segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O PUXA-SAQUISMO DO SAMBREGA EM TORNO DO SAMBALANÇO


Por Alexandre Figueiredo

Durante muito tempo, nos anos 90, o chamado "pagode romântico" passava longe de qualquer interesse real em emular o samba brasileiro, seja o samba mais purista, seja o mais híbrido. O som feito era, na verdade, um arremedo bastante caricato da soul music norte-americana, com algumas pitadas de música brega da linha Odair José ou mesmo Waldick Soriano.

Quanto muito, o sambrega remetia ao "sambão-joia" da geração de Benito di Paula, Luís Ayrão e outros, que já estava para o sambalanço assim como o roquinho comportado de Pat Boone e companhia estava para o rock'n'roll original de Bill Haley, Chuck Berry e outros.

O sambrega sempre menosprezou a MPB, até de uma forma esnobe e arrogante. Seus grupos e cantores preferiam "mexer os pezinhos", cantar letras de pseudo-poesia exageradas, onde havia rimas fáceis e desorganizadas, como "me ama na cama", ou versos exagerados do tipo "minha vida está morrendo sem você". Tudo num clima de pieguice que simulava, nos integrantes, uma aparente camaradagem que tranquilizava as famílias.

Eles apareceram nos anos 90, como uma versão "sambista" do breganejo. Da mesma forma que Chitãozinho & Xororó, Gian & Giovani, Leandro & Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel e outros transformavam a música caipira numa grande caricatura, nomes como Raça Negra, Só Pra Contrariar, Negritude Júnior, Os Morenos, Exaltasamba, Soweto (que lançou o cantor Belo), Os Travessos, Katinguelê, Karametade e outros faziam o mesmo com o samba.

A breguice era de doer. E durante muito tempo eles fizeram sucesso ignorando a MPB, fazendo suas cafonices e tudo. Até Alexandre Pires não era muito diferente dessa linha. Quando muito, eles emulavam a pseudo-sofisticação lançada na década anterior por Michael Sullivan & Paulo Massadas e davam a impressão mais evidente de que, para fazer samba, inspiravam no que Elson do Forrogode e Wando faziam. Ou, quando muito, no que nomes autênticos como Alcione e Agepê gravavam como samba-canção.

Mas, de repente, em 1998, a coisa mudou e os sambregas passaram a ser adotados pela Rede Globo. Que lhes deu um banho de loja, de tecnologia, de técnica, nesses ídolos. E fazia o mesmo com os breganejos e outros neo-bregas de então. Em primeira instância, os ídolos neo-bregas foram parasitar o que havia de mais óbvio nos sucessos da MPB autêntica que as rádios FM deixavam passar na época.

E o parasitismo ia na proporção do que os ídolos neo-bregas parodiavam. Se eram breganejos, o parasitismo envolvia Clube da Esquina, Renato Teixeira, o cancioneiro caipira mais antigo. Se eram os sambregas, o parasitismo envolvia Djavan, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, algum cancioneiro sambista antigo (tipo "Saudades da Amélia" ou "Saudosa Maloca"). Em ambos os casos, também havia a carona no romantismo de Lupicínio Rodrigues, sobretudo "Nervos de Aço".

SAMBALANÇO

Os ídolos sambregas que conseguiram se firmar no mercado, mais por serem celebridades do que por serem artistas, se aproveitaram muito desse parasitismo ao samba como forma de passarem uma imagem de "artistas sérios". Não passavam de crooners de luxo, engomados e canastrões. Mas faziam sua reserva de mercado, pois acabaram vendendo mais discos através do rótulo mercadológico de "samba" que obtiveram.

As fontes de imitação mais usadas, nessa época, eram Zeca Pagodinho e Jorge Aragão. Quando muito, imitava-se Jorge Ben Jor, mas a imitação do sambalanço parava por aí. Os sambregas apenas imitavam o samba mais tradicional, alternando com seu som brega mais comezinho e com eventuais usurpações do repertório de Djavan ou de Lupicínio Rodrigues.

Só que passa o tempo e vemos que, com o avanço das informações na Internet que influenciam também a imprensa e estimulam a garimpagem musical, os sambregas tentam se manter no mercado investindo naquilo que sempre ignoraram. Da mesma forma que perseguiram o samba, no final dos anos 90 - por conta das primeiras pesquisas dos internautas fora do indigente cardápio radiofônico - , os sambregas agora tentam perseguir o sambalanço, que é o samba misturado com influências como o rock, o jazz e sobretudo o soul.

Ou seja, tudo é de forma retardatária, como reza a cartilha do brega. Vemos ídolos popularescos só esboçando alguma "sofisticação" em última hora. E não se tornam mais criativos com isso. O que ocorre é que o samba autêntico e o sambalanço acabam virando "linhas de montagem" para ídolos de grande sucesso comercial copiarem, para fingirem para a opinião pública que são "artistas sérios e renomados".

Mas, de fato, não são artistas sérios. Primeiro porque sua "qualidade artística" é buscada através de covers de MPB, como péssimos alunos que, quando fazem um trabalho escolar, preferem copiar textos de livros consultados. Fora isso, há duetos oportunistas com medalhões de MPB, e o trabalho de outros arranjadores que apenas tornam a breguice dos cantores e grupos mais "arrumadinha".

O sambrega é o mais ambicioso, embora a axé-music seja mais eclética e o breganejo metido a "tradicional". Isso porque o sambrega agora quer embarcar no sambalanço, posar de "pós-tropicalista", puxar o saco de Wilson Simonal, que não está mais aqui para reclamar. E esse oportunismo faz a festa pedante de nomes como Só Pra Contrariar, Raça Negra e Exaltasamba, como dos cantores Alexandre Pires, Belo, Péricles e Thiaguinho, entre tantos outros.

Só que isso não é samba de verdade. E nem sequer é sambalanço de verdade. Existe cópia de sobra, imitação, aparato, uso de clichês. Nada que tenha a ver com criatividade. Apenas muda-se a embalagem, mas o conteúdo medíocre do "pagode romântico" dos anos 90 continua essencialmente inalterado. E de péssima qualidade.

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