quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O QUE AS IDEIAS DE FRANÇOIS DERIVERY DIZEM SOBRE O BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Há uma grande diferença. No exterior, a mercantilização da cultura e outras ameaças são fartamente questionadas por uma intelectualidade séria, que não sucumbe aos parasitismos estatais, ao burocratismo acadêmico nem à visibilidade midiática.

Temos os famosos casos de Umberto Eco e Noam Chomsky, além de Ignacio Ramonet, que questionam os descaminhos da cultura em geral, incluindo seu processo de divulgação midiática. E, no passado, nomes como Guy Debord, Piere Bourdieu e Jean Baudrillard também deram suas contribuições para o debate.

Aqui, infelizmente, isso não ocorre. Pelo contrário, vemos intelectuais que, pasmem todos vocês, recusam-se a discutir a cultura brasileira. E são munidos dos mais sofisticados recursos discursivos para justificar o "vale tudo" cultural-midiático que está aí. Basta "fazer sucesso" e "ser popular" que tudo está "perfeito".

Houve um caso em que um jornalista, ao falar do fenômeno Superpopular - uma bandinha "performática" que grava sucessos do brega - chegou a dizer, feliz da vida, que não é preciso discutir os problemas da Música Popular Brasileira.

Dá para perceber que, enquanto lá eclodem manifestações sociais no planeta - até na ainda ditatorial China, já ocorrem intensos protestos populares - , aqui tudo é festa e espetáculo. E aqui ocorrem justamente problemas da intelectualidade e da dita "vanguarda artística" que um artista plástico francês que escreveu um texto sobre a ameaça neoliberal sobre as artes, alertou em seu texto.

Pois o que ele anuncia como uma ameaça, aqui é visto como algo maravilhoso. A chamada arte contemporânea, na visão do artista François Derivery, se converteu numa pseudo-vanguarda artística onde não há mais um compromisso do artista em dialogar com sua realidade. A realidade torna-se um simulacro, enquanto a arte se transforma apenas numa expressão da forma desvinculada de qualquer conteúdo.

A denúncia de Derivery alerta para o fim da história na cultura, o que mostra o quanto há de afinidade entre a chamada "cultura pós-moderna" e o neoliberalismo histórico de Francis Fukuyama. Segundo Derivery, a arte pós-moderna estaria vinculada aos interesses de mercado, embora num contexto supostamente "subversivo", mas que não oferece ameaça alguma no status quo dominante.

Temos então uma "arte" e uma "cultura" que estão divorciadas da realidade cultural das pessoas. Não há mais história e a necessidade de se dar continuidade ao patrimônio sócio-cultural do passado é claramente renegada. E não somente renegada, mas também acusada de "ideológica".

Bingo! Quando eu escrevia meus questionamentos sobre o brega-popularesco - a "cultura popular" midiática brasileira - , houve gente que me acusava de "ideológico", de querer impor à cultura brasileira um programa ideológico do Partido Comunista, me acusando de fazer "dirigismo ideológico". E, pasmem, são pessoas que se dizem "esquerdistas", se gabam de serem "socialistas", que me respondiam isso.

O processo denunciado por Derivery é justamente o mesmo que acontece no Brasil. Ele se limitou a comentar a situação das artes plásticas na França, mas seus argumentos correspondem exatamente ao que se vive na "cultura de massa" brasileira. E, enquanto o artista plástico francês a define como um fenômeno ameaçador, aqui nossos intelectuais a tratam como se fosse a salvação da lavoura.

Ou seja, nossos intelectuais, tão orgulhosos em serem "progressistas", querem que nosso patrimônio cultural seja jogado no lixo ou, quando muito, "reciclado" pelas deturpações pedantes do brega-popularesco. Ou então que se crie uma "vanguarda artística" que "incomode" sem incomodar, como certos performáticos que se associam ao Coletivo Fora do Eixo.

A VAIA É... UM NOVO APLAUSO?

Não bastasse a mediocrização cultural que toma conta do establishment "cultural" brasileiro, dominando em quase todos os espaços midiáticos, a cultura de qualidade ameaça desaparecer também por conta de expressões "sofisticadas" que também não passam de "linhas de montagem".

Assim, temos a "MPB feijão com arroz" que apenas repete fórmulas da MPB dos anos 70. Temos um cinema comercial que glamouriza a pobreza, um teatro que nem é mais sofisticado nem engajado, e artistas multimídia que apenas exibem uma mistura confusa de referências sem ter qualquer conteúdo.

Se temos ídolos brega-popularescos cujo conteúdo é de qualidade duvidosa, teremos artistas "de qualidade" que, na verdade, soam como expressões assépticas, mas sem conteúdo. Teremos uma arte ruim e outra arte mais ou menos, enquanto em ambos os casos prevalece um processo em que as realidades sociais são anuladas em prol de uma "realidade" de mercado.

E, o que é pior, a avaliação torta da intelectualidade elegerá como "gênios" não aqueles que acrescentam conhecimentos sócio-culturais à sua expressão, mas tão somente aqueles que são vaiados e causam mais controvérsias.

Ou seja, as vaias acabam se convertendo a supostos aplausos, a um invertido "atestado de qualidade". Quanto mais rejeitado, mais "genial" o "artista" é aos olhos da intelectualidade mais influente. Embora isso pareça, à primeira vista, um "reconhecimento de valor de um injustiçado", na verdade isso indica a glamourização da própria mediocridade cultural.

Desse modo, glamouriza-se a ignorância, a burrice, a estupidez, a falta de criatividade. "É o que o povo sabe fazer", dizem os tais intelectuais. Ou então camufla-se essa ignorância apenas com um acúmulo de informações que não necessariamente corresponde num aprimoramento artístico, muito pelo contrário.

Pois de que adianta um sambrega conhecer Wilson Simonal, saber de Bossa Nova, ter noções historiográficas sobre Martin Luther King? De que adianta um breganejo saber de Neil Young e Joan Baez? Ou um funqueiro saber o que é o maracatu e o punk rock? As informações ficaram mais acessíveis, mas nem por isso elas representaram em si algum salto qualitativo às pessoas.

O acúmulo de informações apenas cria um simulacro de inteligência, mas que é inútil quando processada na produção e expressão de um conhecimento. O "artista" apenas expõe os "conhecimentos" que soube na Internet, no rádio e na TV, muitas vezes ideias superficiais, distorcidas ou banalizadas.

Tudo é aparato, forma, exposição. Tudo asséptico, banalizado, sem a menor crítica. Mesmo as "críticas" - seja um Emicida "fazendo provocações" à polícia, num verdadeiro factoide à brasileira, seja uma Lady Gaga citando "monstros da fama" dando a falsa impressão de combater a indústria do espetáculo à qual ela serve comodamente - são apenas simulacros que só servem para mover o mercado, através de falsos choques de opinião.

Tudo se torna superficial, inócuo, inútil. E hoje vemos os antigos mestres da música brasileira, alguns até nem tão antigos assim, como Nelson Jacobina e Celso Blues Boy, desaparecerem do nosso convívio, deixando a música brasieira cada vez mais estéril.

Da mesma forma, desaparecem atores enquanto o mercado da fama é "abastecido" por centenas de "famosos" vindos do nada e que nada têm a nos dizer. Isso é muito ruim. Não dá para relativizar. E a nossa vaia não pode ser vista como um aplauso às avessas. Isso não trará maior respeito à cultura brasileira. Só dará continuidade aos "sucessos" de mercado.

Não podemos mexer no establishment brasileiro. Tem gente que se incomoda quando alguém contesta qualquer coisa que gere muita grana...

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