sábado, 25 de agosto de 2012

OS "PURISTAS" E OS "SUJOS" DE UM MESMO DISCURSO


Por Alexandre Figueiredo

Não tem como escapar. Brega-popularesco, a dita "cultura popular" de mercado, é respaldado pela mesma mídia conservadora e reacionária que tenta controlar a opinião pública em nosso país.

A intelectualidade associada tenta se desvencilhar da grande mídia e do tucanato, mas os frutos não caem longe das árvores, e há muito de Fernando Henrique Cardoso em ideias propagadas por Paulo César Araújo, Ronaldo Lemos, Pedro Alexandre Sanches, entre outros.

Recentemente, vimos situações aparentemente diferentes, mas frutos de uma mesma postura. O candidato à Prefeitura de São Paulo e presidenciável derrotado em 2010, José Serra, costuma chamar os blogueiros que fazem críticas a ele de "sujos".

Numa aparente contrapartida, Pedro Alexandre Sanches, propagandista da mediocridade cultural do brega-popularesco, tenta chamar os críticos a essa pretensa "cultura popular" de "puristas". Embora as palavras "sujos" e "puristas" tenham um sentido oposto, uns associados à ideia de sujeira e outros à ideia de limpeza, as classificações seguem o mesmíssimo sentido pejorativo.

Afinal, há o "purismo" político das esquerdas verdadeiras - não o fisiologismo partidário esquerdista, este que é até duramente criticado por ativistas de esquerda - , que constrange Serra. E há os "analistas sujos", que preferem "melar" os sucessos "populares" da mídia, "analistas" estes que constrangem Sanches.

É a mesma coisa. As acusações vão contra quem se opõe ao livre-mercado, que tem José Serra como um de seus representantes políticos mais destacados - embora não necessariamente o mais prestigiado - e tem como trilha sonora as breguices defendidas por Pedro Alexandre Sanches, que, sabemos, teve sua formação ideológica calcada no Projeto Folha de Otávio Frias Filho e nos conceitos tucanos de "cultura popular" ensinados por alguns professores da Universidade de São Paulo.

Os "sujos" seriam aqueles que furam o bloqueio reacionário da velha grande imprensa no processo de formação de opinião, assim como os "puristas" seriam aqueles que furam o bloqueio da velha intelectualidade pop que endeusa a "cultura de massa" deslumbrada com o rótulo "popular" que disfarça seus elitismos pessoais.

Os "sujos" falam em movimentos sociais, em reivindicações das classes populares, em pontos de vista que desagradam os "gurus" do livre-mercado. Os "puristas" querem a melhoria da sociedade através da cultura, querem cidadania, melhorias nos valores sociais, querem ética e honestidade, contrariando toda a "festa" da "cultura de massa" que os "gurus" do livre-mercado brega-popularesco tanto defendem.

FALANDO SÉRIO

Mas, comparações à parte, as acusações de "purismo" contra aqueles que criticam o brega-popularesco nem de longe podem ser consideradas consistentes. O que se defende, na música brasileira, não é o congelamento da trajetória da MPB à chamada "música de raiz", mas a continuidade do seu caminho, sem as deturpações e distorções trazidas pela "cultura de massa".

Não queremos abolir guitarras elétricas, órgãos Hammond ou aprisionar o samba nos pandeiros e cavaquinhos. Queremos, sim, a música brasileira de verdade, com as assimilações de influências de fora a que se tem direito, e não a que se tem pela obrigação midiática.

Hoje a chamada "cultura popular" não é decidida pelo povo. Ela é decidida por uma elite - sim, uma elite - de programadores radiofônicos e televisivos e de oligarquias empresariais regionais, nacionais ou multinacionais. Essa é a verdade que a intelectualidade mais badalada faz vista grossa.

Eu mesmo baseei meu gosto musical, na adolescência, através de rock alternativo, sobretudo Smiths, banda britânica extinta há 25 anos. A MPB estava entediante, com aquelas músicas românticas monótonas, que nada diziam para um rapaz feito eu, que via as moças mais atraentes das escolas se comprometerem com homens de maior status.

Isso era nos anos 80. E quem hoje pensasse que a música brega é uma "corajosa ruptura" a essa MPB "melosa" de então, está redondamente enganado. Quem ouvisse os discos menos inspirados de Guilherme Arantes e Zizi Possi e constrangesse pela monotonia musical e temática desses discos praticamente feitos às pressas, deveria no entanto prestar atenção no que nomes como José Augusto e Adriana gravavam, submetidos às mesmas regras.

E, se Lincoln Olivetti e Robson Jorge pasteurizaram a MPB, Michael Sullivan e Paulo Massadas pegaram as regras resultantes dessa pasteurização e deram um trato cosmético no brega. E chamaram alguns cantores de MPB - Fagner, Tim Maia, Alcione, Roupa Nova e uma contrariada Gal Costa - para seguir seu esquema, unindo a "MPB burguesa" ao brega feito com gosto por Wando, José Augusto e Fábio Jr., entre outros.

Feito o "crime perfeito", Olivetti e Jorge, Sullivan e Massadas, juntos, se reuniram para comporem a música "Amor Perfeito", chamando para cantar um Roberto Carlos submetido aos ditames da indústria fonográfica e sobretudo à Rede Globo, num processo de domesticação pior - embora sem danos à saúde - do que o que o "coronel" Tom Parker fez com Elvis Presley.

Portanto, pouco me importa se a música brasileira sofre a interferência de ritmos estrangeiros. Se forem assimilados espontaneamente, e não pelos ditames da mídia e do mercado - como é no caso do brega-popularesco - , eles até enriquecem, atualizam e modernizam a cultura brasileira, dialogando nossas expressões locais com o que acontece no mundo em volta.

Mas o que se vê aí não é a "cultura genialmente impura" que tão "pós-modernamente" se fala por aí, mas a gororoba que mistura alhos com bugalhos e reclama o reconhecimento do joio como parte indissociável do trigo da nossa cultura.

Desse modo, somos tão "puristas" quando reclamamos da degradação cultural de nosso país e somos tão "sujos" quando reclamamos da degradação da mídia e da política nacionais. Dá no mesmo.

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