domingo, 30 de setembro de 2012

HEBE CAMARGO E A CRISE DA TELEVISÃO BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

Ontem faleceu Hebe Camargo de parada cardíaca, por efeito de um câncer. Ela (que aparece na foto ao lado de um pouco reconhecível - para os mais jovens - Abelardo Barbosa, o Chacrinha) havia sido uma das poucas pessoas sobreviventes da fase inaugural da televisão brasileira, há 62 anos.

Apresentadora carismática, além de cantora e eventual atriz, Hebe era uma das grandes comunicadoras do país, tendo surgido ainda na Era de Ouro do rádio brasileiro.

Em que pese suas posições ideológicas conservadoras - Hebe havia participado, por exemplo, da Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, que pediu a queda de João Goulart - e pelo fato de que seu programa, nos últimos anos, recebia muitas celebridades popularescas (sobretudo os pseudo-sofisticados ídolos neo-bregas dos anos 90), Hebe era uma referência à fase áurea da televisão brasileira.

Ela vivenciou a fase em que não havia videoteipe e quem fizesse televisão teria que improvisar e até mesmo encarar possíveis gafes ao vivo. Os telespectadores não eram tantos, mas os televizinhos e as televisitas já mostravam que a televisão tinha uma plateia potencial, que o barateamento do preço dos aparelhos televisivos iria fazer aumentar.

A televisão era tecnicamente mais precária, mas em qualidade era bem melhor. Havia um idealismo maior que, numa comparação com o que existe hoje, choca com a mediocridade "pragmática" dos programas atuais.

Entre os anos 50 e 60, a televisão transmitia mais inteligência, criatividade, respeito humano, e não se pegava a frivolidades como fofocas de nulidades famosas de hoje ou os tais reality shows. Até os quiz shows valorizavam a inteligência, com questões sobre História, Geografia e até Filosofia.

Os programas infanto-juvenis eram mais empolgantes, os humorísticos não colocavam a "malícia" acima da graça, os musicais mostravam grandes artistas e as novelas, embora com histórias mais convencionais, tinham elenco bastante talentoso. E havia teleteatros aos montes, com uma grande diversidade de obras.

O noticiário Repórter Esso, sucesso radiofônico que, na televisão, se consagrou na TV Tupi, era até conservador, mas dotava de um excelente profissionalismo, com locuções e textos impecáveis, e uma atitude mais respeitosa bem diferente da chamada "urubologia" jornalística de hoje.

Era um tempo em que Jean-Paul Sartre, o grande filósofo existencialista, virava celebridade nas entrevistas para a TV. Muito diferente de hoje, quando entre os "grandes famosos" há muita gente sem ter o que dizer (como os ex-BBBs). Em vez das "boazudas" de hoje, tínhamos as vedetes, mais ingênuas e mais decentes. E a televisão educativa surgia para educar, e não para competir com as emissoras comerciais "com categoria".

Mas se até uma emissora comercial como a TV Paulista - que depois virou a atual TV Globo São Paulo - havia espaço para o vanguardista Móbile, e o "irmão mais velho" do Fantástico da Rede Globo era transmitido em Belo Horizonte, pela TV Itacolomi, um programa chamado A Noite é da Guanabara, nome que não se remetia ao Estado sudestino, mas a uma extinta rede mineira de lojas de eletrodomésticos.

Quem pesquisar sobre televisão nos anos 50 e 60 verá muitas coisas interessantes. Mas seu acervo se perdeu em boa parte, em incêndios ou desgravações, mas felizmente boa parte do que restou está sendo resgatada no YouTube, ainda que por meio de fragmentos ou trechos de programas, na maioria das vezes.

Um desses vídeos é da fase pré-videoteipe, pouca coisa foi registrada, como justamente o raro vídeo em que Hebe Camargo e o humorista Ivon Curi cantavam o primeiro número musical da televisão brasileira, "Noite de Luar", que Ivon compôs com Alberto Ribeiro (parceiro de Braguinha) e José Maria de Abreu. Esse vídeo data dos primeiros dias da televisão brasileira, em 1950.

Hebe Camargo sobreviveu para ver a era da MTV, da Internet, do YouTube, e uma de suas últimas aparições foi como garota-propaganda de um serviço de TV por assinatura. Era um dos maiores elos entre o que era a televisão no passado e a televisão de hoje.

Mas se atualmente, com a mediocridade televisiva atingindo até mesmo a MTV - além de rumores que alegam que a emissora ameaça ser extinta - , a morte de Hebe Camargo, às vésperas dela reestrear seu programa no SBT, após uma passagem na decadente Rede TV!, põe muita gente a pensar na crise televisiva e no desprezo às velhas lições.

A televisão de hoje não tem criatividade, ou, quando tenta criar, é através do vazio de ideias e de valores sócio-culturais. Pouco se salva. Temos a obsessão de ridículos programas de "variedades", mais preocupados em vender produtos "milagrosos" e dizer fofocas sobre famosos de terceira categoria, de programas policialescos exibidos abertamente até para crianças, de reality shows inúteis e outras barbaridades.

Temos até livros sobre a história da televisão, mas a mediocridade não deixa que mesmo estes livros sejam acessíveis ao grande público. Não temos mais uma TV Record como era no passado, e nem temos uma TV Tupi ou uma TV Excelsior.

Enquanto isso, vamos ter mais um Big Brother Brasil, ano que vem. Cujos integrantes não vão cantar "Noite do Luar", mas provavelmente "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tchá" e outras cretinices. E ninguém vai fazer teleteatro, seu "improviso" não será técnico, mas pela falta de ideias mesmo. A televisão ficou burra demais. E perdeu uma de suas ainda dedicadas professoras.

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