sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O "POPULAR" E O PATERNALISMO


Por Alexandre Figueiredo

O rótulo "popular" vira uma palavra mágica para disfarçar o preconceito realmente elitista dos diversos indivíduos das classes abastadas.

Evocar o "popular" não faz das pessoas mais progressistas ou generosas com as classes populares. E disfarça visões paternalistas sobre o que é realmente o povo, esse ente muito difícil de ser definido, muito complexo de ser entendido sem determinados filtros ideológicos.

A intelectualidade dominante, dotada de cientistas sociais e críticos musicais e respaldada por músicos, atores e celebridades, tenta não parecer paternalista na sua "sincera" adesão ao que seus membros entendem por "cultura popular", embora deixem subentendido que eles prefiram mais a "cultura de massa" do que o "insuportável, velho e datado" folclore brasileiro.

Se mesmo nas entidades sindicais, nos partidos comunistas e em certos ativismos sociais e organizações não-governamentais, a imprecisa e por vezes superficial noção de "povo" não está imune a equívocos sérios que permitem a adoção de decisões antipopulares, sem qualquer consulta pública, resultantes sobretudo do julgamento míope de seus dirigentes.


O que dizer então do endeusamento da "cultura de massa" brega-popularesca, o "porto seguro" para as classes abastadas, sobretudo muitos famosos "bacanas", ensaiarem uma suposta solidariedade para as classes populares, que, na verdade, são apenas mera massa semi-passiva de consumidores e produtores (orientados pelo empresariado) do entretenimento que usufruem sem críticas?

COMPREENSÃO RESTRITA À MÍDIA

Eles não têm a compreensão orgânica do que são e o que vivem realmente as classes populares. A compreensão que eles têm é superficial, estritamente e restritamente midiática. Uma compreensão das classes populares que só é "generosa" quando ela é vista de forma distanciada pela televisão, pelas revistas, jornais e sítios na Internet.

Mas, quando é vista de perto, pelos passeios em subúrbios, roças e favelas, essa "generosidade" se converte em medo. Não raros essas pessoas "sinceramente solidárias" fecham os vidros de seus carros quando veem miseráveis pedindo esmolas. E o deslumbramento com que escrevem sobre as favelas contradiz, e muito, quando eles, constrangidos, são obrigados a percorrer tais comunidades forçadamente formadas pela exclusão imobiliária.

A "cultura popular" só lhes é boa quando produzida no cativeiro da televisão e do rádio. Para eles, isso é a "verdadeira cultura popular". É como se dissesse que frutas, legumes e verduras são melhor quando enlatados e dotados de aromatizantes, estabilizantes e outras substâncias químicas.

Por isso, o "povo pobre", para essas elites "tão generosas", só tem valor quando transformado em estereótipo caricato pela mídia. Um estereótipo "feliz", "alegre", que garante, assim, a contemplação alegre das elites, sem o risco destas se assustarem com a verdadeira imagem dos movimentos populares.

PRECONCEITOS LATENTES

No entanto, a visão "generosa" não está imune a preconceitos elitistas. E um elitismo ainda maior do que aquele que os partidários dessa visão cordial dizem abominar. E que mostram injustiças latentes por trás dessa defesa "entusiasmada" ao "popular de proveta" do brega-popularesco.

Há o exemplo de idosos alcoolatras, que a intelectualidade etnocêntrica define como "entretenimento feliz", ao som da "melhor música" brega. Mas há também o caso de velhos mendigos que dançam nas ruas falando besteira, tomados da mais mórbida embriaguez, um drama social, que esconde problemas familiares, mas que o intelectual de plantão glamouriza como se fosse a "verdadeira intuição pop que chega aos mais ínfimos rincões da pobreza nas periferias".

Tudo é "felicidade nas periferias" para esses intelectuais: o subemprego dos camelôs que tentam misturar produtos contrabandeados com qualquer produto de segunda mão trazido por terceiros. E, no caso da venda de CDs piratas, há também os discos "independentes" (sic) de novos ídolos bregas, o que faza a intelectualidade paternalista cair em delírio.

Há também a prostituição. Mulheres miseráveis vendendo o corpo porque carecem de uma educação escolar de qualidade, de uma formação profissional mais decente. Elas adorariam deixar seus ofícios para serem professoras, costureiras, cozinheiras, quem sabe advogadas ou apresentadoras de TV. Mas a intelectualidade pró-brega bate o pé e diz que elas tem que permanecer prostitutas.

Criam-se até "sindicatos" de prostitutas e rádios "comunitárias" para empurrar-lhes as breguices com que são associadas. E, como em toda campanha de defesa da "cultura" brega, o povo pobre primeiro precisa expor todo o seu ridículo para depois receber a assistência e o apoio das classes mais abastadas, que, "não paternalistamente", exercem seu paternalismo.

O povo pobre só é agradável para esses intelectuais e seus séquitos quando obedece feliz aos ditames do entretenimento popularesco. O povo pobre só precisa fazer o papel de ridículo, docilmente, para assim receber a aprovação das classes "mais esclarecidas". Ainda se vai falar muito disso, porque é um processo muito grave e complexo.

O povo pobre, desse modo, "não" precisa de qualidade de vida. Basta falar qualquer coisa no microfone, desde que não sejam coisas importantes. Diga um alô, fale bobagem, rebole feito um pateta, que o etnógrafo pop de plantão assina embaixo e vai escrever maravilhas no seu próprio artigo em uma publicação acadêmica. Um artigo mais publicitário que científico, mas tomado de uma retórica acadêmica sofisticada, com a narrativa que junta a História das Mentalidades de Marc Bloch com o Novo Jornalismo de Tom Wolfe.

Se o povo pobre se recusar em fazer o papel de bobo-da-corte para a intelectualidade mais influente, aí é que seus "pensadores" e "ativistas" vão reclamar da "selvageria" de populares que, aos olhos da intelectualidade que perde, então, sua "generosidade", demonstrando seu medo elitista da revolta popular, como os velhos escravistas do século XIX, que, a pretexto de condenarem a abolição, alardeavam que os escravos, libertos, iriam causar desordem e genocídio nas ruas brasileiras.

Daí que uma Bia Abramo feliz em exaltar a "cultura popular" dos breganejos e funqueiros, irritada com o "horror elitista" dos que rejeitam essa "cultura de massa", espalhou seu horror elitista ao condenar os protestos das enfermeiras contra a exploração depreciativa de suas imagens pela "Proibida do Funk". Bia, fugindo das lições de seu pai Perseu Abramo e contaminada pelo "aprendizado" do Projeto Folha, preferiu as "mulheres-frutas" do que as mulheres trabalhadoras.

Não adianta esses intelectuais condenarem o "paternalismo" dos outros, se são eles os maiores paternalistas no processo. Eles preferem o povo pobre infantilizado, submisso e estereotipado. Não adianta desmentir que são paternalistas, que querem idealizar a cultura popular conforme suas convicções e que defendem a infantilização das classes populares. Esses intelectuais que defendem o brega-popularesco defendem tudo isso, e de forma pior.

Enquanto o povo pobre segue as imposições paternais dessa "generosa" intelectualidade, tudo bem. Mas, se deixa de seguir, os intelectuais mostram todas as suas "urubologias". Urubus comem farofa-fá e tucanos comem paçoca.

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