quarta-feira, 19 de setembro de 2012

COLETIVO FORA DO EIXO, INTELECTUAIS E CAPITAL ESTRANGEIRO


Por Alexandre Figueiredo

Surpreende a coesão de uma parcela da intelectualidade brasileira comprometida mais com a defesa do establishment da "cultura de massa" do que do verdadeiro folclore brasileiro.

Dotada de um discurso que, aqui, é fartamente contestado, esses intelectuais, em boa parte, se articulam de maneira política e institucional, principalmente no Coletivo Fora do Eixo, na burocracia universitária e no já em elaboração o Partido da Cultura, espécie de "PSOL do amanhã" ou um "Instituto Millenium pós-tropicalista", conforme o contexto.

No entanto, os argumentos que a gente vê nos textos de Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Ronaldo Lemos, Hermano Vianna, Mônica Neves Leme e outros, corroborados por músicos, celebridades e até pelos barões da velha mídia, são dotados de suspeitíssimos interesses mercadológicos, embora seu discurso tente provar o contrário.

Afinal, esses intelectuais tentam se desvencilhar do neoliberalismo, da velha grande mídia, do mercado. Tentam defender o brega-popularesco, a "cultura popular de mercado" do Brasil, como se fosse uma multidão de "coitadinhos" querendo algum lugar ao sol.

E todo um recurso discursivo sofisticado serviu para defender até mesmo a grosseria explícita do "funk carioca", um ritmo que, pelo jeito, agrada em cheio as autoridades da CIA. Fofoca de blogueiro? Não, pois até mesmo o historiador Sérgio Cabral (nada a ver com as molecagens políticas de seu filho, que por sinal discorda do pai na preocupação deste com o infeliz ritmo) e a sambista Beth Carvalho já deram sinais de que a CIA não quer a cultura brasileira fortalecida.

São visões muito estranhas, pseudo-progressistas, com fachada de ativismo social e revolução tecnológica, que no entanto escondem um neoliberalismo histérico e histórico.Mas que, como pegadinha, chegaram mesmo a arrancar apoio de muita gente boa, acreditando que o socialismo no Brasil será implantado por uma "cultura popular" mercadológica associada a pretensos ativismos sócio-tecnológicos.

GEORGE SOROS, FUNDAÇÃO FORD E FUNDAÇÃO ROCKEFELLER

Denúncias existem de especialistas sérios, mas nem sempre respaldados pela opinião pública média, que alertam para a campanha neoliberal, que inclui até mesmo o apoio político da CIA (Central Intelligence Agency) para a domesticação e deturpação das manifestações culturais na América Latina.

As denúncias também apontam para o uso de dinheiro de multinacionais para esse objetivo, visando garantir a supremacia do G-7, do Fundo Monetário Internacional e do Departamento de Estado dos EUA, evitando que haja, nos países latino-americanos, movimentos sociais que ameaçassem o poderio dominante no âmbito da economia e da política.

Essas manobras existem há muito tempo e, nos anos 60, financiaram, no Brasil, as organizações que se empenharam em pregar a derrubada do governo João Goulart, o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e seu subsidiário IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), fachadas "intelectuais" do golpismo civil-militar da época, que inspirou a famigerada ditadura de 1964-1985.

Só que o que chama a atenção hoje é que essas manobras estão muito mais sutis e sofisticadas. É o chamado "poder suave" (soft power) que substituiu as ditaduras de outrora, que só geraram prejuízo econômico e processos internacionais pelo crime contra os direitos humanos.

Hoje o poder neoliberal tenta cooptar os movimentos sociais, incluindo a esquerda mais "flexível" e os movimentos alternativos. Sua "bandeira" de luta é, aparentemente, fortalecer a democratização na Comunicação, as expressões culturais locais e o desenvolvimento econômico dos países emergentes.

No entanto, é esmola demais para se achar que não existe algum objetivo oculto nessas iniciativas. Nota-se que, entre as instituições que mais aplicam dinheiro a esses movimentos, estão a Fundação Ford (Ford Foundation), a Fundação Nelson Rockefeller e a Soros Open Society, do especulador George Soros.

Da intelectualidade cultural dominante, apenas Hermano Vianna, antropólogo, e Ronaldo Lemos, advogado, assumem claramente que são patrocinados pela Fundação Ford e por George Soros. Eles podem dar a cara a tapa, porque trabalham para a grande mídia.

Mas infere-se que mesmo o "discreto" Paulo César Araújo, a pouco conhecida Mônica Neves Leme e o festejado Pedro Alexandre Sanches, além dos baianos Roberto Albergaria e Milton Moura, também recebam, mesmo de forma indireta, as verbas da Ford e da Soros, pois defendem as mesmas teses do "mercado aberto" de Soros aplicada à cultura brasileira. E o Coletivo Fora do Eixo também sinaliza receber estas verbas, talvez intermediada por instituições acadêmicas ou filantrópicas.

São instituições que montam suas "trincheiras" entre os tecnocratas do Fórum Econômico Mundial, evento onde se reúnem os maiores detentores do poder político e econômico no planeta, em detrimento do Fórum Social Mundial, evento paralelo que envolve os movimentos sociais.

INFELIZMENTE, VÁRIAS BATALHAS GANHAS

Infelizmente, o desenvolvimento, no Brasil, de um "padrão" de "perspectivas sócio-culturais" montado pelos investidores estrangeiros, acabou tendo resultados favoráveis a seus detentores, criando um quadro sócio-cultural de pessoas resignadas e pouco desconfiadas pelas armadilhas montadas em diversos setores.

Mesmo o "inocente" caso da rede de TV paga TeleCine, através do canal TeleCine Cult - que, pelo jeito, faz juz ao gato desenhado no seu logotipo, porque é um verdadeiro "balaio de gatos" de filmes antigos sem qualquer critério - , porque recupera a glamourização dos filmes comerciais de Hollywood, enganosamente lançados, agora, sob o mentiroso rótulo de "filmes alternativos".

Isso em si derruba de vez a tão trabalhada cultura cineclubista de décadas, desvalorizando o esforço de nomes como Walter da Silveira, Paulo Emílio Salles Gomes e Guido Araújo (este ex-professor do blogueiro que escreve este texto). Tantos debates sobre cinema desperdiçados, porque hoje um astro tipo John Wayne é tão "alternativo" quanto Jacques Tati, o que é um absurdo.

O pior é que hoje espaços de cinema alternativo desperdiçam seus programas com tributos tendenciosos e caça-níqueis a cineastas meramente comerciais, como Steven Spielberg, ou a filmes ingênuos da fase áurea do cinema norte-americano. E que podem até ser bem feitos, mas boa parte deles chega a ser muito tola para se encaixar em qualquer rótulo de "cinema alternativo".

Mas a coisa não pára por aí. O projeto Jornalismo nas Américas, comandado por um ex-editor da revista Veja (!) e claramente apoiado por gente insuspeita como Merval Pereira, Miriam Leitão, William Waack e Carlos Alberto di Franco (ligado à Opus Dei e ao Instituto Millenium), chegou a ser confundido, pela opinião pública mediana, a um projeto progressista de democratização internacional das Comunicações.

Quanta ingenuidade. O Jornalismo nas Américas, sabemos, é o mesmo processo visto antes com a Aliança para o Progresso de John Kennedy, um projeto de domínio político da América Latina através de uma suposta conciliação. E quem é que vai garantir que Rosenthal Calmon Alves, apoiado pela mídia mais reacionária, irá trazer o socialismo para a imprensa brasileira ou de outros países latino-americanos?

CABEÇAS ALEGREMENTE POSTAS SOB A GUILHOTINA

A multiplicação de tolices atinge até mesmo casos "comezinhos", como muitos consumidores aceitarem verdadeiros ataques gramaticais de marcas de cosméticos, como o tal "stop queda" de uma linha de xampus. Ou aceitar que um grupo de sambrega que junta samba e rock numa diluição duplamente grotesca, o Sambô, massacre alegremente uma música do U2 que descreve um massacre de manifestantes.

São pessoas tão crédulas que acabam pondo alegremente suas cabeças na guilhotina, felizes em conferir se a lâmina funciona mesmo. E que acham maravilhoso que George Soros deposite milhões de dólares nos movimentos sociais, achando que isso tudo é tão somente para viabilizar os investimentos.

Eles acabam aplaudindo como focas de circo os intelectuais que querem o fim da cultura brasileira e sua substituição pela "cultura de massa". Acabam dando a chave para Tio Sam, achando que a globalização de hoje não traz risco algum. Estão enganados.

Acabam, isso sim, entregando o ouro a bandido, e a partir disso novas crueldades do Imperialismo poderão ser feitas, em nome do mais efetivo domínio e subordinação dos países latino-americanos, e até que ponto a fachada "progressista" pode ocultar esse processo de dominação é um terrível mistério.

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