sexta-feira, 21 de setembro de 2012

OS MALABARISMOS DISCURSIVOS DA "CULTURA DE MASSA" BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que defende a "cultura de massa" brasileira, sabemos, mudou levemente algumas posições.

Eles invertem defeitos, como acusar a MPB autêntica dos defeitos que o brega-popularesco comete, das mentiras e omissões do mercado jabazeiro, da presença na mídia mais elitista (como Caras) etc. A MPB paga pelos pecados dos bregas.

Da indiferença quase absoluta à MPB autêntica, ela passou a admitir uma parcial valorização da MPB de qualidade, indo dos "medalhões" mais flexíveis até mesmo aos "malditos" que os intelectuais se apropriam para associá-los tendenciosamente aos bregas de uma forma ou de outra.

A própria abordagem desses intelectuais, antes "radicalmente hostis" à MPB, passou a mudar o alvo dos ataques discursivos. Se antes a ojeriza era contra a MPB que se limitava a gravar baladas românticas açucaradas, com seus cantores e grupos gravando em Nova York ou Los Angeles, junto a orquestras numerosas e todo um clima de pompa e de luxo, a retórica mudou.

Pois se os alvos antes eram reconhecidos nas fases mais comerciais de Simone e Guilherme Arantes - artistas talentosos que, no entanto, simbolizaram a "MPB burguesa" dos anos 80 ao sucumbirem aos ditames das gravadoras - , hoje os alvos se tornaram não exatamente essa fase pasteurizada da Música Popular Brasileira, mas a MPB sofisticada da gravadora Biscoito Fino.

Ou seja, se antes o paradigma era as pasteurizações de Lincoln Olivetti e Robson Jorge, o pragmatismo de Mazzola e a fase piegas de Roberto Carlos, o paradigma passou a ser Chico Buarque, o casal e caro amigo de Chico, Francis e Olivia Hime (a "chefona" da Biscoito Fino) e o que vier de herdeiro "mais purista" da obra de Antônio Carlos Jobim.

Isso faz muita diferença, porque uma coisa são as normas comerciais dos sucessos do meio musical, outra coisa é a sofisticação verdadeira, da qualidade musical em sua mais alta expressão. E tal malabarismo discursivo coloca a intelectualidade dominante dentro da mesma lógica de mercado que decidiu "perdoar" os deslizes da MPB pasteurizada, até porque elas resultaram até mesmo nos "deslizes" de Fagner pela safra do hoje "injustiçado" Michael Sullivan e seu parceiro Paulo Massadas.

Isso porque, desde os anos 90, o hit-parade norte-americano, "padrão" do que deve ser a música comercial do resto do planeta, já converteu a pieguice romântica de nomes como Whitney Houston, Michael Bolton e outros na falsa sofisticação musical a ser apreciada no Brasil, com direito a fãs fanáticos e agressivos.

Portanto, aquele "pecado mortal" da MPB gravar baladas açucaradas e se encher de pompa e de luxo foi "perdoado" pela nossa intelligentzia. Até porque, no final dos anos 90, os ídolos neo-bregas, como os do "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music que fizeram sucesso entre 1989 e 1992, tiveram que apelar para imitar a MPB pasteurizada dos anos 80.

Nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano, Exaltasamba, Leonardo, Daniel e outros passaram a seguir as mesmas regras da MPB pasteurizada que afugentou os nomes da MPB autêntica, que migraram para a Biscoito Fino e, em parte, para a Trama Discos.

Ainda não era o parasitismo ambicioso que, no sambrega, por exemplo, se limitava a emular Zeca Pagodinho - ignorado pelo mercado, mas "descoberto" pela mídia em 2002 e pelos sambregas logo depois - e, no caso do "sertanejo", não havia ainda a postura verossímil de falsa música de raiz, mas os neo-bregas queriam se justificar na mídia através da carona na MPB da qual sentiam um forte desprezo.

Isso permitu que a intelectualidade que foi adestrada a defender, a partir de 2002, os ídolos bregas de qualquer tendência, pudessem consentir com as mesmas regras da MPB pasteurizada que fizeram com que Simone, Zizi Possi e Guilherme Arantes fossem "abominados" pelos intelectuais mais badalados, enquanto até mesmo uma Sula Miranda que imitasse o "pior" de Zizi Possi era tratada como "genial".

A essas alturas Alexandre Pires passou a se apresentar com muito luxo e pompa, chegando a trocar de paletós em uma mesma apresentação, várias vezes. E Daniel, o remanescente da dupla breganeja João Paulo & Daniel, aprendeu com a fase comercial de Simone a usar uma caligrafia como logotipo.

Desse modo, a intelectualidade mais uma vez acusa os outros de "idealizarem a cultura popular". Mal sabem eles que, mais uma vez, jogaram a "responsa" deles mesmos nos outros, porque as aventuras dos neo-bregas na sua "MPB de mentirinha" não são mais do que a "idealização" que esses intelectuais e o mercado fizeram, transformando os breguinhas dos anos 90 através de um pretensiosismo pseudo-emepebista.

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