quarta-feira, 19 de setembro de 2012

A GRANDE MÍDIA E A PREMIAÇÃO DO BREGA-POPULARESCO


Por Alexandre Figueiredo

A princípio, a intelectualidade dominante tentou nos convencer que o brega-popularesco que já estava livre e solto na grande mídia era "boicotado" por essa mesma grande mídia.

Não convenceu. Diante disso, os mesmos intelectuais tentaram então inventar que o brega-popularesco apareceu na grande mídia por uma questão de "invasão dos excluídos (?!)", uma espécie de suposta rebelião popular.

Também não convenceu. Então os mesmos intelectuais - sociólogos, antropólogos, historiadores, críticos musicais etc - tentaram dizer que a presença do brega-popularesco na grande mídia era "acidental", apenas uma coincidência do acaso.

Mas aí também não convenceu. Desesperada, a intelectualidade então tenta desqualificar o nome "velha grande mídia", deixando vazar que, no fundo, essa intelectualidade sempre defendeu os barões da grande mídia, embora tentem se infiltrar na mídia esquerdista com seu proselitismo.

Pois o brega-popularesco sempre foi vinculado à velha grande mídia, nacional ou regional, desde os tempos dos primeiros ídolos cafonas, no início de suas carreiras, a partir do final dos anos 50, quando o latifúndio financiou uma ala mais medíocre e caricata de "seresteiros" visando distrair os ouvintes de rádio com uma música datada e de cunho conformista - que evoca sentimentos derrotistas e resignados - que veio a ser a primeira fase da "música brega", anos depois. O latifúndio agiu assim para evitar a revolta popular, afinal eram os tempos das Ligas Camponesas, o MST dos anos 50-60.

Passados anos e anos de paliativas "evoluções" da música brega, que geraram uma pseudo-diversidade de ritmos como o breganejo, o sambrega, o "funk carioca", a axé-music e o forró-brega, além dos seus derivados de segundo grau "sertanejo universitário", tecnobrega, arrocha e tchê-music, entre outros, a Música de Cabresto Brasileira, braço musical do brega-popularesco (a pseudo-cultura "popular" midiática) se tornou um grande complexo midiático e mercadológico que agrada aos barões midiáticos.

Não tem como escapar dessa constatação. Pelo menos no exterior os intelectuais são menos condescendentes. O artista plástico François Derivery não tem ilusões quanto ao rótulo "popular" que está por trás de certos eventos, fenômenos e veículos da grande mídia. Não é porque é considerado oficialmente "popular" que vá se culpar o povo pobre de "gostar" disso tudo.

Até porque essa questão de "gosto" é uma nulidade. Com muita estratégia publicitária, muita campanha de mídia, induz-se qualquer desavisado a "gostar" de algo que naturalmente essa mesma pessoa poderia detestar ou desprezar. A mídia cria falsas necessidades, falsos valores, e isso inclui a construção de elementos ideológicos que criam uma imagem estereotipada do "popular".

Esse estereótipo é "positivamente" veiculado, de forma que os discursos não cruzem com os dos "urubólogos" do jornalismo político. Desse modo, os comentaristas políticos da grande mídia falam mal do MST, enquanto os críticos musicais elogiam o forró-brega, o breganejo e o "funk carioca". Em ambos os casos, os interesses coronelistas são igualmente defendidos, mas há a falsa impressão de que o discurso dos críticos musicais é "solidário" às classes populares.

Isso fez uma pegadinha nas esquerdas medianas, que acharam que dá para defender ao mesmo tempo o Movimento dos Sem Terra e o "menestrel" dos latifundiários Waldick Soriano. Ou achar que o "funk carioca" naturalmente associado a atitudes contrárias à cidadania, envolvendo sobretudo a glamourização da miséria e da ignorância, além da transmissão de valores que defendem do machismo à criminalidade, seja usado para "defesa" dessa mesma cidadania a que o ritmo tanto combate.

É só pensar um pouco. O "funk carioca", por exemplo, não defende a regulação da mídia. Uma Tati Quebra-Barraco simboliza as baixarias midiáticas que gente séria como Emir Sader e Venício A. de Lima se esforçam em combater.

Não adianta inventar que, no plano cultural, a intelectualidade, de maneira tendenciosa, ponha tudo na conta do falecido Gregório de Matos, como se certas baixarias midiáticas fossem justificáveis quando é no âmbito do "popular". Isso é tão patético quanto a ditadura militar mandar prender Sófocles, autor da Antiguidade grega, na citação do Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, o alter ego do saudoso Sérgio Porto.

Portanto, a evocação do termo "popular" não inocenta a grande mídia da responsabilidade de manipular o gosto popular pela mediocrização cultural mais aberta. A "ditabranda do mau gosto" triunfa sob o claro apoio dos barões da grande mídia, que premiam o sucesso desses "ídolos populares" pela "missão" deles de evitar que o povo pobre reconquiste seu próprio folclore ou que participe de qualquer renovação da MPB autêntica.

No Prêmio Multishow, essa premiação é evidente. Foi a partir daí que os neo-bregas dos anos 90 passaram a tomar gosto pela "MPB de mentirinha" para tentar agradar os medalhões da MPB que ainda não migraram para a Biscoito Fino. E estes, querendo tocar nos eventos que têm os neo-bregas como anfitrões (como micaretas e vaquejadas), aceitam compactuar com a breguice reinante.

O Prêmio Multishow, aparentemente, reúne tudo o que representa o hit-parade brasileiro. Alguma MPB mais feijão com arroz, tipo Ana Carolina, Jorge Vercilo e Maria Gadu, algumas bandas emo (tipo NX Zero, Fresno e Restart), e um monte de ídolos brega-popularescos do momento, como Thiaguinho, Michel Teló, Sambô e Gaby Amarantos. Sem falar de "veteranos" como Ivete Sangalo, famosa pelo seu oportunismo.

O Multishow, sabemos, é das Organizações Globo, e quando a Globo investe em brega-popularesco, é bom deixar claro que não há coincidência nem qualquer ação conspiratória por trás. O que há é simplesmente a promoção de um tipo de "cultura popular" que interessa aos barões da grande mídia.

Eles têm medo que o povo volte a fazer baiões, sambas, modinhas, maracatus e outros ritmos genuínos com a força que tiveram antes de 1964. Para os barões da mídia, deixe-se que universitários curitibanos façam baiões como Luiz Gonzaga fazia nos anos 50, os nordestinos que fiquem "criando" ritmos através do engodo despejado pelas rádios latifundiárias, como os "restos" de country music, disco music e ritmos caribenhos mais a sanfona gaúcha (!) que constituiu o forró-brega, "forró eletrônico" ou oxente-music.

Mas, para piorar, até os universitários dos centros urbanos, que eram antes o público de uma MPB quase marginalizada nos salões das elites, agora estão também consumindo brega, sobretudo o infame "sertanejo universitário" e suas centenas de cantores e duplas vindos do nada.

Os barões da mídia têm medo que o povo pobre retome sua força cultural. Por isso inventa até que o brega-popularesco de hoje só se divulga nas redes sociais. Criam uma blindagem intelectual para isso, para dizer "com categoria" que o brega-popularesco que aparece livre e solto na grande mídia é "boicotado severamente" por essa mesma mídia.

Infelizmente, no Brasil, certas mentiras viram "verdades" apenas porque são condicionadas pelo status quo e pela visibilidade de quem as veicula.

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