domingo, 28 de outubro de 2012

A DECADÊNCIA DO "FUNK CARIOCA"


Por Alexandre Figueiredo

A decadência do "funk carioca" é vista como um tabu para seus defensores. Mas a choradeira destes em defesa do ritmo não conseguiu que ele se desgastasse, com o crescimento das críticas feitas contra o "funk", como se nota sobretudo nas redes sociais na Internet.

MC Leonardo, presidente da APAFUNK (Associação de Amigos e Profissionais do Funk) deixou subentendida sua aflição diante da decadência que o ritmo sofre atualmente, em artigo na Caros Amigos, lamentando a "falta de reação das favelas' em defesa do ritmo.

Uma das piadas publicadas no Facebook, por exemplo, é intitulada "O Funk Salvou Minha Vida", em que uma menina internada desacordada num hospital, ao ver que a enfermeira decidiu colocar um CD do Mr. Catra para tocar, levantou de sua cama e desligou o toca-CD.

As críticas cresceram de tal forma que nenhuma acusação de preconceito é mais possível. Tanto que as queixas vem de pessoas que já sabem o que significam DJ Marlboro, Gaiola das Popozudas, Mr. Catra e outros nomes. Nem a turma do "melody" escapa, como Latino e MC Leozinho. E as críticas são extremamente duras, não cabendo qualquer relativismo.

A situação se tornou tão clara que surgiu até mesmo uma campanha pelo uso de fones de ouvido nos ônibus e outros locais públicos, iniciativa explicitamente influenciada pelo "funk" ouvido por muitos passageiros abertamente, causando incômodo para outras pessoas.

NENHUM ELITISMO

O incômodo que o "funk carioca" causa na sociedade nada tem a ver com elitismos nem com campanhas moralistas. A coisa mostra mais complicada do que se pensa, pelo menos em relação aos funqueiros. O desgaste do gênero, por mais que a blindagem intelectual e artística (de intérpretes "performáticos" simpatizantes) tente evitar, se deve às próprias caraterísticas do gênero.

Afinal, o "funk carioca" tem claras limitações artísticas e musicais. Seus sucessos são repetitivos e seus intérpretes só se diferem como fetiches, mas artisticamente soam todos iguais. A demagógica tese de que o "funk" é um ritmo "riquíssimo", artisticamente falando, não se cumpre na prática e existe até uma piada de que de "rico" o "funk carioca" só tem a fortuna de seus DJs e empresários.

A mediocridade do próprio ritmo também é gritante. Péssimos vocalistas, sonoridade repetitiva e precária, tudo isso faz com que o ritmo não vá muito adiante na sua linguagem. Precisa que artifícios publicitários mascarados de teses intelectuais ou científicas - como reportagens, monografias e documentários que usam e abusam dos clichês narrativos do New Journalism e da História das Mentalidades - sejam veiculados para dar alguma "validade" ao gênero.

Mesmo assim, o "funk carioca" não consegue acompanhar as transformações sociais. Se o ritmo já se mostrava deplorável artística e culturalmente, ele tenta em vão sobreviver como "cultura superior", ostentando uma reputação "vanguardista" bastante falsa, porque o "funk" está associado a processos e valores de degradação social.

As mudanças sociais não conseguem ser acompanhadas pelo "funk carioca". Primeiro, porque o ritmo aposta no mais explícito machismo que trata a mulher como um objeto sexual. E até mesmo o suposto celibato das "mulheres-frutas" e similares, que poderia sinalizar, para muitos, um suposto "feminismo" funqueiro, foi desmascarado pelo fato de que várias funqueiras "solteiras" na verdade possuem namorados ou são muito bem casadas.

A pedofilia, a criminalidade, a violência e as drogas também se tornaram "valores" associados ao "funk carioca". A intelectualidade esperaria uma recuperação de reputação comparável ao jazz e ao rock'n'roll, mas isso não aconteceu. Primeiro porque os dois ritmos tinham valor artístico e uma linguagem menos repetitiva, coisa que o "funk carioca" não tem.

Isso porque o "funk carioca" - na verdade, uma tradução brasileira do miami bass - aparentemente se inspirava no funk eletrônico de Afrika Bambataa e clamava influência de James Brown. Mas os próprios funqueiros abandonaram qualquer lição do funk original, isolados na sua arrogância bairrista nos subúrbios do Grande Rio, na sua recusa ao uso de instrumentos musicais e outros recursos artísticos.

Desesperados, os funqueiros agora tentam recorrer aos mesmos artistas que abandonaram, num último sinal de oportunismo e tentativa de sobrevivência. Vendo as transformações dos valores sociais avançarem, o "funk carioca" mostra-se datado, ultrapassado e fechado em todos os sentidos.

FUNQUEIROS É QUE SÃO PRECONCEITUOSOS

Isso mostra que os funqueiros é que são preconceituosos, arrogantes, intolerantes. Queriam aprisionar as favelas ao ritmo, transformando a população pobre em refém do "funk carioca". Mas as denúncias de violência, os assassinatos e as diversas baixarias, além da mesmice sonora do ritmo, agravam a decadência.

Além disso, para quem acha que rejeitar o "funk carioca" é coisa de elitista, não é raro haver casos de mães e outros familiares estarem preocupados vendo seus filhos indo a "bailes funk" para nunca mais voltarem. E em muitos desses "bailes" torna-se explícita a baixaria sexual, com gente transando diante de multidões e havendo até mesmo estupros de menores.

Mesmo a parte "mais politizada" do "funk carioca" não disse a que veio, tentando defender uma visão confusa e contraditória de cidadania. Na famosa reunião da ALERJ que, de forma politiqueira, definiu o "funk carioca" como "movimento cultural" - alguns fofoqueiros chegaram a falar em "patrimônio" - , MC Leonardo apoiou a possibilidade do "funk carioca" ser usado na Educação. Com a repressão dos "proibidões" nos "bailes funk" das UPPs, MC Leonardo desmentiu que o "funk" tenha compromisso educativo.

Vendo com isenção e objetividade, letras como "Rap da Felicidade" e outras de nomes como MC Júnior & MC Leonardo (o mesmo da APAFUNK), na verdade, nada soam "contundentes", sendo tímidos "protestos" contra a repressão policial e apenas um apelo para que os pobres sejam incluídos no mercado de consumo da sociedade.

Dessa feita, o "funk carioca" se desgasta profundamente, por suas próprias limitações, pela sua mais evidente mediocridade e pelas baixarias em que se envolve. A choradeira ainda vai continuar, com seus defensores tentando dizer que "o funk não está decadente" ou dizer que "o funk é mais uma vez vítima de preconceitos".

Só que esse discurso também está sendo repetitivo e pouco convincente. E o povo das favelas merece coisa melhor. A sociedade se evolui e o "funk carioca" não consegue acompanhar essas mudanças. Até porque, andando pelas ruas, dá para ver que quem mais ouve esse ritmo são pessoas machistas e agressivas, que não inspiram a menor confiança.

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