sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A APROPRIAÇÃO DE ÍCONES ESQUERDISTAS PELO POP


Por Alexandre Figueiredo

A música pop, em sua história, é marcada pela apropriação de ícones esquerdistas como forma de exposição, quando o comercialismo pop precisa se alimentar através de posturas "polêmicas" para vender mais e repercutir mais ainda.

Desde a famosa apropriação comercial da imagem de Che Guevara - a famosa foto em que o militante político aparece sério, parecendo olhar para um horizonte - , as esquerdas passaram a viver dessa "$olidariedade" pop, na verdade alimentando a promoção publicitária de outros.

Até mesmo os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, que introduziram no Brasil a "cultura de massa" como conhecemos hoje através dos paradões da Billboard, MTV e outros nos EUA e Reino Unido, se apropriaram da imagem do comunista Carlos Marighela, sem que os dois sejam, de fato, esquerdistas, pelo menos dentro da visão analística que a esquerda mais crítica faz da realidade.

Emicida, convenhamos, é um ídolo pop, dentro do contexto da formatação do hit-parade promovida pelo Coletivo Fora do Eixo, que pretende redesenhar, com ênfase nos padrões neoliberais brasileiros, o mercado cultural do país.

Sabando trabalhar sua imagem de marketing, Emicida é um "engajado" de maneira mais "avançada" que Chorão, do Charlie Brown Jr, já que Chorão, apesar da dita "rebeldia" que tentava expressar, era muito preso aos clichês dominantes da mídia. Em outras palavras, bem menos sutil, já que era muito vago no seu discurso de "conscientização social" - ele se limitava a dizer coisas imprecisas como "Fique esperto, galera (sic)" - e aceitava divulgar seu discurso em espaços menos verossímeis como o Planeta Xuxa.

Emicida, sem ser realmente revolucionário, tenta um discurso bem mais sutil. É como se um nome do hip hop norte-americano tivesse o poder de autopromoção de Lady Gaga, o nome que mais representa hoje a apropriação dos mais diversos elementos da realidade como forma de autopromoção comercial.

O rapper brasileiro, que levou vários prêmios do Vídeo Music Brasil 2012, ostentou uma bandeira do Movimento dos Sem Terra e fez um discurso para os moradores de uma favela incendiada em São Paulo. Meses atrás, ele foi preso depois de fazer provocações à polícia com um palavrão.

São apropriações que, em si, não causam efeito prático algum. Ela apenas força a associação simbólica, e nem sempre genuína, de uma celebridade a determinados símbolos considerados vanguardistas. É certo que um intérprete musical não tem a mesma responsabilidade política de um ativista político ou de um líder partidário, mas não significa que o elemento esquerdista tenha que se submeter à imagem do famoso que a usa, sem qualquer efeito real de transformação.

Além disso, Emicida já apareceu livremente em Caras - revista de celebridades do Grupo Abril - e chamou Gaby Amarantos e Neymar para um clipe seu. Mas apropriações assim também se nota em pessoas como Luciano Huck, filiado ao PSDB, que numa entrevista à revista Alfa (também do Grupo Abril), se autoproclamou "admirador" de Fidel Castro e Lula.

A bandeira do MST foi apenas uma apropriação. E não se pode comparar com Cazuza segurando a bandeira brasileira, porque este, mesmo dentro do showbis, tinha uma atitude muito mais sincera e uma força artística que compensavam a fama.

O Brasil não vai ter reforma agrária só porque o Emicida segurou a bandeira do MST no VMB 2012. E seus fãs não se tornarão mais conscientizados por isso. Tudo ficará na mesma.

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