domingo, 2 de setembro de 2012

O USO LEVIANO DA RAÇA PARA DEFENDER O BREGA


Por Alexandre Figueiredo

Sabe-se, através deste blogue, que o jornalista Pedro Alexandre Sanches comete suas "urubologias". Ele é um "soldado" da velha grande mídia que tenta lutar em trincheira oposta, ou como um jogador que veste a camisa do time adversário para derrotá-lo com gols contra.

E uma de suas "urubologias" é tentar associar o brega-popularesco a alegações "étnicas" e "raciais" como se tentasse "enobrecer" a música comercial dominante no país, com argumentações falsamente folclóricas.

Nem no hit-parade norte-americano se fazia essa prática. Mesmo o termo black music se deu a partir de uma evolução natural dos chamados race records, "discos raciais", nos EUA complicadamente racistas, onde o racismo ainda era resistente em 1961, quando os Viajantes da Liberdade tentaram promover a democracia racial nas rodoviárias das cidades estadunidenses, e chegaram a sofrer ataques, prisões e um dos dois ônibus incendiado no caminho. Uma longa história que já sabemos, depois do caso da negra que se recusou a sentar no banco reservado para negros, episódio que mostrou a liderança sócio-política do pastor Martim Luther King Jr. para o mundo.

Só que se torna muito leviano definir o brega-popularesco através da expressão de "negros", "índios" e "brancos", dentro da integração racial "harmoniosa" (nem sempre isso foi assim) do discurso historicista dominante, que nem por isso deixava de dar a cada raça um papel "rigorosamente específico", coisa digna de abordagens etnocêntricas.

Escrevo isso porque, há dois anos e meio atrás, Pedro Alexandre Sanches, com seu poder de influência na mídia esquerdista - ele havia obrigado a Carta Capital a incluir os coronelistas Zezé di Camargo & Luciano na seção "Retratos Capitais" - , apesar de no fundo fazer o "dever de casa" do ex-patrão e sempre colega Otávio Frias Filho, convenceu a revista Fórum a colocar a então pouco conhecida Gaby Amarantos na capa de sua edição de março de 2010.

Sanches "sugeriu" a cantora baseado nas alegações, depois provadas como discutíveis, de que o tecnobrega causava horror à grande mídia, através de alegações difundidas no livro, então em lançamento, do advogado Ronaldo Lemos e sua parceira Oona Castro sobre o gênero.

Só que a edição de Fórum encalhou - em maio, ainda se via essa edição nas bancas - , o livro do tecnobrega (Tecnobrega: O Pará reinventando o negócio da música) foi para os sebos, na medida em que se constatou uma mentira o mito de que o tecnobrega era discriminado pela grande mídia. Nem em âmbito nacional e nem regional o tecnobrega sofreu essa discriminação. No Pará, o grupo O Liberal (da família Maiorana, a mais poderosa da mídia local e parceira das Organizações Globo na TV O Liberal) sempre apoiou o tecnobrega.

Em âmbito nacional, até a Veja, que condena furiosamente até mesmo os movimentos indígenas, foi gentil com Gaby Amarantos, na famosa edição das duas frases associadas a Dilma Rousseff, de 13 de outubro de 2010, que qualquer um das esquerdas mais medianas já leu. Também a TV Globo, O Globo, a Folha e o Estadão receberam o tecnobrega de braços abertos, e hoje Gaby Amarantos tem até perfil próprio na revita Caras.

Mas o assunto aqui é a "etnicização" da defesa do brega-popularesco, uma grande malandragem discursiva que nada contribui culturalmente. É apenas forçar a barra na propaganda da "cultura de massa" brasileira. É como defender o consumo de chicletes de bola usando como desculpa a biodiversidade da Amazônia.

Que todos somos brancos, negros, índios, nipônicos, ruivos etc, puros ou mestiços, isso é um fato comprovado sociologicamente. Mas isso em si não significa que o brega-popularesco é melhor porque "é mais negro" ou "mais índio". A música comercial brasileira mostra claramente que está muito distante de qualquer expressão cultural de índios, negros, imigrantes etc.

BREGA SEMPRE FOI INDIFERENTE À MPB. ATÉ DA MPB MAIS BÁSICA

O que mostra o equívoco que Pedro Alexandre Sanches fez, não só com o tecnobrega, mas com Michel Teló e outros nomes brega-popularescos. Isso porque a música brega e seus derivados sempre foram distantes e indiferentes até mesmo da MPB mais básica. Até para aderir aos clichês da "MPB burguesa" cheia de pompa e romantismo os bregas precisam serem orientados pelo mercado.

Em outra oportunidade, já foi escrito, aqui, que não é a MPB que tem preconceito com o brega - ela é até condescendente demais com este - , mas é o brega que sempre ignorou a MPB, só recorrendo a ela em última hora. E se sua indiferença envolve até mesmo os macetes básicos da MPB (como, por exemplo, as canções românticas de MPB dos anos 80 e nomes como Ana Carolina e Jorge Vercilo), imagine então em relação ao folclore brasileiro.

O "pagodão" baiano, por exemplo, nem de longe pode ser considerado "samba de roda", até porque o estilo não vê a diferença entre samba de gafieira e samba de roda, quanto mais a diferença de maracatu, lundu, maxixe, coco, caxambu e outros ritmos de influência africana no Brasil. Portanto, seu grau de negritude é zero.

Da mesma forma, não há como definir o forró-brega como "índio". Até porque o gênero se distancia até mesmo do mais básico baião, do mais trivial dos xaxados, preferindo superestimar a origem norte-americana do termo "forró", quando o Rio Grande do Norte servia de base militar para os EUA, durante a Segunda Guerra Mundial, e as casas noturnas colocavam a plaqueta "for all" para mostrar que as festas não eram só para militares estadunidenses.

Dessa feita, o forró-brega soa como um cruzamento caricato de disco music, country music e ritmos caribenhos, com o som do acordeon que nem sequer é nordestino, mas gaúcho. Ou seja, regionalidade zero, brasilidade zero, etnicidade menos tantos por cento ainda.

O breganejo mostra a mesma coisa. De música caipira, só há arremedos tendenciosos, sobretudo pela apropriação de canções alheias para manter as aparências. Porque, mesmo através de nomes supostamente "sofisticados" como Chitãozinho & Xororó, Leonardo, Daniel e Zezé di Camargo & Luciano, hoje tidos erroneamente como "música de raiz", o breganejo sempre foi uma forma diluída de música caipira, através das influências do country, mariachi e bolero desenhadas pela grande mídia e pela indústria fonográfica.

E o que dizer dos bregas mais urbanos? Odair José, Amado Batista, Fernando Mendes e Wando? Ou a axé-music? Ou o "funk carioca"? "Etnicizá-los" criaria um falso contexto, que não possui relação lógica com a verdadeira etnografia social brasileira, sendo apenas uma desculpa para empurrar tendências comerciais para uma retórica pseudo-folclorista.

Temos que admitir, em detrimento da visibilidade com que goza o referido jornalista, que deve-se deixar as questões raciais de lado. Se a medida é defender o brega-popularesco, por que não dizer "eu gosto disso" e ponto final? Chamar breganejos, funqueiros, tecnobregas etc de "negros-índios-brancos-mestiços-nipônicos" soa tão patético quanto definir a música brega atual como "pós-moderna-tropicalista-concretista-bolivariano-hiperconectado".

É muita pretensão retórica para músicas e ídolos que nem são assim essa maravilha que se alardeia por aí. E que expressam claramente a mediocridade cultural que domina o nosso país. E "etnicizá-los" só agrava a situação, mostrando a mediocridade intelectual que prefere defender a "indústria cultural" do que o verdadeiro folclore brasileiro. E o pretexto "racial" dessa defesa só poderá causar mais problemas.

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