quarta-feira, 12 de setembro de 2012

MINISTÉRIO DA CULTURA E A MPB "BISCOITO FINO"


Por Alexandre Figueiredo

Foi confirmada a saída, ontem à tarde, da cantora Ana de Hollanda do cargo de ministra da Cultura do governo Dilma Rousseff, sendo a décima pessoa a deixar um ministério no seu governo.

No seu lugar, entra Marta Suplicy, sexóloga e aparentemente sem relação direta com a cultura, apesar de ser mãe dos músicos Supla e João Suplicy. Em todo caso, a saída da irmã de Chico Buarque fez os detratores da chamada MPB "biscoito fino" comemorarem.

A MPB "biscoito fino", afinal, estava no poder através da gestão de um de seus intérpretes? Rigorosamente, não. A presença de Ana de Hollanda no Ministério da Cultura representou, praticamente, apenas os interesses da burocracia artística, em boa parte vinculada ao ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), além de outras medidas pontuais.

Por exemplo, acompanhei as ações da ministra em relação ao patrimônio cultural, graças ao meu outro sítio, Ensaios Patrimoniais, e aparentemente, neste setor, ela cumpriu exemplarmente as medidas junto ao IPHAN e à pessoa de seu presidente, Luiz Fernando de Almeida, também ligado ao Programa Monumenta, até mesmo antes dele substituir o antigo titular, Antônio Augusto Arantes, no instituto.

A MPB "biscoito fino", ou seja, a chamada nata da Música Popular Brasileira que é contratada pelo selo Biscoito Fino e é famosa por sua sofisticação artística, é duramente criticada por uma parcela da intelectualidade mais identificada com a "cultura de massa" do que com o folclore brasileiro.

Essa intelectualidade acusa os artistas da ala sofisticada da MPB de elitismo, isolacionismo, preconceito, rigidez estética e outras acusações indevidas, quando essa ala se beneficiava apenas do acúmulo do saber artístico, era a expressão dos saberes culturais de uma forma mais requintada, num país ainda tomado pelo analfabetismo ou pela sub-escolaridade.

Mas, por incrível que pareça, a MPB sofisticada nunca havia tomado o poder, nem nos tempos da Bossa Nova, nem na época dos Festivais da Canção dos anos 60, nem nos tempos pós-tropicalistas de hoje. A Bossa Nova nunca penetrou, de fato, os mais entranhados rincões do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, alguns vivendo ainda nos valores da República Velha, mas amestrados pela breguice radiofônica e televisiva locais.

A MPB sofisticada sempre foi receptiva aos sambas, baiões, modinhas e outros ritmos populares, sem qualquer desejo de apropriação e assenhoreamento. Esse é um mito da intelectualidade "fora do eixo" ou dos defensores da "cultura" brega, que ignoram que a suposta apropriação das elites intelectuais ao folclore brasileiro é, na verdade, um efeito do diálogo interrompido entre intelectualidade e povo em 1964.

Afinal, se havia um certo etnocentrismo e um radicalismo panfletário de certos integrantes dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE), ele era apenas um aspecto do processo. O contato com o povo, por parte dos CPCs, sobretudo pela UNE volante, não significava um caminho unilateral por parte da intelligentzia da época, apesar de suas visões de classe.

O processo incluía também um diálogo com o povo, mas ele não se efetivou por razões óbvias. Veio o golpe de 1964, a UNE não só foi declarada extinta como teve sua sede incendiada pelo Comando de Caça aos Comunistas, e aí os CPCs tinham que ser imediatamente desativados.

A UNE se limitou, depois, a realizar, na ilegalidade, manifestações de protesto, sobretudo depois do pacote de 1966, por parte de outro Suplicy, Flávio Suplicy de Lacerda, o ministro da Educação de Castello Branco e reitor querido do bom aluno da Universidade do Paraná na época, o arquiteto Jaime Lerner.

Mas isso é outra história. O problema de hoje é que o brega-popularesco aproveitou essa ruptura de diálogo para amestrar o povo pobre, forjar nele uma pseudo-cultura que intelectuais educados por "pensadores" como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Otávio Frias Filho, incluindo os "tarimbados" Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches, definem como o "novo folclore multifacetado (?) brasileiro".

E, enquanto se acusa a MPB sofisticada de formar uma nobreza em torno da "rainha de Hollanda", os barões do entretenimento que estão por trás de tecnobregas, funqueiros, axézeiros, breganejos etc, escondem sua prepotência de mega-empresários e até latifundiários vestindo ternos cheirando a mofo, jeans desbotados e rasgados e tênis furados, para dar a impressão de que também são "gente como a gente".

Esses barões do entretenimento andam de mãos dadas com os barões da mídia, mas vão para as redações de esquerda fazer a sua choradeira, dizendo que são "pobrezinhos", enquanto esnobam as acusações (verídicas) de que eles se tornaram muito ricos. Alguns nem assumem serem empresários, se autoproclamam tão somente "produtores culturais" ou "financiadores da cultura popular".

É verdade que Ana de Hollanda havia se comportado, em muitas situações, como uma madame aristocrata que desprezava a realidade cultural brasileira. Preferiu governar para o ECAD, enquanto se limitava apenas a cumprir as ações gerais do Ministério da Cultura, aquelas que já se fazia nos últimos anos conforme a orientação geral dos técnicos do MinC.

No entanto, as políticas culturais tornaram-se medíocres e insuficientes. E, ironicamente, elas favoreceram mais a "pobrezinha" pseudo-cultura popularesca do que se pode imaginar, o que torna de certo modo risível a revolta de gente como os citados Araújo e Sanches.

Isso porque, entre os que abocanharam verbas generosas do MinC sob gestão de Ana de Hollanda, estava um inexpressivo grupo carioca, Tchakabum (de onde saiu Grassyanne Barbosa, mulher do cantor de sambrega Belo), espécie de genérico do Copacabana Beat, desses grupos sem pé nem cabeça perdidos entre o sambrega, o "funk melody" e a axé-music.

Outro grupo do gênero, o também inexpressivo Inimigos da HP, chegou a montar um "tributo a Chico Buarque" visando arrancar umas boas verbas da irmã do cantor. Tiveram até mesmo que romper com um dos "protocolos" do brega, que é de não gravar canções de protesto, ao incluir "Apesar de Você" no tendencioso repertório.

Além deles, várias duplas, inclusive obscuras, de "sertanejo universitário", também arrancaram boas verbas do MinC, que também bancou as desventuras cafonas do talentoso e criativo compositor Nando Reis, um nome da MPB autêntica oriundo do Rock Brasil, mas mergulhado em um apoio um tanto condescendente quanto subserviente à música brega, "homenageada" no disco Bailão do Ruivão.

Portanto, a MPB sofisticada não esteve no poder, mesmo sob gestão de uma de suas cantoras. E nem Chico Buarque, a "geni" da intelectualidade etnocêntrica, concordou com os excessos e omissões da irmã. E até mesmo a revista Caras, acusada por Pedro Sanches de abrigar os "elitistas da Biscoito Fino", nunca esteve tão brega, acolhendo com muito gosto, ironicamente, a "diva maior" de Sanches, a cantora tecnobrega Gaby Amarantos.

Agora o MinC encerrou de forma melancólica o ciclo de Ana de Hollanda. Mas não se sabe se Marta Suplicy irá colocar o ministério em rumos esplendorosos. Talvez sua atuação tenha vantagem numa conduta menos burocratizada e menos corporativista, pelo menos da forma que sua antecessora fazia.

Só que preferimos acreditar que o MinC continuará, na melhor das hipóteses, com suas ações pontuais desde o governo Lula. Nada excepcional, mas talvez com alguns pequenos méritos.

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