sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O REACIONARISMO NA INTERNET E A LETARGIA DOS ANOS 90


Por Alexandre Figueiredo

Desde que comecei a usar com uma certa regularidade a Internet, em 1997, enfrentei o reacionarismo de muitos internautas, vários deles aparentemente "modernos", mas com uma fúria reacionária digna de qualquer golpista doente de março de 1964.

São geralmente pessoas que nasceram no fim ou mesmo após a extinção do AI-5, ou mesmo depois do fim da ditadura militar. Seus pais, ora uns esquerdistas frustrados convertidos à direita, ora direitistas convictos e um tanto saudosos dos tempos em que o Palácio do Planalto era mais um quartel do Exército, que falavam de seus tempos em que não havia liberdade mas eles ganhavam mais salário.

O espírito de "disciplina" e "hierarquia" - dentro da perspectiva pregada pela ditadura - contagiou os meninos que, curiosos, ouviam de seus pais a recomendação de que deveriam aceitar as coisas vindas "de cima" - seja do poder político, seja do poder midiático - , sem fazer qualquer questionamento. Pode ser a decisão mais absurda ou injusta, ela tem que ser aceita até com deslumbamento, contestar é pouco recomendável.

Nos anos 90, a Internet brasileira era incipiente. Só em 1999, a Internet no Brasil tinha a adesão pública equivalente ao da televisão brasileira quatro décadas antes. Durante toda a década de 90, os absurdos cometidos pelo poder político - predominantemente comandado por civis que haviam apoiado ou herdado as políticas de 1964-1985 - e pelo poder midiático (sobretudo pela influência das concessões dos meios de comunicação por Sarney e ACM) criaram uma demanda jovem de mentalidade caquética.

É essa demanda que passou a prolongar a hegemonia brega-popularesca que já mostrava seu esgotamento em 1999. Ou que aceita qualquer decisão imposta por autoridades a pretexto de "melhorias". E isso se vê em diversas esferas da vida humana no Brasil, o reacionarismo de muitos internautas é fruto dessa formação ditatorial trazida por seus pais.

A última polêmica que se deu foi devido a um busólogo que, submisso a um projeto de transporte coletivo imposto pelo grupo do prefeito carioca Eduardo Paes - que é também o do governador fluminense Sérgio Cabral Filho, que se banha em "certas cachoeiras" - , não gostou de fotos montagens que eu fiz e despejou ameaças.

Eu não fiz ilegalidade alguma. Eu coloquei o crédito de autoria dele, o crédito de minha adaptação, e nos textos não fiz qualquer alusão ofensiva à pessoa dele. Mesmo assim ele mandou mensagens furiosas, pedindo para eu retirar as fotos dele, sob as mesmas alegações que se vê nos militantes de campanhas anti-democráticas à Internet, como SOPA, PIPA e ACTA.

Ou seja, não é só do Eduardo Paes que esse busólogo defende, ele acaba sendo adepto, mesmo sem saber, de outro Eduardo, o mineiro Eduardo Azeredo. Mas se outro busólogo, aquele encrenqueiro dos "comentários críticos", já definiu, na sua ignorância jurídica, como "crime hediondo" a livre (mas responsável) reprodução de fotos na Internet, dá para perceber o pedantismo jurídico que atinge o reacionarismo de alguns.

No radialismo rock, já enfrentei também surtos de reacionarismo internauta. Pessoas com trajes mistos, meio hippie, meio skatista, meio rapper, meio surfista, falando muitas gírias e palavrões, usando tatuagens e piercings e ouvindo guitarras barulhentas - desde que venham de grupos poser ou, quando muito, de bandas grunge - , despejando um reacionarismo que deixaria os udenistas de outrora de queixo caído.

Era o tempo em que rádios comerciais como a Rádio Cidade (RJ) e 89 FM (SP), então ligadas a um contexto midiático conservador, se impunham como verdadeiras paródias, caricaturas grotescas, de rádios de rock. Mas era o que todo mundo deveria entender o que "deve ser uma rádio rock". As rádios faziam tudo errado, mas tinha que ser assim e, como eu fazia críticas sérias, eles reagiram da maneira mais furiosa.

A exemplo dos busólogos pró-Paes, a suposta "nação roqueira" da 89/Cidade - vale lembrar que a 89 FM foi politicamente favorecida no governo Collor e a Cidade no governo FHC - despejou ameaças, xingações, tentou um blogue ofensivo e, se não empastelaram abaixo-assinados digitais (as tais petições on line), bagunçaram minha primeira conta no Orkut que me fez extingui-la e, dias depois, tentar uma outra.

Mas mesmo nas críticas ao brega-popularesco eu recebi críticas e ameaças. Um tal de Olavo Bruno, um troleiro fanático pelo breganejo, havia me esculhambado num portal brasileiro de música pop. Só para sentir o caráter "humano" desse sujeito, ele também disse que desejaria que João Gilberto morresse de fome, talvez nas mesmas condições que, mais tarde, se viu no caso do ex-baixista da Legião Urbana, Renato Rocha.

Olavo despejava arrogância, sobretudo para defender nomes como Victor & Léo e Zezé di Camargo & Luciano - que, por incrível que pareça, possuem fãs tão violentos quanto qualquer skinhead neonazista - , até que, num portal de "sertanejo" - o Country Brasil - , teve uma polêmica violenta nos debates sobre rodeios (provavelmente ele, que defende rodeios, disparou xingações a esmo), suas mensagens foram apagadas e ele sumiu. Note-se que portais desse tipo, embora defensores entusiasmados dos rodeios, aceitam alguma polêmica equilibrada.

De Solange Gomes a Diogo Mainardi, troleiros já me escreveram me esculhambando de uma forma ou de outra. Até um defensor de Sullivan & Massadas mandou uma mensagem indignada. E mesmo as "mulheres-frutas" são vistas como "vacas sagradas" por alguns internautas que não passam de punheteiros envergonhados, "pegadores" frustrados nas noitadas de seus bairros.

Esse reacionarismo é fruto de uma letargia, porque nos anos 90 a mediocridade político e sócio-midiática vivia numa grande letargia. Parecia que éramos um país de idiotas felizes, de medíocres satisfeitos, de gente cuja referência era o popularesco mais grosseiro ou piegas, o fisiologismo político mais "pragmático", e achava que o país iria progredir e virar potência mundial, ou mesmo o Eldorado da humanidade planetária, assim dessa forma.

Nos anos 90 eram os tempos da vulgaridade televisiva mais abjeta. Antes da televisão completar 50 anos, em 2000, ela sucumbiu a uma vulgaridade abjeta, com toda a pornografia e a violência invadindo os lares em plena tarde, com crianças a sala e tudo, e nessa época Veja deu início a um reacionarismo que hoje chega ao seu auge.

Na política, havia as decisões arbitrárias, que "beneficiariam" as classes populares desde que elas aceitassem "certos sacrifícios". O que era uma forma de dizer que o povo seria prejudicado, mas teria que aceitar a medida de qualquer jeito. A alegação é que seríamos "beneficiados" em breve, pouco importa o que esse "breve" significa.

Atualmente, o senso crítico aumenta e isso anda irritando muitos internautas que acreditavam na maresia ideológica dos anos 90, naquela "perfeição da mediocridade" que dava a impressão falsa de que "nós éramos mais humanos". Não éramos. E essa "galera animal" é que justamente dispara seus reacionarismos, como troleiros ou como os "urubólogos" de amanhã.

Hoje eles, "coitadinhos", são apenas troleiros que, na visão equivocada de alguns esquerdistas médios, são apenas inocentes iconoclastas, mas que no futuro serão "urubólogos" a condenar o progresso social de qualquer forma. E que agirão amanhã como hoje agem Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede e José Serra.

Afinal, se eles hoje reagem furiosos às transformações ocorridas no país e na opinião pública, porque a Internet furou o cerco que a mídia e a política mantinham nos anos 90, o que faz com que essa gente, mesmo na sua juventude aparentemente preparada para mudanças, reaja da forma mais retrógrada possível à decadência do "estabelecido" de 20 ou 15 anos atrás.

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