quarta-feira, 26 de setembro de 2012

A GLOBO E O INCONSCIENTE COLETIVO


Por Alexandre Figueiredo

Uma das lições que muitos brasileiros ignoram é quanto ao significado de discípulos e alunos de qualquer fenômeno associado a ideias dominantes.

Imaginam que o maior discípulo é aquele que bajula e endeusa seu totem, seja ele um mestre ou uma instituição.

Não, grande engano. O maior discípulo, o maior aluno e o maior seguidor é aquele que não necessariamente adora seu mestre ou qualquer outro totem, mas aquele que segue suas lições e seus princípios.

Pois existem discípulos maus que, bajulando seus mestres e adorando totens, no entanto deixam de seguir seus ensinamentos. Mas os maiores discípulos e seguidores são aqueles que, formalmente rompidos com seus mestres e totens, no entanto herdaram com impressionante fidelidade as suas lições.

Há vários exemplos disso, e mostram, mesmo fora do âmbito das Organizações Globo, o quanto ela influiu na construção de um inconsciente coletivo cujo raio de alcance atinge até mesmo aqueles que dizem odiar a chamada "vênus platinada" da famiglia Marinho.

Nos meus quinze anos de Internet, pude ver vários exemplos envolvendo vários ícones e totens da ideologia dominante, de uma forma ou de outra associados ou aliados do poder midiático. São vários aspectos, e várias situações, que nos leva até mesmo a desconfiar se a postura "anti-Globo" de algumas pessoas não passaria de jogo de cena, ou uma maneira de tentar agradar os amigos mais à esquerda.

Até na crise das "rádios rock", entre os anos 90, a influência da Globo torna-se notória. Como se não fosse suficiente a clara influência da linguagem "Jovem Pan 2" (então um paradigma de rádio pop "hostilizado" pelas ditas "rádios rock") na pretensamente "roqueira" 89 FM de São Paulo, o empresário e apresentador Luciano Huck, da Jovem Pan 2 e então nos primeiros anos de Globo, também exercia influência ideológica no público "roqueiro", mesmo estando ele "hostil" à sua figura.

Eram gírias clubbers, como "balada" e "galera", ou então o mesmo apetite por noitadas, esportes radicais e filmes de ação e histórias em quadrinhos que unia os clubbers da Jovem Pan 2 e os "roqueiros de butique" da 89 FM (e sua congênere Rádio Cidade, no Rio de Janeiro).

Seria até cômico ver essas "tribos" brigando mas compartilhando dos mesmos valores ideológicos, o duelo do 6 com o meia-dúzia. E até o locutor Zé Luís (hoje garoto-propaganda das Casas Bahia) era claramente influenciado no que Luciano Huck fazia na Jovem Pan 2.

O ufanismo esportivo de Galvão Bueno é outro exemplo da influência ideológica sobre pretensos detratores. O narrador esportivo é "odiado" por uma parcela dos brasileiros que, no entanto, seguem bem a sua histeria ufanista. Se não endeusam seu mestre, endeusam os totens que ele impõe, o que significa um endeusamento subsidiário, onde o totem maior é isolado numa aparente aversão, enquanto totens secundários trazidos pelo totem maior é que são endeusados pelos discípulos não-assumidos do mestre.

A "cultura" brega-popularescatambém influi na influência da Rede Globo no imaginário daqueles que dizem odiá-la. Até quando a Rede Record se apropria desses "pecados" da Rede Globo através do processo pejorativamente denominado "recópia". Torna-se até desculpa para dizer que os valores da breguice cultural veiculados pela Rede Globo "estão acima dos interesses da emissora".

Isso influi até mesmo em pessoas como o professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, que, falsamente "esquerdista", assina embaixo em todos os valores da velha grande mídia. Mas existem outras pessoas que exaltam a "cultura de massa" glamourizada e perpetuada pelas lentes "globais", mesmo quando, contraditoriamente, "avacalham" a Globo e copiam, para colocar no Facebook, aquela famosa charge de Carlos Latuff sobre o hipnotismo da Globo: "Sorria: Você está sendo manipulado".

Mas o inconsciente coletivo da Globo vai mesmo de forma indireta até mesmo em intelectuais como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches. O primeiro é claramente formado ideologicamente pela Rede Globo, pelo "inocente" papel de domínio cultural midiático da emissora dos Marinho no povo brasileiro, sobretudo pelo povo pobre.

A Globo, assim, age como formadora da "vontade popular", glamourizada apenas como mera "difusora" dessa "vontade". Uma "vontade" trabalhada em novelas, em programas de auditório, em trilhas sonoras, em telejornais, em campanhas publicitárias e outros programas, e em rádios e jornais ligados a grupos políticos direta ou indiretamente relacionados.

A glamourização do brega por Paulo César Araújo é, na verdade, uma glamourização de uma "cultura popular" cujos laços são mercadológicos e midiáticos, não mais os laços sociais naturais das comunidades. É a manifestação do inconsciente coletivo da Globo, seu grito de desespero diante das avaliações críticas contra seu mecanismo industrial e sua produção de ídolos considerados ultrapassados, mas que interessa ao mercado resgatá-los.

E Pedro Alexandre Sanches, discípulo de Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama e Otávio Frias Filho, também tem sua "inspiração global" para veicular suas ideias. A "cultura de massa" brega-popularesca tem relações intrínsecas de aliança com as Organizações Globo. Por exemplo, muito do sucesso de Amado Batista, Wando, José Augusto e Sullivan & Massadas no rádio carioca se devem ao braço radiofônico da Globo, a 98 FM.

Fora isso, temos a influência que as novelas da Globo exercem sobre o comportamento popular, o fanatismo esportivo condicionado por seus programas esportivos, o padrão de apreciação da "cultura de massa" através dos espetáculos de entretenimento da emissora ou do que as rádios tocam e as revistas mostram.

Nada disso é "cultura alternativa", nem "vanguarda cultural", e nem algo que esteja acima da mídia. O que veio de dentro da grande mídia não está acima nem fora dela, porque dela vive para sobreviver. Mas enquanto certas pessoas não admitirem que apreciam o poderio da Rede Globo, a qualquer momento seu inconsciente coletivo denunciará que no fundo eles não passam de tietes das Organizações Globo.

As pessoas são induzidas a acreditar que os valores veiculados pela grande mídia a partir das Organizações Globo são os valores próprios dessas pessoas. Os valores da mediocrização cultural, na medida em que recebem o rótulo "popular", são atribuídos a uma espontaneidade que, na verdade, não existe, e que está em pleno acordo com os interesses manipulatórios dos barões da mídia.

Um exemplo, para encerrar. Se um rapaz que "odeia" a Rede Globo pronunciar, num bate papo, a palavra "galera" várias vezes, é sinal que ele anda vendo o Domingão do Faustão. Não há como escapar, ele é tiete da Globo.

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