terça-feira, 4 de setembro de 2012

A DITADURA MIDIÁTICA E O QUE ELA FAZ COM A CULTURA POPULAR


Por Alexandre Figueiredo

A ditadura midiática se define apenas pelo noticiário político mais reacionário? Não. E se define, no ramo do entretenimento, apenas às custas de humorismos antisociais ou algum sensacionalismo explícito? Também não.

Sabe-se que a ditadura midiática envolve tudo o que for do interesse da grande mídia em controlar as massas, e isso se torna crucial quando a mídia faz uso do termo "popular" de forma leviana, mas bastante sutil que poucos podem perceber com exatidão.

Aí vem aquela postura, ingênua para uns, cínica para outros, que é de adotar o "popular" midiático como sendo o "verdadeiro popular". E isso mostra muitos equívocos, até mesmo da parte daqueles que defendem essa abordagem.

Um desses equívocos está no fato de que a opinião pública mediana, mesmo a de esquerda, integra classes econômicas mais abastadas. Seu conhecimento das classes populares é superficial. No caso das esquerdas, restrita aos contatos sindicais e à leitura um tanto superficial de alguns blogueiros progressistas mais conhecidos.

No entanto, a visão de cultura popular dessas pessoas é ainda muito superficial, a ponto de haver uma confusão entre a "cultura de massa" e o folclore. Tentam tomar aquele como se fosse este, e aí erros mil são cometidos. E vários deles entram em choque violento com as abordagens sindicais ou dos movimentos sociais, tudo por conta da apreciação de posturas intelectuais tidas como "exemplos" a serem seguidos.

Desse modo, a contradição mais típica foi no caso de Bia Abramo, quando, a pretexto de defender os "movimentos sociais", foi defender o "funk carioca", mas, quando a coisa se chegou às "musas funqueiras" - que ainda não tinham nomes de "mulheres-frutas" ou coisa parecida - , ela acabou disparando farpas contra um grupo de trabalhadoras, as enfermeiras, que protestavam contra a exploração leviana de sua imagem.

Isso é apenas o caso mais explícito. Em outros, a intelectualidade etnocêntrica, atual zeladora dos interesses dos barões da grande mídia, faz com que a esquerda média criasse posturas contraditórias de forma sutil mas também não muito implícita.

A visão, por exemplo, de que é melhor ver um pobre rebolando feito um idiota do que fazendo passeatas pela reforma agrária é a que, pasmem, norteia essa esquerda média, que quando a coisa pega passa a falar de Oriente Médio não por um interesse real por essa região, mas para escapar de questionamentos delicados sobre as contradições da "cultura de massa" brasileira.

Aí, quando a "problemática" deixa de ser "sem problemas" para ser uma problemática de fato, a esquerda média se inquieta. Chama os outros de "preconceituosos" e "elitistas", numa "urubologia" que poucos admitem que seja bem mais preconceituosa e elitista do que se atribui aos outros. E aí os preconceitos mais rabugentos das classes abastadas surgem da esquerda mediana com a pior força possível.

E, sem perceberem ou então admitirem, eles corroboram visões dos barões da grande mídia. Com gosto, reiteram valores claramente defendidos pela Folha de São Paulo, O Globo, Rede Globo e Caras. Iludidos pela mágica aparente da palavra "popular", acabam defendendo não as classes populares que se tornam meras consumidoras da tal "cultura de massa" brega-popularesca, mas o mercado que as controla.

E é isso que, nos últimos meses, com os questionamentos crescentes difundidos na Internet, anda causando um certo embaraço na intelectualidade mais influente. Sem poderem desmentir, com veemência, sua missão de defender os interesses da ditadura midiática, eles caem em muitas contradições quando tentam explicar a defesa do que eles dizem ser a "cultura das periferias".

A cada dia o discurso confuso difundido pela intelectualidade associada é desmascarado, sem que eles possam desmentir ou rebater com segurança. Afinal, nem eles conseguem explicar direito o que escrevem. Caem em mais contradições, mas isso não é difícil, porque seu discurso, embora usando dos mais sofisticados recursos retóricos, carece de qualquer objetividade.

É um discurso que apela pela emoção, mesmo quando veiculado em monografias ou documentários. É, portanto, um discurso publicitário, ainda que travestido de outras linguagens comunicativas, mesmo as "científicas". E, embora seus ideólogos jurem que não têm qualquer ligação com a grande mídia, eles são a ela vinculados, porque a prática afirma mais do que qualquer declaração que a desminta.

Dessa forma, a "cultura" brega-popularesca torna-se uma extensão da ditadura midiática. Seja pela cafonice musical, pela vulgaridade feminina, pela grosseria noticiosa, pelo sensacionalismo rasteiro. Tudo isso é o "popular" que a mídia impõe à sociedade, e que não pode ser confundido com o verdadeiro popular.

Pouco importa se o povo parece "feliz", quando no fundo é controlado por esse processo. Porque, por trás dessa "felicidade" e pela "liberdade do mau gosto", existem interesses dominantes por trás, que envolvem a desmobilização popular necessária para a manutenção das estruturas de poder vigentes, seja na política, na economia e na mídia.

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