terça-feira, 4 de setembro de 2012

A MÍDIA MACHISTA E SEU "ESPETÁCULO"


Por Alexandre Figueiredo

A mídia machista nunca esteve tão ativa hoje em dia. E não são apenas os comerciais de automóveis, de lingerie ou de televisão por assinatura que apostam na imagem ridicularizada da mulher brasileira.

A coisa vai mais embaixo. E, o que é pior, é "protegida" pelo rótulo "popular" que santifica qualquer barbaridade feita contra as classes populares. Empurra-se muito lixo para o povo, para depois dizer que "é justamente o que o povo gosta".

Pois o pior da mídia machista está quando a sensualidade deixa de ser uma qualidade eventual da mulher para ser um fim em si mesmo. E que é trabalhado da forma mais grotesca possível, chegando-se ao nível troglodita, como no caso do "funk carioca" (sobretudo através da Gaiola das Popozudas).

É um mercado que insiste, mesmo soando repetitivo e cansativo. Para piorar, é um mercado que lança novas "musas" sem sequer aposentar as anteriores, gerando uma demanda gigantesca de "boazudas" que "mostram demais" em cada factoide difundido pela mídia das celebridades.

O espetáculo preocupa. Não apenas pela sensualidade caricata, exagerada e obsessiva dessas "musas" - muitas delas menos atraentes do que se alardeia - , como pelas eventuais besteiras que elas fazem e dizem, seja "medição de bumbum", declarações de que odeia leitura de livros (ou, quando lê, é um livro de auto-ajuda religioso) ou de puro narcisismo, como nas mensagens recentes de Geisy Arruda, no Twitter, de que ela "está doidinha" por si mesma.

As musas não têm o que dizer. E, para mostrar, mostram tanto que parecem carne de rua. Ou seja, essas "musas" já não correspondem ao supérfluo, tornam-se inúteis. Mas como a mídia machista força sempre a barra, a persistência delas em todo dia, às custas de muitos factoides, já representa algo nocivo à imagem da mulher brasileira, mais do que se pode imaginar.

"URUBOLOGIA"

Certa vez, eu escrevi um texto dizendo que Solange Gomes, a ex-Banheira do Gugu que integra esse "exército de popozudas" na Internet, deveria se casar com um empresário e se aposentar, no meu outro blogue O Kylocyclo, recebi uma imagem ofensiva de uma internauta que usou o codinome "marcinha", o que mostra o quanto tem de "urubologia" por trás desse mercado do entretenimento machista.

Me ameaçando processar entre outros comentários violentos, a "marcinha", muito "marchista", se sentiu ofendida com as críticas, construtivas, que eu fiz a Solange Gomes. Críticas duras, mas construtivas. Afinal, nessa época Solange estava com 37 anos (em 2011), a essas alturas ultrapassando, por exemplo, o tempo de vida de Marilyn Monroe, falecida aos 36 anos e símbolo de uma sensualidade nada vulgar.

Eu também havia recebido, pasmem, mensagens de mulheres (?!) que defendiam "mulheres-frutas" e "periguetes", inclusive de uma assessora da Mulher Melão, quando esta tentou se candidatar a um cargo político. É surpreendente como existem mulheres que ainda defendem valores machistas. Sinal de que eles continuam sendo um grande negócio.

Afinal, trata-se de um trampolim para certas mulheres ganharem muito dinheiro por nada. Basta mostrar o corpo na praia, nas noitadas, nos ensaios de escola de samba ou em outras situações combinadas. Não é preciso ter uma capacidade mínima de raciocínio, e até as gafes cometidas são trabalhadas para que, no máximo, se tornem apenas "escandalosas polêmicas" a divertir o público da TV aberta mais rasteiro.

As "urubologias" também não param na reação de "marcinha". Elas se dão também quando os chamados "machistas-uia" (espécie de machistas juvenis, meio "irreverentes") acusam aqueles que reprovam a vulgaridade das "boazudas" de "machistas", o que é uma incoerência. Afinal, essas mulheres, apesar de se sustentarem "sozinhas" com seu "trabalho", elas estão a serviço de valores machistas.

OFENSA ÀS MULHERES SOLTEIRAS

O que chama a atenção desse gigantesco "exército de boazudas" - que inclui ex-BBB, "mulheres-frutas", "garotas da laje", "musas do Brasileirão", paniquetes, "miss bumbum" etc - é o fato de que elas também são obrigadas a viver um aparente celibato, ainda que muitas vezes seja falso.

Afinal, existem denúncias de que certas paniquetes, algumas dançarinas de "pagodão" e algumas funqueiras mais famosas, tidas como "solteiríssimas", na verdade possuem namorados ou estão casadas. As relações são dissimuladas pelo distanciamento de seus namorados e maridos para não atrapalhar as carreiras delas, e eles, bastente ciumentos, no entanto são bem indenizados pelos empresários de suas mulheres.

Em todo caso, até mesmo essas moças comprometidas são obrigadas, por motivos contratuais, a trabalharem uma imagem de "solteiras" que serve de "modelo" para moças pobres. Mas, se elas acabam ditando o estilo de vida para as solteiras das classes populares, é sinal de que alguma coisa está errada.

Pois, infelizmente, as "boazudas" ditam para o grande público o que a grande mídia entende como "solteira bem-sucedida". E, através disso, cria-se uma visão ofensiva e depreciativa às solteiras no Brasil, tidas como "vagabundas", que só pensam em noitadas ou em "cultuar" o corpo.

A imagem de "solteiras" dessas "musas" é de tal forma trabalhada, até de maneira grotesca, que muitas delas acabam tendo namoros-relâmpago, paqueras que morrem nos beijos de fim de semana, namoros de apenas três semanas, casamentos de poucos meses etc.. Tudo pela "carreira".

Ou seja, para a grande mídia e para o mercado machista, a solteira no Brasil não é aquela que se concentra na vida profissional, que busca o melhor aprendizado até na hora do lazer e procura aperfeiçoar seu caráter moral e seus conhecimentos sem depender dos vínculos com um homem. Isso sem falar de descasadas ou viúvas que se ocupam cuidando de filhos e indo ao trabalho e aos estudos, sem tempo para namorar alguém.

Em contrapartida, a mídia trabalha a mulher independente brasileira quase sempre como uma mulher casada, vinculada a um homem de "liderança" (executivo, empresário, profissional liberal ou, quando muito, "apenas" um diretor ou produtor de tevê ou cinema), ou seja, uma mulher "independente" que "dependa" sempre de um marido.

É uma visão esquizofrênica e míope, mas que tem o seu sentido manipulador da opinião pública em favor de valores machistas. A mulher é "premiada" com sua solteirice se ela estiver a serviço de valores machistas de uma personalidade imbecilizada e intelectualmente vazia.

Em compensação, a mulher que quiser romper com os valores machistas é "aconselhada" a ter um marido "importante", nem que ela viva com ele uma "solidão a dois" e apareça quase sempre sozinha nos eventos sociais em que não precisa a presença decorativa do "importante" maridão.

Com isso, a mídia machista dá um golpe na emancipação das mulheres no Brasil, de uma forma bastante sutil e traiçoeira. É um mercado que movimenta milhões de reais para uma minoria de empresários que lucram com esse machismo. E, de uma certa forma, são homens que estão por trás dessas "boazudas" que "mostram demais". Portanto, elas continuam dependendo de homens, da mesma maneira.

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