sábado, 8 de setembro de 2012

A TROLAGEM E AS LIÇÕES DA VIDA


Por Alexandre Figueiredo

A trolagem é um fenômeno da Internet em que jovens mandam mensagens irônicas ou ofensivas com a finalidade de bagunçar os debates na rede.

Em sua maioria, porém, os troleiros se identificam com causas reacionárias ou com qualquer projeto arbitrariamente lançado pela mídia ou pelas autoridades políticas, sendo uma espécie de cães de guarda do "estabelecido".

Nos últimos dez anos, a trolagem surpreendeu a muitos na medida em que mostrou uma geração jovem que, apesar de aparentemente moderna em visual e linguagem, adotava ideias bastante retrógradas.

Muitos ainda sentem dificuldade em ver o reacionarismo entre jovens. Mas isso mostra que a ideia de juventude e ideais progressistas caminharem juntos é mito, que o ultrarreacionarismo em tenra idade é possível.

E isso não só é possível como ele é facilitado pela linguagem zombeteira, pelos palavrões e até por outros mecanismos ilícitos que aumentam o tom do reacionarismo até mesmo para o nível de ofensas gratuitas, mais do que muito reacionarismo adulto feito nos limites permitidos pela legalidade.

Os troleiros são geralmente filhos de abastados ou de gente que começa a se tornar abastada. Associando a liberdade na Internet com as imposições paliativas da mídia e da política, esses "filhos de peixe grande ou médio" criam seu mini-macartismo que os fas grandiloquentes no bullying digital contra quem discorda deles.

Incomodados com a perda da establilidade de valores e princípios determinados pela mídia e pela política nos anos 90 - quando a Internet era incipiente e os abusos político-midiáticos praticamente corriam soltos - , esses jovens se configuraram em delinquentes virtuais, em valentões a reagir contra qualquer texto que ia contra seus valores, ídolos, totens.

E as reações vinham de todo modo, sobretudo através de fakes. São mensagens ou mesmo páginas virtuais ofensivas, tudo por conta de uma discordância do "estabelecido" que o troleiro não aceitou. Este acreditava na unanimidade das causas defendidas pelos políticos, mesmo corruptos, e pelos executivos de televisão, mesmo contrários à cidadania.

Pouco importam valores éticos, interesses públicos, valores morais e culturais. O troleiro tem uma defesa cega ao "estabelecido", acreditando que as melhorias chegarão por ele de forma lenta e gradual. Parece que virou lugar comum pessoas raciocinarem como no governo Ernesto Geisel, até mesmo pessoas que nasceram há pouco tempo e não viveram o governo do referido general da ditadura.

Aí se irritam quando a vida lhes mostra outra coisa, que as opiniões que leem na Internet vão contra o que eles acreditam, e por isso ofensas, ironias, gozações, tudo isso é despejado na esperança vã de desmoralizar o discordante do momento.

Só que os troleiros se expõem muito em seu reacionarismo. Se usam fakes, sua linguagem comum, sem a menor criatividade ou sutileza, de uma maneira ou de outra vai denunciando a identidade do infrator digital, e isso, a princípio, pode fazer do troleiro um valentão orgulhoso, mas com o tempo ele acaba gerando problemas sérios contra si.

É como um homem que bate em tantas outras pessoas que, tido como um valentão triunfante, passa a ser visto como um problema para outras pessoas. E, com a repercussão de seus atos, o "feitiço" vai contra o "feiticeiro", porque o encrenqueiro acaba sendo desmoralizado de forma mais intensa do que ele imaginaria fazer com suas vítimas.

É isso que, num certo momento, sempre acontece nas trolagens mais ofensivas. Elas expõem seu autor à repercussão negativa. A princípio o troleiro pode se julgar inabalável, cercado de muitos amigos e dotado de prestígio. Mas depois ele vira um problema, e cedo ou tarde reações adversas acabam por assustar o troleiro, antes o destemido vândalo digital, depois o envergonhado delinquente da Internet.

Com o tempo, o reacionarismo troleiro esfria. Leva algum tempo, mas ocorre. A repercussão negativa de seus atos é inevitável, porque a vida lhe apresenta situações que confirmam isso. E o troleiro pode até se irritar e se apavorar, mas no fim se silencia envergonhado e assustado em ver quanta gente repudia seus atos, inclusive aquelas pessoas que o troleiro imaginava lhe apoiarem e lhe protegerem fielmente.

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