mesmo fazendo o mesmo "serviço" das "musas" do Tchan.

Há também o caso da "emergente" Geisy Arruda, lançada à fama pelo escândalo de se vestir de forma apelativa ao entrar numa faculdade da Uniban, em São Paulo, e que fez os politicamente corretos agirem em solidariedade a ela a pretexto da "liberdade do corpo". Pouco depois, ela se revelou uma oportunista e uma personalidade tão superficial quanto qualquer uma "fabricada" pelo Big Brother Brasil.

A solteirice, muitas vezes forçada e em outras falsa - como no caso de uma conhecida funqueira que jura estar solteira, mas continua casada - , das musas vulgares também é um prato cheio não só para alimentar o milionário mercado de revistas "sensuais" e desfiles de escolas de samba, mas também um meio de forjar a falsa impressão de que essas "musas" são "emancipadas", dissimulando o machismo que elas representam.

O mais grave é que a mídia machista atua com muita sutileza. Tenta sobreviver e se adaptar estrategicamente às mudanças trazidas pelo feminismo, de forma que muito de seus valores e fenômenos chegam a ser defendidos até pelas mulheres.

Por isso é necessário discutir a mídia machista, que cria cada vez mais novas armadilhas, como meio dela prevalecer na sociedade sem que esta a reconheça como machista. Cynthia Semíramis fez sua parte. Os manifestantes da Marcha Nacional Contra a Mídia Machista fizeram a sua. Convém todos nós fazermos a nossa.

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