quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A GLOBO E OS NOVOS RUMOS DE SEU JORNALISMO


Por Alexandre Figueiredo

Mudanças na Rede Globo. Da direção-geral da emissora, sai Octavio Florisbal, transferido para o Conselho Administrativo das Organizações Globo, e no seu lugar entra o ex-diretor geral de Jornalismo e Esportes, Carlos Henrique Schroder.

Mas as alterações não param por aí e nem são as principais. Quem passa a ser diretor-geral de Jornalismo e Esportes é o até antes diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel.

Isso significa que o poder de Ali Kamel aumentou consideravelmente na cúpula da emissora, e, como se isso não bastasse, a elevação de Carlos Schoder para a programação geral da emissora mostra a prioridade com que o chamado "infotainment" está sendo adotado na emissora.

O "infotainment" é uma espécie de "showrnalismo" às avessas. Se este último representa a intervenção do entretenimento na cobertura jornalística, processo que os analistas de Comunicação definem como "espetacularização da notícia", o "infotainment" é a intervenção do jornalismo no âmbito do entretenimento.

Mas esses dois processos, não raro, se dialogam entre si. E, no contexto comercial e ideológico da Rede Globo, "infotainment" e "showrnalismo" andam de mãos dadas, o primeiro é usado para justificar o segundo, mas há também um outro aspecto a ser considerado com isso.

Afinal, a Rede Globo, com sua linguagem própria - deve-se reconhecer que a Globo é detentora de um "estilo" - é impermeável a muitas fórmulas que dão mais certo numa Record ou SBT. Entre elas é a prevalência, por si mesma, do "showrnalismo", que no contexto "global" torna-se impossível da maneira com que se consagrou nas emissoras concorrentes.

Por isso, o "showrnalismo" da Globo existe e predomina, mas de uma forma mais "light". O Jornal Nacional é "construído" como se fosse uma "novela", seu discurso é asséptico, como se o mundo estivesse nas mãos de William Bonner. Até pouco tempo atrás, o JN era marcado pelo clima família de William e sua esposa Fátima Bernardes, mas fatores diversos fizeram com que essa condição fosse rompida.

Afinal, durante a campanha presidencial de 2010, o JN cometeu deslizes que contribuíram para a queda de audiência. A notícia da bolinha de papel contra José Serra, narrada como se fosse um "sério ataque de uma arma química', durante uma "peregrinação" do candidato na Zona Oeste do Rio de Janeiro, através de um "estranho objeto" que teria "ferido seriamente" o hoje candidato à prefeitura de São Paulo.

Isso repercutiu mal na opinião pública e fez o JN cair em audiência. Seu reacionarismo editorial e a repetitividade de seu "clima família" também "derrubaram" a emissora, e, além disso, a crise da Globo atingiu também outros programas. Do Fantástico ao Big Brother Brasil, a estrela-guia dos irmãos Marinho havia sido afetada pelas perdas de pontos no Ibope.

Isso fez com que a Globo realizasse várias mudanças em sua programação. Veio o programa de entrevistas de Fátima Bernardes, que ficou alguns meses na "geladeira" depois que deixou a apresentação do Jornal Nacional. O Fantástico transferiu, então, para o JN, a jornalista Patrícia Poeta, esposa de um dos executivos da Globo, Amaury Soares, deixando a suplente Renata Ceribelli como titular.

Com isso, o JN deixa de ser "o jornal família", com uma dupla, e não mais um casal, na apresentação, o que simularia "maior credibilidade jornalística". Em compensação, Fátima Bernardes passou a comandar uma atração de entretenimento, o "encontro" que substituiu, na grade dos dias úteis, o programa infantil Globinho, restrito aos sábados.

O programa Encontro com Fátima Bernardes, no entanto, se aproxima mais do clima de entretenimento. Sem o cenário "limpo" dos programas de entrevistas, o programa segue aquele estilo lúdico da Globo, com várias pessoas à volta, entre convidados e outras pessoas, como maneira de "tranquilizar" o espectador diante de uma "coletividade" que respalda o programa. Algo que existe também no Na Moral de Pedro Bial, "mestre de cerimônias" do Big Brother Brasil e membro-fundador do Instituto Millenium.

As entrevistas parecem "improvisadas", mais como um bate-papo do que como uma entrevista, embora também não lembre aquele estilo norte-americano de programa de entrevistas. Neste caso, no entanto, temos Jô Soares, o veterano humorista que havia adaptado as novidades de David Letterman, Jay Leno e outros com as lições que ele havia aprendido há mais de 50 anos com Silveira Sampaio.

Outra questão levada em conta pela cúpula jornalística, até pelas "surras" que recebeu no âmbito da audiência, é a economia de custos, enfatizando sobretudo o entretenimento, deixando de lado a antiga sofisticação documentarista do Globo Repórter, convertido, na maioria das vezes, numa junção de módulos de diferentes reportagens sobre um mesmo tema.

Desse modo, o Profissão Repórter representou o último refúgio do jornalismo investigativo, além de certas reportagens no Fantástico. Mas o PR usa dos mesmos recursos do "parceiros do RJ", do RJ-TV, com repórteres semi-anônimos realizando as reportagens, sendo, no caso do Profissão Repórter, orientados pelo repórter e editor Caco Barcellos.

Além de fortalecer o potencial comercial do jornalismo, a Rede Globo pretende também fortalecer seu projeto ideológico. A Globo já tenta dominar no âmbito do entretenimento, expandindo seu tráfico de influência até mesmo em parte de seus 'detratores', que podem "odiar" a Globo mas assimilam as gírias de Luciano Huck e Fausto Silva, o ufanismo de Galvão Bueno e assinam em baixo no sucesso dos ídolos brega-popularescos que aparecem na emissora, incluindo até mesmo o "funk carioca".

Como última grande reserva de poder da velha grande mídia, a Globo quer recuperar seu poderio ideológico pleno, decidir não somente na propagação de gírias - como "balada", gíria "patenteada" por Luciano Huck, e "galera", gíria franqueada por Fausto Silva - ou no gosto musical dos brasileiros, mas também na escolha de governantes, função "perdida" pela emissora nos últimos pleitos presidenciais e em vários pleitos municipais e estaduais.

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