sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O EMBAIXADOR NORTE-AMERICANO E OS JOVENS DA BAIXADA


Por Alexandre Figueiredo

São duas tragédias diferentes, mas consequentes de atrasos sociais.

No último dia 11, o embaixador norte-americano na Líbia, John Christopher Stevens, faleceu junto com outros três compatriotas sufocados num incêndio causado por um atentado em Benghazi.

Um dia antes, teriam sido mortos seis jovens que iriam tomar banho em uma cachoeira, localizada no bairro de Gericinó, em Mesquita, na Baixada Fluminense. As vítimas, todas sem antecedentes criminais, teriam acidentalmente entrado num território dominado por traficantes, que habitualmente veem em qualquer estranho, mesmo inocente, um rival em potencial.

De um lado, a revolta de grupos fundamentalistas que tenta se confundir com protestos anti-imperialistas no Oriente Médio. De outro, grupos de traficantes fluminenses querendo reconquistar antigos domínios enquanto fortalecem seus poderes em cidades vizinhas ao Rio de Janeiro.

Em ambos os casos, são reações violentas que se alimentam através de retrocessos sociais, como o fanatismo religioso terrorista e o narcotráfico carioca. São grupos que querem retomar antigos domínios, como os adeptos de Muammar Kadafi, ditador líbio morto no ano passado, e o citado caso dos traficantes.

São retrocessos sociais que durante muito tempo espalharam terror e medo à população. A longa ditadura de Kadafi, que havia sido instaurada em 1969, e o narcotráfico cuja raiz se deu pela mistura de presos políticos com bandidos perigosos, que veio a gerar, depois, várias organizações do crime organizado carioca, cujo apogeu se deu nos anos 90.

Sem querer ser sectário a autoridades estadunidenses ou cariocas, os dois episódios são lamentáveis pelo seu nível trágico desnecessário. E, de certa forma, são atos que clamam pela manutenção de valores sociais retrógrados, como um fanatismo religioso impermeável às transformações sociais e um mercado de drogas ilícitas que movimenta uma grande fortuna em todo o mundo.

Portanto, nesse fogo cruzado, não há como ter maniqueísmos. Há rumores de que as autoridades cariocas estavam munindo as chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) com as chamadas "milícias", grupos paramilitares compostos por policiais corrompidos pelo crime e que disputam os controles de favelas com os traficantes.

Por outro lado, é notório o poderio dos EUA no mundo, impondo sua economia, sua cultura, seus valores sociais, atropelando peculiaridades regionais, ignorando a autodeterminação dos povos. E se trata de uma nação que, tida como "a mais democrática do mundo", só decide as eleições presidenciais de forma indireta, através do Colégio Eleitoral, e é capaz de permitir que um preso como o soldado Bradley Manning seja mantido sob tortura e em condições de detenção das mais humilhantes.

Mas não há como confundir os protestos realmente de esquerda no Oriente Médio com grupos de seguidores de ditadores de qualquer espécie, mesmo aqueles que não são protegidos pelos EUA. E os traficantes não podem ser conhecidos como "libertários", até porque seu "método" inclui desde aspectos capitalistas do comércio ilegal de drogas e armamentos e outros produtos e uma política fascista de intimidação da população dominada.

Portanto, são momentos diferentes que igualmente geram apreensão e medo. E que travam decisivamente o progresso social que as classes populares desejam. E as classes populares não desejam políticas corrompidas nem revoltas terroristas como soluções para seus problemas cotidianos. Sem pieguices, o protesto pacífico e a legalidade democrática é que são, na medida do possível, os meios para que o conflito sócio-político seja resolvido.

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