sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O RIGOR ESTÉTICO DO "FUNK CARIOCA"


Por Alexandre Figueiredo

O que é esteticamente rigoroso? A MPB da Biscoito Fino, tida como "bode expiatório" dos males a que certos intelectuais influentes atribuem a ela?

Definitivamente, não. E muito menos Chico Buarque, "inimigo" desses intelectuais, famoso pela sua fluência artística e sua marca estilística, capaz de transitar entre o samba e a valsa com desenvoltura, sem soar forçado.

A música brasileira "mais purista", seja a sofisticação pós-Bossa Nova ou o "velho" folclore brasileiro - que andou perdendo recentemente nomes como Décio Marques, Altamiro Carrilho, Severino Araújo e, mais recentemente, Roberto Silva - , é que é mais livre na sua criação. Livre por conhecer a cultura brasileira, saber o que foi feito e reinventar em cima.

O brega é que é rígido esteticamente. E o "funk carioca", expressão "mais rebelde" da música brega, é o que mais investe nesse rigor. Se o brega, como um todo, sempre foi fechado no seu cativeiro radiofônico, o "funk carioca" leva isso às últimas consequências.

COMO SE DÁ ESSE RIGOR

O rigor estético, já escrevemos outra vez, se dá nivelando-se por baixo. Prende-se o "funk" na mediocridade mais grosseira. Não há melodia, não há harmonia vocal, tudo é feito através da mesma repetição de malabarismos de vitrola - o chamado sctratch - , uma batida do "pum" ou do "tamborzão" (bateria eletrônica imitando batuques de umbanda) e sempre um vocal fajuto, ruim mesmo.

Não se pode incluir cantores, instrumentistas, nem jogar melodia em cima. A não ser por motivos tendenciosos ou por questão de conquistar parcelas de consumidores. Nada é espontâneo, no brega-popularesco, vale lembrar. Tudo é mercado, tudo é modismo, nada é arte nem cultura.

Desse modo, temos o "pancadão-exportação" em que os DJs, para agradar turistas, tentam "rechear" o "pancadão" com mais sampleagens, as mais diversas possíveis, simulando um som eletrônico mais competitivo em relação aos DJs estrangeiros. E há também o "funk melody", espécie de cruzamento do "funk carioca" com o brega de Odair José e Amado Batista.

O "funk carioca" nem dá para ouvir. É inaudível. Mas seus empresários precisam ganhar dinheiro. Cria-se uma discurseira sofisticada para camuflar a ruindade musical, a mais baixa mediocridade artística do gênero. Mas esse discurso rico de apelações e recursos retóricos não faz do "funk carioca" um estilo artístico livre, criativo e relevante.

Muito pelo contrário. Camufla-se o lixo, através das mais arrojadas desculpas. Enquanto muitos deslumbram com esse discurso publicitário dissimulado em teses científicas e outros meios discursivos, quando se toca o CD constata-se que tudo não passa de um monte de conversa furada, mesmo travestida em documentários, monografias e artigos científicos mais elaborados.

Não há liberdade no "funk carioca". A juventude da favela não pode curtir outra coisa, ou então é obrigada a ouvir primeiro o "funk". Os intérpretes são manobrados pelos seus empresários, que são muito ricos mas esnobam quem denuncia essa riqueza.

E, além do mais, suas limitações artísticas não se dão por causa da suposta ignorância "sábia" (?!) das periferias, mas por causa do extremo rigor estético que seus empresários impõem ao gênero. Daí que o "funk carioca" não tem futuro, por mais que tentem seus defensores em perpetuar o estilo e elevar sua tão baixa reputação.

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