sábado, 29 de setembro de 2012

FERNANDO COLLOR E OS 20 ANOS DO IMPEACHMENT


Por Alexandre Figueiredo

A memória curta que se torna uma mania na sociedade brasileira até tentou apagar a lembrança do impedimento político do então presidente Fernando Collor, acusado de corrupção passiva e ligado ao tesoureiro Paulo César Farias.

No entanto, a força dos fatos mostra o quanto esse episódio foi marcante na história política do país, embora nele não sejam possíveis maniqueísmos, por ser um cenário bastante complexo de interesses e conveniências em jogo.

Fernando Collor foi o anti-Kubitschek, assim como Fernando Henrique Cardoso foi o anti-Vargas. Se FHC tentou "empastelar" muitas das conquistas do getulismo, sem aparentemente mexer - porque não é legalmente possível - nas conquistas legitimadas pela Constituição de 1988, Collor tentou uma "abertura econômica" oposta à do mineiro que investiu na construção de Brasília.

Até em relação a JK, Fernando Collor foi para o rumo inverso, substituindo produtos nacionais (mesmo fabricados por filiais de estrangeiras) por importados. E seu governo de medidas claramente neoliberais - houve até mesmo uma ameaça de privatização das universidades federais, em 1991 - , até mesmo o âmbito "cultural" foi extremamente oposto ao da Era JK.

Afinal, se durante os anos Kubitschek, a televisão era sofisticada e caminhava para o avanço da tecnologia do videoteipe, da redescoberta dos ritmos brasileiros regionais e da sofisticação da Bossa Nova, o Brasil de Collor era o da mediocrização generalizada com uma televisão mais grotesca e uma música "popular" mais cafona e artisticamente duvidosa.

Fernando Collor acabou simbolizando essa mediocrização sócio-cultural, a "salvação do país" por meio de paliativos, um populismo conservador e burguês, o falso progresso econômico às custas do fisiologismo político, as alianças espúrias com uma mídia mais politiqueira.

Evidentemente, Collor acabou, por acidente, contrariando interesses das classes dominantes. Não que ele fosse realmente contra elas, mas Collor era um Jânio Quadros mais yuppie (ironicamente, Jânio faleceu sob o governo do "caçador de marajás"), sem obter um apoio consistente do Congresso Nacional e bloqueando os depósitos da poupança até das classes ricas que o ajudaram a se eleger.

O esquema de corrupção armado por Paulo César Farias e do qual Collor atuava como parceiro poderia não ter causado o escândalo que causou. Foi preciso haver a indignação das elites contra o confisco das poupanças para que a grande mídia se voltasse contra Collor, e a própria Globo permitiu que se lançasse a minissérie Anos Rebeldes como "sugestão" para as passeatas estudantis.

Em que pese a imagem glamourosa das esquerdas no país, nessa época o movimento estudantil sucumbiu a uma fase burocrática, corporativista e partidária. Em 1988 eu pude ir a uma passeata estudantil no Liceu Nilo Peçanha, em Niterói, um protesto que percorreria as avenidas Marquês do Paraná e Roberto Silveira, para convidar manifestantes do colégio Abel. Mas, de repente, a manifestação foi dissolvida e não foi adiante.

As passeatas estudantis talvez tivessem manifestantes sinceros, realmente indignados com Collor. Mas por trás disso havia interesses de mera projeção política de vários líderes, e poucos anos depois a União Nacional dos Estudantes - em 1992 bem distante do idealismo cepecista de 1961-1964 e da coragem de enfrentar a ditadura na ilegalidade entre 1966 e 1968 - virou uma mera "fábrica de carteirinhas".

No final dos anos 90, cheguei mesmo a perceber a arrogância de certos membros da UNE em Salvador na hora de inscrição dos universitários para a carteira estudantil. Era horrível, os caras agiam de forma esnobe e irritada, pareciam indispostos a fazer aquele trabalho todo. Esses dois episódios foram entre 1988 e 1997. Foi dentro desse período a "heroica" fase da UNE no "Fora Collor".

Quanto à grande mídia, ficou parecendo que Fernando Collor havia sido seu Frankenstein. Com isso vieram reportagens investigativas sobre o esquema Collor-PC, incluindo depoimentos do falecido Pedro Collor, irmão e desafeto de Collor, além de rival empresarial de Paulo César Farias.

Foi a última fase de "idealismo" da grande mídia. A grande imprensa viu se encerrar uma fase de grande profissionalismo e grande idealismo. Ainda teria, de 1992 até 2005, alguma aura de supremacia diante da opinião pública mediana. Mas até lá vieram o caso Escola Base (notícia "plantada" de boatos), o crime de Pimenta Neves, a "invasão AM" nas FMs, o surto reacionário da imprensa conservadora, o paternalismo "sorospositivo" do projeto imperialista Jornalismo nas Américas.

Mas, até chegar a esse caminho, a imprensa, então cumprindo seu dever, influindo o Congresso Nacional a votar o impeachment de Fernando Collor. Processo que foi consumado no final de 1992, encerrando um breve governo de um político pouco expressivo trabalhado pela grande mídia.

A VOLTA "BUÑUELIANA" DE COLLOR

Como num filme de Luíz Buñuel, Fernando Collor se reabilitou politicamente tentando uma imagem oposta à que teve em 1989. Foi em 2005, quando Collor já era protegido da revista rival de Veja (que junto à Folha de São Paulo criou em 1988 o mito do "caçador de marajás" popularizado depois pela Globo), a Isto É.

Collor passou a apoiar seu antigo rival de 1989, o então presidente Lula, e tentava uma pose "progressista". Queria voltar à política como senador. Era filiado ao PTB que, nos tempos de Arnon de Mello, seu pai, era o partido de um rival político deste. A essas alturas o PRN de 1989-1990 havia desaparecido do quadro partidário brasileiro, sem deixar marcas.

Mas até no Orkut já havia uma "torcida" collorida e alguns lunáticos o compararam a Juscelino Kubitschek, o que, como foi escrito acima, nada tem a ver. Enquanto isso, o lobby da "progressista" revista Isto É, num tempo em que parte da imprensa conservadora mais branda, a "mídia boazinha", podia se contrapôr à ala mais radical , com Isto É contra Veja e Bandeirantes contra Globo, seguia defendendo Collor.

E aí Collor foi eleito senador, seguindo as linhas do fisiologismo político junto a seu ex-desafeto José Sarney. Ambos até queriam tirar um memorial existente no Congresso Nacional, certa vez. Collor, por sua vez, alternava momentos falsamente "progressistas" - como no episódio recente em que o senador cobrava a presença de Roberto Civita, do Grupo Abril, para depor na CPI do Cachoeira - com outros reacionários.

Entre os momentos reacionários, está o apoio de Fernando Collor pela queda do presidente paraguaio Fernando Lugo. Mas esse episódio, junto ao apoio oportunista de Collor à campanha contra Veja, só fizeram com que as esquerdas médias se omitam diante da hipótese de repudiar o senador e ex-presidente. Como na Bahia as esquerdas médias tentaram o silêncio diante de Mário Kertèsz.

Elas se sentiram seduzidas por Collor, seja pela mediocrização que ele simbolizou e que setores da sociedade dominante glamourizam - como a música neo-brega de nomes como Zezé di Camargo & Luciano e Alexandre Pires, "crias" da Era Collor - , seja pelo apoio tendencioso a Lula, seja pela associação com uma mídia conservadora mas "branda".

Collor, símbolo dos valores dos anos 90 que foraram o inconsciente de uma geração, teria de ser poupado. Deixem as análises sobre a gravidade da Era Collor para acadêmicos e analistas políticos. Fica uma impressão de que as pessoas mais jovens que os manifestantes do "Fora Collor", crianças em 1992, dificilmente estariam estimuladas a derrubá-lo. Principalmente agora, quando os anos 90 ensaiam uma onda saudosista.

A Câmara dos Deputados, há 20 anos exatos, aprovou por 441 votos a 38, o impedimento político de Collor. O julgamento e o veredito final foi deixado para o Senado Federal, e se consumou em 28 de dezembro. Itamar Franco tornou-se presidente interino no decorrer de 1992 e passou a ser titular depois de consumado o impeachment, governando o país até 1994.

Depois desse tempo, várias coisas ocorreram. Collor perdeu a mãe, Leda Collor (Arnon de Mello já havia morrido em 1983) e o irmão Pedro Collor. A viúva de Pedro, Tereza Collor, hoje está casada com outro empresário. O tesoureiro Paulo César Farias foi assassinado em 1996, com sua namorada Suzana Marcolino, num quarto de hotel em Maceió. Fernando Collor se divorciou de Rosane Malta (hoje sua desafeta) e se casou com uma mulher bem mais jovem que ele. Itamar Franco faleceu em 2011.

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