domingo, 2 de setembro de 2012

O "FUNK CARIOCA", O MERCADO E A POLITICAGEM


Por Alexandre Figueiredo

Os dirigentes funqueiros não são esquerdistas, não querem a regulação da mídia, e só dizem defender princípios de cidadania nos limites ideológicos permitidos. Porque, se eles quiserem defender os "proibidões", eles defendem mesmo.

"Funk carioca" é só mercado. Não é arte, nem cultura. Essa constatação, acima de qualquer questão de gosto, assusta os defensores do ritmo, que há dez anos apostam na choradeira retórica que situa o ritmo numa falsa pose de vítima, para abocanhar espaços mercadológicos estratégicos.

E hoje mais um fato mostrou isso, com a demolição de uma antiga fábrica da Rheem Química, no local situado entre as ruas Pref. Olímpio de Melo e Ricardo Machado, próximo à Av. Brasil e ao Viaduto Ataulfo Alves, no Rio de Janeiro.

Pois o destino acertado para a nova construção, a ser erguida no local da fábrica demolida hoje de manhã é a instalação da tal "Escola de Rua", instituição que seguirá a cartilha politicamente correta do que burocratas e intelectuais etnocêntricos acham que é o povo das favelas.

E tudo isso é armado tranquilamente junto ao grupo político de Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes, com a finalidade de criar "escola" para desenvolver uma forma estereotipada de juventude pobre, para agradar os turistas e manter o mercado brega-popularesco em alta (na economia, porque a cultura acaba sempre em baixa, deturpada e degradada ao extremo).

Para eles, os favelados só curtem "funk carioca" e hip-hop, ou, quando muito, ouve o sambrega de nomes como Exaltasamba, Pixote e Grupo Revelação e cantores como Belo, Alexandre Pires e Thiaguinho. Uma verdadeira indigência cultural, com a ressalva de que o hip-hop não é um mal em si, mas da forma monocórdica como ele é feito, muito distante da alta criatividade que marcou nomes como Grandmaster Flash, Sugarhill Gang e Beastie Boys, entre outros.

A tal Escola de Rua visa apenas a reafirmar os clichês do chamado "povo da periferia" e realimentar o mesmo entretenimento brega-popularesco de sempre. Visa apenas a ensinar os jovens suburbanos, já aprisionados na repetição cansativa e viciada do "funk carioca" e outras tendências brega-popularescas, a não sair desse "cardápio cultural (sic)".

Evidentemente, o discurso politicamente correto fala em "promoção de cultura e arte", falando até em "manifestações artísticas de funk". O funk, como arte, é só aquele da linha de James Brown, Tim Maia, Earth Wind & Fire, Rick James, Sister Sledge, Chic e outros. Não há outro caminho. Esse amontoado de ruídos de sirene, sons de galope e balbuciações tipo "tchuscu-tchuschdá" não é arte. É linha de montagem de mercadorias sonoras para tocar em rádio.

E, sem dúvida alguma, o "funk" e o hip-hop seguirão a mesma lógica que a própria velha grande mídia, sobretudo as Organizações Globo, já investem no Rio de Janeiro, seja em programas como Caldeirão do Huck - de onde surgiu a gíria funqueira "é o caldeirão" e cujo apresentador Luciano Huck foi um dos que mais divulgaram Mr. Catra no começo de carreira - , seja na rádio Beat 98 FM.

Talvez a Escola de Rua possa estar na pauta, no ano que vem, do próximo Criança Esperança, como prêmio de seu processo de domesticação do povo das periferias, que poderiam desejar outras coisas que não o intragável, repetitivo e, acima de tudo, grotesco "funk carioca", um estilo marcado pela arrogância e pelo discurso indigesto de seus fanáticos defensores.

Mas esses defensores funqueiros não deixam. As favelas precisam ficar presas na "sensala" do "funk carioca" armada pela "casa grande" da grande mídia. Os quilombos de sambas, maracatus, cocos, caxambus, maxixes, lundus, jongos e outros não podem.

Para os defensores do "funk carioca", os jovens pobres não podem progredir, eles têm é que obedecer as determinações dos dirigentes funqueiros e ponto final. E quem contestar ainda é tido como "desinformado das coisas". Lamentável.

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