domingo, 23 de setembro de 2012

THE VOICE E O ACADEMICISMO MUSICAL PELA GRANDE MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

É curioso. A intelectualidade dominante, quando atira contra seu alvo predileto, a MPB da Biscoito Fino, a acusa de academicista, escolástica, como se seus artistas fossem os "donos da canção popular".

Mas nunca se viu Chico Buarque, Olívia e Francis Hime ou mesmo a ex-ministra Ana de Hollanda alardeando na imprensa que só eles é que entendem de cultura popular, de folclore brasileiro. Nem sequer o "estadunidense" (segundo os detratores) Tom Jobim, que do contrário que muitos pensam, foi mil vezes mais gente simples do que todo o elenco da música brega brasileira dos últimos 50 anos.

No entanto, quando se trata da televisão fazer o seu academicismo, para a intelectualidade tudo bem. É a mesma conversa de reclamarem da "MPB pasteurizada" engomada e perfumadinha, quando os cantores se chamam Guilherme Arantes e Zizi Possi. Mas se eles se chamam Ivete Sangalo e Alexandre Pires, tudo se torna "admirável" e "promissor".

Os reality shows não são programas muito confiáveis ou criativos. Mas viraram uma praga na televisão em geral pelo seu baixo custo de produção e pelo baixo esforço de roteiro e direção. Se o SBT e a Rede Record já vinham com os seus "riélites" musicais - um deles com a participação do "roqueiro fora do eixo" Carlos Eduardo Miranda, totem sagrado da intelligentzia brasileira - , é a vez da Globo investir no The Voice Brasil.

O novo programa é uma franquia de um programa originalmente produzido pela TV holandesa, The Voice of Holland, produzido pela Talpa (atual Tien), produtora de John de Mol, também sócio-fundador da Endemol, dona da marca Big Brother, usada pela franquia Big Brother Brasil. Sílvio Berlusconi é também um dos sócios da Endemol.

A edição brasileira é puxada pelo sucesso da edição norte-americana, The Voice, que concorre com o American Idol e X-Factor. Aparentemente, são programas que apostam na profissionalização de cantores para impulsioná-los em carreiras comerciais com contratos fonográficos.

A Globo havia apostado antes em outro reality show, o Fama, que, assim como o Big Brother Brasil teve Jean Wyllys e Grazi Massafera, exceções que usaram o "riélite" apenas para se tornarem mais conhecidos, teve a excelente cantora Roberta Sá como um dos competidores. Em contrapartida, a cria do programa, o cantor de sambrega Thiaguinho, havia passado por um breve tempo no Exaltasamba e hoje inicia carreira solo.

A única diferença do The Voice Brasil é que os cantores a competirem já são profissionais com algum tempo na carreira. Em certos aspectos, é um ponto em comum com A Fazenda, da Rede Record, embora no caso do The Voice os competidores não sejam famosos com risco de cair no ostracismo, mas músicos considerados emergentes.

PROGRAMA NÃO REPRESENTA RENOVAÇÃO REAL PARA A MÚSICA BRASILEIRA

O programa tem apresentação de Thiago Leifert, na sua primeira investida em rede nacional fora do telejornalismo esportivo, e da atriz Danielle Suzuki. O júri é formado por dois cantores ligados à MPB, Carlinhos Brown e Lulu Santos, e dois ídolos brega-popularescos, a cantora de axé-music Cláudia Leitte e o crooner breganejo Daniel.

A julgar pelos propagandistas do programa, como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó e Thiaguinho - nomes associados ao pedantismo neo-brega dos anos 90, sendo Thiaguinho seu expoente mais tardio - , o programa apenas será um "alimentador" do mercado de sucessos musicais brasileiro. Quem esperar que The Voice Brasil vá renovar a Música Popular Brasileira está redondamente enganado.

Primeiro, porque o profissionalismo musical não significa necessariamente maior valor astístico. Aqui os intelectuais que esculhambam a MPB da Biscoito Fino deram um tiro no pé. Preferir artistas amestrados pelo mercado e pela mídia, fazendo ora uma MPB mais inofensiva e "feijão com arroz" - que nada traz de novo em relação ao que já foi feito - , ora um brega-popularesco mais pedante e pretensioso, do que a MPB mais sofisticada, é um contrasenso.

Afinal, é a mesma mentalidade do hit-parade norte-americano, que vende uma imagem de falsa sofisticação artística às custas de nomes como Whitney Houston, Celine Dion e Michael Bolton. Isso é que é academicismo, que "ensina" um padrão comercial e asséptico de "grande artista", que não é mais do que um crooner flexível às regras do mercado.

Os próprios neo-bregas, como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Cláudia Leitte e Daniel, já têm tal "experiência", de ganharem banhos de loja, técnica, tecnologia e marketing para passar uma imagem mercadológica do que a grande mídia entende como "grandes artistas".

Isso é que é a tal "MPB de revista Caras". Pois a revista Caras está cheia desses nomes, virou o reduto maior dos neo-bregas, a ala pseudo-sofisticada da música brega surgida nos anos 90 (com alguns reflexos em 2002-2003). E, a julgar desse apoio dos neo-bregas, o programa nem de longe será um marco para a música brasileira. E Carlinhos Brown e Lulu Santos estão mais como "contrapontos" no programa e são nomes de muito sucesso.

Aliás, fica muito estranho depender da Rede Globo para a renovação da música brasileira, se nem a Rede Record é capaz de reeditar os festivais de MPB dos anos 60. Não temos uma nova TV Excelsior, e a MPB autêntica só possui espaço próprio e integral em programas de emissoras educativas.

O The Voice Brasil apenas colocará novos nomes para as "rádios populares", FMs também conhecidas pelo seu controle oligárquico mais explícito, embora não reconhecido pela intelectualidade dominante. E já que tudo é mercado no entretenimento dominante de hoje, não será The Voice Brasil a exceção esperada.

Portanto, deixemos de ilusões. The Voice Brasil está muito mais para os programadores de rádio do que para os verdadeiros estudiosos da música.

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