segunda-feira, 24 de setembro de 2012

RITCHIE É USADO PARA DEFESA DE BREGANEJOS


Por Alexandre Figueiredo

Em mais um artigo neoliberal-pós-tropicalista-pós-moderno-meta-industrial-tecno-conectado, desta vez na revista Fórum, Pedro Alexandre Sanches aparentemente investiu num artista de MPB, o cantor Ritchie.

Sim, um artista de MPB autêntica, embora Ritchie seja de origem inglesa, nascido Richard Davis Court. Mas é porque seu compromisso cultural com o Brasil é muito mais autêntico e sincero do que o de muitos brega-popularescos que sonham com Miami e Nashville.

Não devemos esquecer que, no passado, tivemos também, por exemplo, Mário Zan, que era nascido na Itália, mas que tão sinceramente se envolveu no amor à cultura regional brasileira. Mas também vemos que até mesmo a cantora portuguesa Eugênia Melo e Castro é muito mais MPB do que muito breguinha pretensioso chorando feito bebê malcriado diante da mídia.

Mas como a apropriação de ícones da MPB por Pedro Alexandre Sanches - o discípulo pós-moderno mas meio envergonhado de Fernando Henrique Cardoso, o mesmo guru de José Serra, Geraldo Alckmin e do patrão-mentor-colega de Sanches, Otávio Frias Filho - é feita tanto para localizar a história fukuyamiana da MPB para nada antes de 1967 como para desenvolver uma "cultura de massa" brasileira, o colonista-paçoca lança mão de vivos e mortos para corroborar sua propaganda pessoal pelos ídolos bregas.

E aí uma reportagem politicamente correta, tecnicamente eficaz, sobre o cantor inglês naturalizado brasileiro, amigo tanto de Thomas Dolby (seu sócio num projeto de informática), Steve Hackett, Jim Capaldi (já falecido) e Steve Winwood quanto de Caetano Veloso, Gal Costa., Egberto Gismonti, Lulu Santos e Lobão (destes dois foi colega de banda no Vímama).

Sabemos do infortúnio que foi o mega-sucesso comercial de Ritchie, que através do seu álbum solo de estreia, Voo de Coração, de 1983, que deveria ser um álbum de tecnopop moderno introduzido no Brasil, mas acabou sendo desnorteado para uma divulgação brega que depois incomodou o cantor.

A fama equivocada de "sucesso brega" de "Menina Veneno", uma música que, pessoalmente, eu curto muito, tornou-se um "fenômeno" à parte, pelo direcionamento errado que o sucesso da música teve, sobretudo em rádios popularescas, que fizeram a má fama do cantor, que teve que optar por um semi-ostracismo e trabalhar com informática com Thomas Dolby, o cantor-tecladista de "She Blinded Me With Science".

Tendo quase abandonado a música, Ritchie é um daqueles casos de artista de MPB que paga pelos pecados cometidos pelos ídolos bregas. Desse modo, a mídia tenta manobrar a reputação de Gillard, Fernando Mendes e José Augusto para que eles invertam os "papéis" com gente séria da MPB como Vinícius Cantuária, Guilherme Arantes e Dalto.

Com Ritchie, não foi diferente. Um artista dotado de muitas informações musicais, desde quando era um garoto inglês que amava os Beatles e os Rolling Stones e depois passou a amar o rock progressivo - mas de forma equilibrada que o permitiu se indignar, com os ex-colegas do Vímana, com os delírios progressivos datados de Patrick Moraz, que os recrutou para uma depois abortada banda de apoio do ex-Yes - , acabou sendo visto erroneamente como um "cantor brega".

E aí veio, nos anos 90, a dupla Zezé di Camargo & Luciano gravar a música num arranjo grandiloquente e pretensioso para os vocais afetados da dupla goiana. Pronto. Ritchie agora pode pagar os pecados dos dois filhos de Francisco Camargo, enquanto Ritchie que se vire na sua carreira, carregando o fardo de "cantor brega", enquanto Zezé e Luciano fazem "MPB de mentirinha" nos palcos da Rede Globo e nas páginas da Folha de São Paulo e Caras.

Pedro Sanches, então, se apropria da reputação de Ritchie para tentar forçar a associação dele com o breganejo, como escreve no decorrer da reportagem. Tenta manipular para um sentido positivo o que para Ritchie foi uma crítica severa: o inglês não aprovou o sucesso de Michel Teló e Gusttavo Lima, apenas estranhou que, 30 anos após a eclosão do Rock Brasil, haja a "promessa de sucesso mundial" de cantores interioranos.

Sanches achou "ótimo". Tentou manobrar o discurso a favor de suas teses. Para Sanches, Michel Teló virou "sucesso mundial" e ponto final, só falta o jornalista defini-lo tendenciosamente como um "misto de Bono Vox com Julian Assange". Sabemos que esse "sucesso mundial" não passa de marolinha, que Teló só tocou em espaços de terceira categoria e mesmo sua aparição em listões internacionais é fruto de muito jabaculê.

Só que dizer que "Menina Veneno" tem a ver com os breganejos, como se houvesse uma "fina sintonia" entre ambos, é uma grande mentira. Pedro Sanches apenas forçou a barra na sua associação tendenciosa. Afinal, o breganejo, como todo ritmo brega-popularesco, não tem a natural sabedoria cultural que a MPB autêntica possui, porque sabedoria não é apenas acumular conhecimentos, mas saber processá-los, coisa da qual os bregas são totalmente incompetentes.

Mas talvez faça algum sentido, afinal Sanches quer receber passagens de graça para viajar para Goiás, para o interior do Paraná e para o Pará, fazer reportagens sobre eventos popularescos de lá com as despesas pagas pelo latifúndio. Faz parte do espetáculo do jabaculê que atinge a intelectualidade dominante em nosso país.

Tavinho Frias deve estar orgulhoso com seu ex-funcionário mas para sempre seu discípulo.

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