quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O LIVRE-MERCADO PÓS-TROPICALISTA


Por Alexandre Figueiredo

Mês passado, a revista Caros Amigos teve como matéria de capa o Instituto Millenium. Equivalente atual do antigo IPES - o temível "instituto" de "pesquisas e estudos sociais" financiado pelo capital estrangeiro para combater João Goulart - , o IMIL é um clube de pensadores neo-liberais vinculados à velha mídia. E Sandra Cavalcanti, antiga udenista, estava ligada tanto ao IPES quanto está ao IMIL.

Otávio Frias Filho também é um dos sócios do Instituto Millenium. Mas deixou suas concepções de cultura popular nas maos de seu pupilo Pedro Alexandre Sanches, que defende os interesses da Folha de São Paulo vestindo a camisa adversária e fazendo gols contra.

Na edição desta foto, MC Leonardo não traz surpresas, a não ser o título de seu artigo sobre a Cooperifa, uma entidade ligada à tal "cultura das periferias", "Ação Popular", o mesmo nome da antiga associação católica da qual se lançou o então líder estudantil José Serra, o hoje intragável candidato à prefeitura de São Paulo, em desvantagem nas pesquisas.

Mas Pedro Sanches é que reafirmou sua tese de "livre-mercado" para a cultura brasileira, através de um texto em que ele compara a "falsa dicotomia" da música brasileira. Na verdade, ele descreve o maniqueísmo referente ao "samba bossa-novista" de Chico Buarque, que Sanches personifica como o "mal", e o tropicalismo de Caetano Veloso e Gilberto Gil, que ele classifica como o "bem".

Com uma abordagem tipicamente neoliberal, Sanches mistura alhos com bugalhos na cultura brasileira, como se a "mundialização" e a assimilação do pop estrangeiro fossem a salvação, por si sói da cultura popular em nosso país.

Sanches recorre ao mesmo recurso que a direita neoliberal, na política brasileira, faz quando vai contra o PT. Assim como os neoliberais tentam atrair o apoio dos trotskistas (facção mais radical de esquerda), Sanches, para tentar legitimar o brega brasileiro e todos os seus derivados, tenta bajular os nomes da MPB "difícil", "maldita" e alternativa, como se fossem "parceiros" da mesma vaia coletiva.

Dessa forma, Sanches bajula Sérgio Ricardo, Paulo Diniz, Gerson King Combo, Wilson Simonal e outros para dizer que a cultura brasileira se enriqueceu pela simples assimilação de influências estrangeiras, como a guitarra elétrica, a soul music etc. Ele tenta descrever a riqueza cultural brasileira sem separar o joio do trigo, embora desta vez ele tenha dado mais destaque à MPB "maldita" e não deu nome aos "bois" do brega setentista (como Odair José e Wando, que ele defendeu em outras ocasiões).

No entanto, no final do texto, Sanches reafirma a tese, altamente discutível, do sucesso mundial do breganejo (que ele chama de "neossertanejo") e do "funk carioca", quando sabemos que isso não passa de jabaculê-exportação e os caras só tocam para brasileiros residentes lá fora. Grande equívoco ele usar tais exemplos para provar a "riqueza de nossa cultura". Como, através de Michel Teló e Tati Quebra-Barraco?

No final do texto, porém, Sanches deixa a máscara cair. Tomando com base a mistura de alhos com bugalhos, de "tropicalhos" com "bregalhos" na música brasileira, Sanches deixou vazar a sua tese neoliberal, meramente mercadológica, de que a tal "cultura pós-tropicalista" que ele acredita vale mil fortunas mais do que a "dicotomia Chico-Caetano" que ele descreveu no seu texto.

Em outras palavras, a "cultura" que Pedro Alexandre Sanches acredita é o tal "negócio da música" de seu amigo e guru Ronaldo Lemos. A "cultura" como mercado, não mais os processos sociais de antes. Tudo agora é midiotizado, midiocrizado. é o hiperespetáculo do brega e seus ídolos "coitadinhos".

Desse modo, Pedro Alexandre Sanches - famoso pela foto-montagem em que ele aparece dando palestra sob a parede do Instituto Millenium - afirma, na verdade, sua vontade de substituir o folclore brasileiro pelo hit-parade que está por trás dessa mistura alhos-e-bugalhos da música extra-buarqueana.

No fim, só restará o "livre-mercado" dos artistas "fora do eixo" que tomarão as rédeas do ultracomercialismo norte-americano implantado e adaptado para a realidade, ou melhor, para a ilusão brasileira. É o triunfo do hit-parade e suas falseações sobre a sinceridade do folclore brasileiro. Com toda a tendenciosa "pirataria" que comercializa os ídolos emergentes que mais tarde irão para a Som Livre.

Se bem que, lá fora, ninguém usaria uma Laura Nyro (in memoriam) para corroborar o sucesso de uma Lady Gaga ou Britney Spears. Mas aqui Itamar Assumpção "assina embaixo" em tudo que o Mr. Catra fizer, graças à apropriação ideológica de Sanches.

Pedro Alexandre Sanches ainda está devendo um cafezinho com o pessoal do Instituto Millenium. Fica tudo na conta do "instituto".

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