sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A GRANDE MÍDIA E A "MPB DE MENTIRINHA"


Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia está em polvorosa e, por isso, ela faz tudo para neutralizar os efeitos das transformações sociais do Brasil.

Evidentemente, ela não o faz apenas através do mau-humor dos comentaristas políticos dos telejornais. Seria muita ingenuidade achar que o trabalho se limita e se encerra num Arnaldo Jabor bufando diante da TV ou numa Miriam Leitão com ar sombrio condenando os movimentos sociais.

O resto do "pacote" está justamente naquele "alegre" entretenimento "popular", que, em todos os aspectos, trabalha uma visão ao mesmo tempo caricata e glamourizada das classes populares, sob o intuito de torná-las mais dóceis e conformistas para o "sistema".

Mas o que este blogue chama muito a atenção é que os ideólogos desse entretenimento "popular" tentam jogar no campo adversário, evitando que sejam confundidos com os comentaristas políticos mais reacionários. E evitam essa confusão também adotando um discurso mais "positivo".

No fundo, porém, são dois lados de uma mesma moeda. Reinaldo Azevedo criticando os movimentos sociais de verdade. Pedro Alexandre Sanches exaltando os "movimentos sociais" de proveta. Os "militantes" do Coletivo Fora do Eixo criando uma tal de Pós-TV, enquanto, em contrapartida, difundem seus ideais na Rede Globo, na revista Caras e até na Folha de São Paulo.

E no "couvert artístico" desse cardápio ideológico que busca, no caso de São Paulo, garantir a eleição de José Serra - embora saibamos que o rival Fernando Haddad conta com o apoio fisiológico de Paulo Maluf, a grande mídia está toda com Serra - , está a pseudo-MPB de ídolos brega-popularescos "emancipados", com popularidade e fama suficiente para se passarem por "artistas renomados".

VISÃO ELITISTA DA MPB

Enquanto a intelectualidade associada comemora quando ídolos brega-popularescos, na medida em que se tornam bem-sucedidos e, de certa forma, veteranos, passam a fazer um simulacro de MPB, o resultado apresentado nem de longe contribui para a verdadeira renovação da música brasileira.

A própria visão que eles têm da MPB é de algo distante que só é tardiamente atingido. E, quando é atingido, é de acordo com os mesmos valores elitistas que se tornaram o estigma da chamada Música Popular Brasileira.

Ou seja, eles mantém aqueles mesmos aspectos de luxo e de pompa e de uma produção musical "não muito brasileira", baseado mais nos referenciais radiofônicos. É uma "MPB de mentirinha", uma pseudo-MPB que nada acrescenta de novo ou de relevante, apenas é algo cosmético, superproduzido para parecer "decente".

A experiência é feita desde o final dos anos 1998, quando a Rede Globo passou a patrocinar a geração neo-brega surgida no final da década anterior: Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Leonardo, Daniel, Ivete Sangalo, Belo, Latino, Zezé di Camargo & Luciano, entre outros.

A partir daí, são nomes gravando covers de sucessos da MPB - manjados e, de preferência, sem uma temática contundente, quando muito a linguagem metafórica de "Disparada", de Geraldo Vandré, ou os lamentos sentimentais de "Nervos de Aço", de Lupicínio Rodrigues - , num cenário com muita iluminação, muitos músicos, cantores de apoio e dançarinos, vestuário de luxo, pompa, luxo e tecnologia de ponta.

Isso tem por objetivo ludibriar a opinião pública. Afinal, as regras tão criticadas na pasteurização da MPB pela indústria fonográfica não foram rompidas. O jogo não acabou, o problema acabou sendo com os "jogadores", que foram substituídos.

Afinal, nomes como Guilherme Arantes, Zizi Possi, Dalto, Byafra e Ritchie acabaram se tornando bodes expiatórios de uma decadência da qual eles só contribuíram a contragosto, por imposição de produtores e gerentes de gravadoras.

A "MPB burguesa" continua, mas seus "jogadores" hoje possuem "maior apelo popular" e são mais maleáveis aos ditames da mídia. Até para regravar sucessos do Rock Brasil e da MPB, os "artistas" atuais são mais marqueteiros. Vide Alexandre Pires pegando carona em tributos diversos a antigos sambistas ou a sua aventura oportunista na carona tardia na redescoberta de Wilson Simonal.

Tudo tendencioso, postiço, cosmético. Mas até o discurso "anti-MPB" da crítica mudou de foco, não mais contra a pasteurização fonográfica, mas contra a sofisticação daqueles que cometeram o êxodo contratual das grandes gravadoras, migrando para a Biscoito Fino.

Afinal, a MPB autêntica é que sai culpada de tudo. Enquanto isso, a pseudo-MPB que "consagrou" os neo-bregas já possui uma nova safra com Cláudia Leitte, Péricles, Thiaguinho, Michel Teló, Gusttavo Lima, Buchecha, Banda Calypso, entre outros.

Tudo isso é feito para alimentar os sucessos comerciais da grande mídia. Não é cultura brasileira de verdade, por mais que a intelectualidade tente dizer o contrário com todo o seu arsenal discursivo. É apenas o hit-parade brasileiro, mais próximo dos escritórios do que das periferias, e que favorece, sim, os interesses dos barões da grande mídia, mantendo o povo pobre domesticado e socialmente conformado.

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