quarta-feira, 5 de setembro de 2012

MÚSICA BRASILEIRA DE VERDADE NÃO REQUER TRANSIÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

Não tem como escapar. O futuro da verdadeira música brasileira deveria ser de ruptura com o brega-popularesco e não de transição.

Ultimamente, há artistas de MPB e de Rock Brasil que querem "ensinar MPB" para os medalhões do brega-popularesco, numa clara negociação para colocar os primeiros na carona da visibilidade extrema dos últimos.

Só que o brega-popularesco, a Música de Cabresto Brasileira, sempre esteve indiferente à MPB. Era mais uma música indigente que sempre dependeu dos sucessos do rádio para se desenvolver e também tocar nas mesmas rádios.

Todos os cantores bregas, neo-bregas e pós-bregas estavam indiferentes à MPB. Só recorriam a ela de forma tendenciosa ou superficial, apenas para dar a impressão de que fazem "música bem brasileira". Mas isso se torna ilusório, porque o resultado é sempre medíocre, o "mau gosto" não ganha qualidade com a assistência de parte da MPB e do Rock Brasil.

Essa ajuda, aliás, é um grande desperdício. Apenas reafirma o cartaz de brega-popularescos, fortalecidos pela blindagem de músicos de qualidade, estes claramente desesperados pelo sucesso. Primeiro, pela indiferença que os bregas sempre têm à MPB, até um certo preconceito. Segundo, porque não dá para transformá-los tardiamente em "gênios da música brasileira", depois de tantos sucessos medíocres.

Por isso essa "solução Ernesto Geisel" para a música brasileira não representará progresso algum para a música brasileira, porque mantém as estruturas de poder da mídia e do mercado que controlam o que é oficialmente a "música brasileira". Pouco importa, o chamado apartheid cultural continuará o mesmo, a música de qualidade só integralmente apreciada pelas elites e o "povão" que fique consumindo as breguices de sempre.

O que se vê, aliás, nesse "ensinamento" são os ídolos brega-popularescos repetindo os mesmos defeitos que se atribuem à chamada "MPB mais elitista". Muita pompa, muito luxo, muita cerimônia. Cultura, no sentido vivo e orgânico do termo, continua não existindo.

Os ídolos brega-popularescos que passam a fazer a "MPB de mentirinha" também não se tornam mais criativos. Enquanto gravam covers de MPB, parecem, quando muito, aluninhos aplicados, mas nada que cause impacto, renovação ou deixe qualquer tipo de marca na cultura brasileira.

No âmbito autoral, eles continuam tão medíocres quanto antes. A ajuda de outros arranjadores é que dão um "trato" nas músicas, que nem por isso se tornam melhores, apenas tornam-se "mais consumíveis" para públicos de classes mais abastadas mas nem por isso mais esclarecidos.

Até hoje, com tantos "sertanejos", "pagodeiros românticos", axézeiros e outros vampirizando o cancioneiro mais acessível da MPB - havendo até mesmo músicas com mais de uma regravação, como "Nervos de Aço", de Lupicínio Rodrigues, e "Tocando em Frente", de Renato Teixeira - , não houve um novo gênio da MPB surgido dessa leva toda.

O que se vê são apenas celebridades usando e abusando da fama, dependendo de notas em revistas de famosos, criando factoides, se autopromovendo com pouca coisa, porque suas regravações de MPB não os fazem mais artistas, mais culturais e mais autorais. Tudo fica na mesma pasmaceira de sempre.

Precisamos romper com isso. A verdadeira MPB não precisa da transição da breguice dominante para a cultura de qualidade. Até porque tudo o que foi feito nesse sentido foi apenas para mostrar a aliança fisiológica da "MPB elitista" com a Música de Cabresto Brasileira. Tudo foi feito, tantos duetos e regravações, mas nenhum gênio surgiu dessa leva.

A verdadeira MPB precisa romper com a breguice dominante. Precisa retomar as raízes culturais autênticas, num caminho interrompido em 1964 do diálogo entre intelectuais e povo, e daí recriar um caminho, buscando atualizações e modernizações que não sejam as que se vê aí na grande mídia.

É rompendo com a cafonice, que por sinal alimenta as fortunas e os privilégios de poder dos barões da mídia sobre as classes populares, que se traçará um caminho novo e revigorado da cultura popular. Queremos uma cultura popular sem o azedo das expressões postiças, dos fenômenos "de massa", porque o povo precisa deixar de ser o gado das rádios e TVs.

Cultura também é qualidade de vida e qualidade de vida inclui cidadania acima de quaisquer paliativos de ordem econômica e política.


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