terça-feira, 7 de agosto de 2012

O QUE FEZ A ESQUERDA DE 1960 MIGRAR PARA A DIREITA?


Por Alexandre Figueiredo

Embora acostumados com as guinadas ideológicas que antigos esquerdistas tiveram nos últimos 45 anos. Mas ainda ficamos a perguntar o que realmente fez com que muitos personagens da esquerda brasileira dos anos 60 hoje são figuras eminentes da direita.


Quem não conhece a História do Brasil um pouco mais antiga - há um costume enjoado da memória curta creditar como "muito antigo" o ainda ontem do nosso cotidiano, o "anteontem" já é "o tempo da vovó" e o "fundo do baú" - , há 50 anos atrás a esquerda continha intelectuais que os mais jovens sentiriam alguma estranheza ao saberem.

José Serra era o líder estudantil ligado à Ação Popular e era socialista católico com uma visão esquerdista quase radical. Ferreira Gullar foi um poeta do movimento concretista, o mais popular deles, que havia se envolvido com a turma dos Centros Populares de Cultura da UNE, gente influenciada, ainda que levemente, por Antonio Gramsci e outros pensadores sócio-culturais de esquerda.

Nos CPCs da UNE, comandados pelos já falecidos Carlos Estevam Martins e Oduvaldo Vianna Filho (o Vianinha), também estava um jornalista de cinema chamado Arnaldo Jabor, depois conhecido cineasta. E na Última Hora tínhamos o já falecido Paulo Francis, que também era um esquerdista convicto, cerca de três décadas antes de integrar o Manhattan Connection (ex-GNT, hoje na Globo News), no final da vida.

Nenhum deles sequer foi para o "complexo" IPES-IBAD, "institutos" que ajudaram a promover o pensamento golpista brasileiro, equivalentes do Instituto Millenium nos anos 60, onde estava até um empresário paulista chamado Paulo Maluf (ele mesmo) e os pais do adolescente Fernando Collor de Mello.

Nem Fernando Henrique Cardoso (um simples professor universitário da USP em 1960-1964, que se dizia esquerdista moderado e tinha simpatia com a turma do ISEB de Nelson Werneck Sodré e Roland Corbisier) se envolveu com o IPES, cujo perfil ideológico se encaixou perfeitamente, mais tarde, na sua Teoria da Dependência no programa de seus dois governos presidenciais (1995-2002).

Se retrocedermos menos no tempo, veríamos que as esquerdas também contavam com Fernando Gabeira, jornalista que participou do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, num grupo que tinha também o jornalista Franklin Martins (que continua sendo de esquerda), o comunista César Maia e o humorista Marcelo Madureira, então um estudante de Engenharia envolvido com pequenos jornais estudantis.

Nos anos 70, até Heródoto Barbeiro e Mário Kertèsz estavam confortavelmente na direita, diga-se de passagem. Bóris Casoy, obviamente, era direitista de carteirinha. E Jaime Lerner estava o tempo todo na ARENA, ao lado dos outros dois. Fernando Collor também estava na direita, com muito gosto.

Se as antigas esquerdas passaram a chutar o pau da barraca e sentem alergia hoje a tudo que cheira a socialismo, só mesmo muito ingênuo para acreditar que Barbeiro, Kertèsz, Lerner e o supracitado Collor (ou, para uns, Casoy) passaram pelo caminho inverso e viraram "esquerda". Nada disso: eles são tão direitistas quanto antes, só que mais envergonhados. Como também é o ex-ipesiano Maluf.

"DESILUSÃO" OU ASCENSÃO SÓCIO-ECONÔMICA

Mas o que deu para eles se tornarem direitistas, é algo que podemos inferir como "desilusão". Não há uma causa ou um motivo certeiro para tais guinadas, mas talvez a ascensão sócio-econômica, de um lado, e os focos de corrupção nas esquerdas que as tornaram ineficazes e viciadas, pode ter motivado os esquerdistas de outrora a virarem direitistas até com certa intransigência.

Até pouco tempo atrás, dava para ler os artigos de Arnaldo Jabor, suas críticas sensatas à mediocridade cultural, suas memórias de quando era líder estudantil, seus conhecimentos diversos sobre cinema, excelentes. Ainda dá para ler Paulo Francis, que por trás daquele jeito de falar problemático, que fazia a festa dos humoristas de plantão, é uma figura bastante informada que, mesmo falecido há 15 anos, ainda vale ser lida nos seus livros e artigos.

Ainda dava para apreciar Ferreira Gullar - que fez uma letra de "Borbulhas de Amor" com mais poesia do que o original do dominicano Juan Luiz Guerra - , Fernando Gabeira com seus relatos sensatos (descontando algumas coisas como o tema das drogas, que sou contra) e mesmo a morte de Bussunda ainda não havia eliminado em todo a capacidade dos cassetas de criar piadas interessantes.

Mas depois, todos eles passaram a ser direitistas rabugentos. Não sei como se tornaria Paulo Francis se ainda estivesse vivo, talvez virasse também um. Mas o "clube dos esquerdistas frustrados" havia atraído a adesão até da ex-VJ da MTV, Sônia Francine, a Soninha, que como petista parecia adotar um discurso "ativista" parecido com o que se vê hoje com Marcelo Freixo (PSOL-RJ), por exemplo.

QUEM SERÁ A DIREITA DE AMANHÃ?

Isso nos faz pensar. Na medida em que um país muda, certas pessoas que se envolvem em alguma causa podem mudar de posição. Ou, talvez, tirar suas máscaras e mostrar que sempre foram os reacionários revelkados em última hora (como a figura histórica do Cabo Anselmo).

Temos hoje, nas esquerdas, a "militância" de estranhos no ninho como MC Leonardo, Eugênio Arantes Raggi e Pedro Alexandre Sanches. Paulo César Araújo nunca sequer se disse esquerdista, sempre teve aquele jeitão de "colunista da Veja que não trabalha na Veja", um "narlocão" antes do Leandro Narloch. Mas mesmo assim foi adotado pelas "esquerdas médias" como se prometesse a revolução socialista através da "revalorização" da "cultura brega" como uma suposta cultura de protesto.

Eles adotam posições estranhas, como as esquerdas nesse estágio. E não se trata das aventuras fisiológicas do PT, que transforma o Partido dos Trabalhadores num satélite de vícios do "pragmático" PMDB, com uma envergonhada defesa de retrocessos sociais a pretexto de uma "cidadania de resultados". É algo pior que isso.

Se vemos Pedro Alexandre Sanches confundindo a comunidade de Pinheirinho (São José dos Campos) com Pinheiros (bairro de São Paulo) ou assinando embaixo quando um entrevistado elogia o governo do general Médici, com todos os tempos vivendo no Estado do jornalista, paranaense de Maringá, é de estarrecer.

MC Leonardo nem precisa comentar. O "funk carioca" nunca foi esquerdista de verdade, nem na mais engenhosa retórica "social". O presidente da APAFUNK fala mal das esquerdas pelas costas, seu "padrinho" midiático é sócio do Instituto Millenium e o ritmo carioca sempre viveu de mãos dadas com a velha grande mídia, sobretudo as Organizações Globo, na qual MC Leonardo trabalha como colunista do jornal popularesco Expresso (o nosso News Of The World).

E o que dizer dos baianos Milton Moura e Roberto Albergaria, que sempre se apoiaram na mídia de Antônio Carlos Magalhães para promover sua visibilidade, como professores universitários metidos a "etnólogos popstars"? Será que alguém iria, a sério mesmo, considerar esses dois defensores da mais abertamente grotesca imbecilização cultural como "intelectuais de esquerda"?

Mas vemos também o PSOL fazendo coro com PSDB e PPS em muitas situações, o que faz o partido trotskista se posicionar meio como o PV de hoje, meio como um PPS dos primórdios. Vemos o Coletivo Fora do Eixo sendo financiado até por Geraldo Alckmin, apoiando Yoani Sanchez, apoiando um cineasta do Instituto Millenium, fazendo parcerias com Globo, Caras e até Folha de São Paulo (apesar da atitude combativa dos irmãos Bocchini).

Todos eles acreditam hoje em utopias "subdesenvolvidas" até mais ridículas que as dos antigos cepecistas. Se os cepecistas acreditavam na volta da "música popular de raiz" em tinturas trotskistas e guevarianas, a intelligentzia de hoje acha que a revolução social do país se dará com o império do "mau gosto" brega-popularesco, fantasia ainda menos verossímil que a de 50 anos atrás.

Porém, na medida em que essas utopias se tornam inviáveis, os "progressistas de ocasião" poderão, desiludidos, se tornarem reacionários. Os antigos cepecistas, pelo menos, estimulavam o debate público, que, interrompido pelo golpe de 1964, não permitiu ao povo pobre mostrar a sua versão, enquanto o latifúndio que apoiou a ditadura não perdeu tempo e despejou muita "cultura brega" na população, acostumando mal gerações e gerações, dando no quadro estarrecedor dos dias de hoje.

Mas a intelectualidade pró-brega encontra diante de si não o povo consciente do folclore encarado pelos CPCs, mas o povo transformado num "gado" para o latifúndio eletrônico do entretenimento brega, que sucumbiu a um estado de alienação sócio-cultural que os intelectuais acham "positivo" e "natural", na medida em que ironizam as críticas.

Aliás, as "urubologias" que eventualmente esse pessoal todo que defende o brega despeja de vez em quando já dá o sinal. Todos eles poderão ser, daqui a uns dez anos, a direita neurótica que hoje representam alguns dos esquerdistas desiludidos de 35, 50 anos atrás.

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