quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O "MAU GOSTO" NÃO É UMA BANDEIRA DE LUTA


Por Alexandre Figueiredo

Os intelectuais dominantes, a pretexto de defenderem "convictamente" a mediocricação cultural do brega e seus derivados, justificam suas teses tratando a ideia de "mau gosto" como se fosse uma rebelião.

A alegação é conhecida. Zombando - sim, a intelectualidade está zombando! - dos conceitos de bom gosto e mau gosto, eles, dotados de sarcástica ironia, definem o "mau gosto" como uma "bandeira de luta", transformando a palavra "popular" num verbete que "justifica" qualquer porcaria imposta por rádios e TVs.

Dentro daquilo que o jornalista Ricardo Alexandre define como "ideias de direita num discurso de esquerda", os intelectuais, fazendo "contracultura" num copo d'água, tentam, com isso, promover o chamado "marketing da exclusão", ou "marketing da rejeição", transformando, como que numa inversão discursiva, transforma as vaias e críticas dos ídolos brega-popularescos num atestado de sua suposta genialidade.

Lotam plateias, vendem muitos discos, elevam audiência de rádios e TVs, vendem altas tiragens de revistas, chamam seguidores para blogues, elevam as visitas em  portais de celebridades e nos vídeos em que aparecem nos vários canais do YouTube. Como se quantidade fosse qualidade e mérito. Mas não é.

HIPOCRISIA

A mesma intelectualidade que endeusa ídolos bregas, achando que o "mau gosto" é uma revolução sócio-política popular, é aquela que esconde seus preconceitos realmente elitistas por conta de uma atitude meio populista e um tanto conservadora.

Essa visão é sustentada por várias omissões. Conservadores, eles tentam acusar a MPB de qualidade - sobretudo a da gravadora Biscoito Fino - de "conservadora". Para eles, o conservadoríssimo brega e seus derivados (uns falsamente "arrojados", como o "funk carioca" e a axé-music) é que é "revolucionário".

Se omitem o conservadorismo do brega, a ponto de apoiarem figuras direitistas como Waldick Soriano mesmo num contexto pretensamente esquerdista, outras omissões feitas são quanto à riqueza e o poder midiático dos empresários envolvidos com o entretenimento cafona.

Dessa feita, os empresários de intérpretes popularescos, como funqueiros e grupos de forró-brega, só para citar alguns exemplos, apesar de muito ricos são simbolicamente "tão pobres" quanto qualquer engraxate de rua. Esses empresários até ajudam na farsa, geralmente com escritórios mais "modestos" e um vestuário mais "desleixado".

Quanto às rádios que tocam tais ídolos, em várias partes do país, os intelectuais simplesmente ignoram seus proprietários, geralmente membros de poderosas oligarquias, muitos deles políticos e até latifundiários. Os donos dessas rádios "desaparecem" nesse discurso defensor da música brega e seus derivados.


ACEITAÇÃO CEGA

Se aproveitando que a opinião pública mais mediana é capaz de aceitar as coisas sem verificação, importando-se mais com "quem diz" do que com o que se diz, os intelectuais  usam e abusam das manobras que fazem com que o brega-popularesco, mera "cultura de consumo", seja visto como "ativismo social" às custas da rejeição que recebe.

Foi vaiado, virou "gênio". Levou pau da crítica, virou "mestre". É esse o discurso que os intelectuais fazem. O pretexto é o carimbo "popular" colocado por rádios e TVs e pela dita "imprensa popular" - que preferimos definir como "imprensa jagunça" - , que vira uma "palavra mágica" para justificar qualquer degradação cultural que seja contemplada por multidões.

E muito se abusou da palavra "preconceito", fazendo com que os ídolos de sucesso comercial nos públicos das classes C, D e E invertessem o discurso do sucesso triunfante e se passassem por "vítimas" em vez de "vitoriosos".

Ninguém jamais viu um corredor de Fórmula 1, por exemplo, dizer, no topo do pódio, que é um coitadinho humilhado por cronistas esportivos. Mas vemos nomes diversos, de Amado Batista a Leandro Lehart, de Waldick Soriano a Tati Quebra-Barraco, subestimando o sucesso conquistado, preocupados com uma única resenha que leram que não os tratava como "artistas sérios".

Quer dizer, eles não se contentam com o sucesso que tiveram, as plateias lotadas e coisa e tal. Nunca deram bola para o que se fazia na MPB "mais pura", nunca se interessaram sequer de longe por ela, fazendo apenas suas medíocres "canções" - se é que pode se defini-las assim - às custas de "restos culturais" de modismos radiofônicos ou televisivos de meses atrás.

Eles são avisados em última hora que o melhor é "ser MPB", aí se frustram. As plateias lotadas às custas do jabaculê radiofônico, da publicidade maciça, da campanha midiática, passam a não valer mais. Se um único crítico falou mal do último disco do Amado Batista, ele deixa as plateias de lado e passa a se preocupar mais com o crítico que supostamente "destruiu sua carreira". Substitua Amado Batista por Leandro Lehart, por Zezé di Camargo & Luciano, Belo, MC Leozinho, Grupo Molejo ou Psirico que dá no mesmo.

A preocupação recente é criar um "programa de qualidade total" aos ídolos brega-popularescos e apresentar tardiamente a MPB a eles. Só que isso mais parece um reality show do que qualquer preocupação de "educação cultural" que, supostamente, aperfeiçoasse os "ídolos populares". Mas nem de longe aperfeiçoa. Muito pelo contrário.

A profusão de covers, de duetos, de apresentações autorreverentes, cerimoniosas e cheias de pompa, que cercam os ídolos brega-popularescos, ocorre há um bom tempo e nem por isso os fez mais espontâneos ou criativos. Em vez disso, o que se viu foi apenas o "embelezamento" das mercadorias, apenas houve o remodelamento cosmético da música brega e seus derivados, para o consumo menos constrangido de parcelas mais abastadas da sociedade.

Portanto, de nada adiantou vender o "mau gosto" como "bandeira de luta". Ela nem sequer representou uma ruptura ao poderio midiático mais "urubólogo". E, além disso, tornou-se inútil tentar aperfeiçoar, em última hora, ídolos que já se tornaram marcados pela mediocridade artística. Não são eles que acabam dando alguma colaboração útil para a MPB. Mas a MPB é que, condescendente, acaba colaborando para a vaidade dos ídolos brega-popularescos.

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