sábado, 29 de setembro de 2012

O "POPULAR" COMO FORMA DE ACOBERTAR OS PECADOS DA MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

A ditadura midiática é mais complexa do que se imagina. E, agora que o governo Dilma Rousseff é criticado pelas próprias esquerdas por estar financiando a mídia direitista, não se pode insistir naquele velho maniqueísmo entre todos os que se diziam apoiar o PSDB e outros que se diziam apoiar o PT.

Uma das futuras preocupações dos analistas de esquerda deverá ser com o rótulo "popular" que certos setores da mídia e do entretenimento usam para que sejam veiculados os piores valores sociais e morais, promovendo a mais descarada mediocrização cultural a partir de uma visão estereotipada do povo pobre.

Até agora, muitos acham que basta se apoiar no termo "popular" e nos seus símbolos discursivos para ser "progressista" assim na moleza. Grande engano. Interesses mercadológicos perversos, que incluem a mais aberta manipulação do inconsciente coletivo e na mais explícita domesticação das classes populares, estão por trás desse rótulo "popular" que ainda deslumbra parte da intelectualidade dominante de nosso país.

Pecados muito piores são acobertados pelo pretexto do "popular". E que permitem que o povo pobre seja marginalizado dos debates públicos do seu próprio interesse. Com isso, será moleza, por exemplo, quando o FMI aplicar no Brasil as mesmas medidas enérgicas que faz para resolver a crise na Europa. O "mundo encantado do popular" já teria dissolvido metade das passeatas potenciais de nosso país.

Vários aspectos indicam que esse processo é muito mais perverso do que se pode imaginar. Através desse entretenimento, valores retrógrados são dissolvidos em pretextos falsamente modernos para fixá-los nas classes populares. Estas são trabalhadas, pela mídia, como uma multidão ao mesmo tempo resignada e patética, como uma caricatura de si mesma.

Antropólogos, sociólogos, críticos musicais e historiadores considerados influentes, mas alinhados a um pensamento dominante de cunho neoliberal, tentam justificar esse processo de domesticação como a "mais saudável promoção da felicidade popular".

Com um discurso que lembra mais um marketing turístico, mas trabalhado até em monografias e documentários, glamouriza-se a miséria e a ignorância popular, frutos de conhecidas limitações de ordem social, política e econômica, promovendo-as como se fosse sinônimo de "felicidade" e "superioridade popular".

A televisão, o rádio e jornais e revistas, além de, agora, a Internet, manipulam boa parte da população das periferias para que elas se tornem uma multidão conformada com suas limitações sociais diversas. Lançam, quando muito, espaços de "catarse" coletiva, como os veículos, programas e eventos que ora banalizam a violência, ora exaltam a pornografia, ora promovem o fanatismo esportivo.

Programas de reality show e telenovelas desviam o povo do debate sério dos problemas comunitários ou dos problemas políticos mais profundos. Assim o povo não pensa em reforma agrária, não questiona a desnacionalização da economia, aceita o aumento de preços e o corte de investimentos em Saúde e Educação, enquanto "pensa" na "sister" do Big Brother Brasil que conquistou ou não seu "affair".

A mediocridade ainda se estende pela "multidão" de "popozudas" que, sob diversos "matizes" - uma é paniquete, outra é a Garota da Laje, outra é a "mulher-fruta" do "funk", outra é a "musa do Brasileirão", outra é a Miss Bumbum etc - , só trabalham para promover sua condição de mulheres-objetos, consistindo em fenômenos retrógrados e paródias machistas da emancipação feminina.

E a música brega-popularesca, medíocre, esquizofrênica, tendenciosa, cujos ídolos são mais celebridades do que artistas, dependendo de factoides para promover artificialmente seu sucesso, uma vez que culturalmente não possuem qualquer valor? E ainda há intelectuais que apostam nesses ídolos como "a nova expressão" da cultura "pós-moderna, hiperconectada e multifacetada" do que tais "pensadores" entendem como "cultura das periferias".

Tudo isso é garantido pelo rótulo "popular", que esconde o pior dos preconceitos vindos de intelectuais, celebridades e autoridades com as classes pobres. Para eles, o povo é "melhor" naquilo que ele tem de ruim, de pitoresco, piegas e patético, e os intelectuais, sobretudo, trabalham retoricamente para vender o mercadão consumista brega-popularesco sob a falsa imagem de uma "revolução sócio-cultural".

Com isso, não se melhora a vida do povo. Esse discurso todo apenas tenta calar as críticas de quem entende os problemas que estão por trás. O rótulo "popular" santifica os piores pecados, canoniza os piores algozes, trata visões altamente preconceituosas como se elas fossem a "ruptura" desses mesmos preconceitos.

Só que isso, em vez de melhorar a vida do povo pobre, apenas acoberta os problemas. Acoberta-se tudo: os pecados da mídia, os problemas sociais, os interesses das classes dominantes camuflados pelo termo "popular". E isso não é bom.

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