domingo, 16 de setembro de 2012

POR QUE A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA BAJULA A MPB "MAIS DIFÍCIL"?


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que defende o brega-popularesco, a princípio, apostava na dicotomia entre a MPB que eles consideravam "sofisticada", e o "popular" que rolava nas rádios e se tornava sobretudo modismo de temporada.

Da MPB que eles classificavam, até de uma forma um tanto pejorativa, de "sofisticada", eles dividiam entre dois grupos específicos, mas igualmente alvo de seus ataques "urubológicos".

Um é a MPB universitária impulsionada pela Bossa Nova, que a citada intelectualidade define, até com indisfarçável repugnância, de "elitista" e "preconceituosa", da qual o maior símbolo é o cantor Chico Buarque. Outro é o folclore brasileiro, de sambas, baiões, maracatus, modinhas autênticos etc são vistos por esses mesmos intelectuais como "ultrapassados" e "isolacionistas".

Num só golpe, intelectuais acabam depreciando a reputação nobre tanto de Chico Buarque, Tom Jobim e Elis Regina, tidos como "elitistas", quanto de Jackson do Pandeiro, Luís Gonzaga e Cartola, tidos como "ultrapassados".

Os ataques chegam a certo ponto de um desses intelectuais, o festejado Pedro Alexandre Sanches, que tanto se quer associar-se à esquerda pensante, apesar do seu "esquerdismo" ter se provado fajuto em vários momentos (além do próprio DNA da Folha de São Paulo que pesa muito no seu trabalho), fazer ataques verdadeiramente "urubológicos" à MPB de esquerda e ao engajamento dos fãs desta.

É a mesma paranoia que fez a intelectualidade prototucana - que depois veio a fundar o PSDB e desenhar o padrão do pensamento neoliberal brasileiro de hoje - condenar, pelos mesmíssimos motivos, os Centros Populares de Cultura da UNE, superestimando posições pessoais de gente como Carlos Estevam Martins e o autor-ator-diretor teatral Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, ambos já falecidos.

Evidentemente, a intelectualidade que defende o brega-popularesco não quer debate sério. Preferem uma "problemática" sem problemas, um debate que não debate, uma provocação que não provoca, uma reflexão crítica que não reflete nem critica.

Mas, em dado momento, esses intelectuais têm que reduzir a hostilidade que possuem em relação à MPB autêntica, até para isolar a MPB mais sofisticada nos condomínios mais do que fechados, nas modernas maçonarias urbanas das grandes cidades, já que até mesmo muitos condomínios de luxo já se rendem ao mais escancarado popularesco de "sertanejos universitários", axezeiros, funqueiros e forrozeiros-bregas.

Da mesma forma, eles precisam também isolar o folclore das manifestações culturais autênticas nos museus e nos acervos pessoais de especialistas, evitando assim que o povo pobre hoje possa dar continuidade aos sambas, baiões, maracatus, modinhas etc que seus pais e avós apreciavam ou faziam outrora. Os jovens pobres que fiquem consumindo a mesmice brega-popularesca imposta por rádios e TVs.

Por isso, como em todo discurso neoliberal, onde se "libera" um pouco e se oculta muito, a intelectualidade dominante decide evocar tendenciosamente uma falsa defesa ao folclore e à MPB mais sofisticada, só para dizer que "não são intolerantes com a MPB", e como uma forma de associar, erroneamente, a certa parcela da MPB, ao brega-popularesco que já perece num desgaste inevitável.

Daí as apropriações de Pedro Alexandre Sanches, que só porque entrevistou muita gente da MPB não quer dizer que seja uma "figura sagrada" da intelectualidade brasileira. Se fosse assim, Miriam Leitão seria "diva" da nossa imprensa, só porque entrevistou muita gente da política brasileira, muitos historiadores, economistas, intelectuais.

Sanches tenta "costurar" uma falsa analogia entre os bregas que reinavam nas rádios e TVs mas hoje posam de "coitadinhos" - de Odair José a Leandro Lehart, passando por Tati Quebra-Barraco, Banda Calypso e Gaby Amarantos, além de Michel Teló - e os verdadeiros "malditos" da MPB que tiveram e têm dificuldade de serem tocados no rádio.

Em primeiro lugar, há uma diferença gritante entre os bregas, que fazem um som indigente e indigesto, influenciado pela mesmice da gororoba radiofônica culturalmente subnutrida, e os alternativos da MPB que levam sua criatividade para expressões mais avançadas e "difíceis".

Sendo mais simples: os bregas se valem por sua ignorância e mediocridade e pelos seus referenciais culturais previsíveis, superficiais e precários. Os alternativos da MPB valem pela sua inteligência, pela criatividade mais arrojada e pelos referenciais culturais complexos, imprevisíveis e sofisticados.

Não dá, portanto, para colocar num mesmo patamar um Waldick Soriano que só gravou boleros medíocres e caricatos com um Itamar Assumpção que traduzia, numa revisão crítica do pós-Tropicalismo, influências da música concreta de Edgard Varese, Karlheinz Stockhausen, Pierre Boulez e Hans-Joachim Koellreutter.

Da mesma forma, não dá para dar o mesmo valor para um Odair José que só gravou roquinhos fajutos, como um Pat Boone à brasileira, subserviente ao cardápio subnutrido das rádios e TVs mais comerciais, e um Sérgio Ricardo que pesquisava o folclore brasileiro, assimilava à sua maneira a linguagem da Bossa Nova e criava uma poesia simples dentro da filosofia do CPC da UNE.

É até risível que Sérgio Ricardo seja cortejado pela intelectualidade que defende o brega-popularesco, porque ele fez parte da mesma MPB esquerdista condenada pela mesma intelectualidade. E se Sérgio Ricardo virou um "herói" para esses intelectuais porque foi vaiado quando cantava "Beto Bom de Bola" num festival de MPB, é por um mal entendido que certos fanáticos tinham naquela época.

Além do mais, é bom deixar claro que Sérgio Ricardo e Chico Buarque possuem o mesmíssimo background artístico,  e "Beto Bom de Bola" é uma canção tão "tola" quanto "A Banda". Mas torna-se tendencioso para a intelectualidade querer apoiar Sérgio Ricardo, a pretexto da vaia que ele recebeu, em detrimento de Chico Buarque, que a intelectualidade quer isolar até de seus semelhantes.

Isso porque, nos tempos da ditadura, a politização na música era uma necessidade de muita gente diante dos limites impostos pela censura e repressão ditatoriais. É verdade que muita injustiça foi cometida, como no caso de Wilson Simonal, tido como "dedo duro" e Toni Tornado e Erlon Chaves, tidos como "alienados" (o que fez Toni largar a música, a contragosto, e fez Erlon, amargurado, morrer de enfarte com 41 anos incompletos).

Mas isso não significa que a "MPB esquerdista", em si, seja abominável. Houve radicalismos, mas hoje a intelectualidade mais influente tenta enganar as pessoas adotando uma postura "esquerdista" que não vai além de certos clichês e apelações - como Pedro Alexandre Sanches escrever para Caros Amigos e Fórum como se ainda estivesse escrevendo para a Folha de São Paulo - e que se torna, na prática, tão anti-esquerdista quanto qualquer paranoico texto de Merval Pereira e Reinaldo Azevedo.

Daí a série de contradições que a gente vê nesses intelectuais. "Esquerdistas", atacam as esquerdas. Tratam os ídolos musicais, independente de qualidade, como "geniais" só porque foram vaiados ou levaram "pau" da crítica. Tentam afirmar o valor da cultura brasileira pelo "não-valor", e tomam por "expressão do saber" o que na verdade é a expressão do não-saber.

E ainda querem que Sérgio Ricardo, Zezé Motta, Marcos Valle, Quinteto Violado, Paulo Diniz, Teatro Mágico, Arrigo Barnabé e mesmo os falecidos Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção assinem em baixo em tudo de breguice despejado pelo esgoto radiofônico-televisivo dos últimos 22 anos (e, em certos aspectos, dos últimos 30, 35, 42 anos). Não dá. A MPB alternativa é muito inteligente e rebelde para ser comparada à ignorância

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