domingo, 26 de agosto de 2012

O "FUNK CARIOCA" E SUA "URUBOLOGIA"


Por Alexandre Figueiredo

Nas redes sociais, defensores do "funk carioca" se sentiram incomodados com os textos que questionam o ritmo na Internet. Um deles, mais recente, "A apropriação do funk autêntico pelo bastardo", foi o alvo de críticas que supunham que eu estava desinformado sobre o ritmo.

Claro, o que vale, para tais pessoas, é a versão oficial, a da mídia, a das Organizações Globo. O que tiver a assinatura dos irmãos Marinho, da famiglia Frias e dos Civita é lei. Até no "funk carioca", que se julga "sem mídia" mas sempre esteve aliado aos barões da mídia. Até o reino mineral sabe dessas coisas.

O "funk carioca" adota essa postura, de não aceitar questionamentos, semelhante ao que vemos na revista Veja. Imagine se o Tropicalismo tivesse sido criado, não por Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas por Diogo Mainardi e José Luiz Datena. Daria exatamente no "funk carioca", com suas buzinas, seus "tamborzões" e os "tchuscudá-tchuscu-tchuscudá" dos MCs de apoio.

"Você está desinformado sobre o que acontece no gênero", dizem, "diplomaticamente", esses defensores. É justamente isso que Veja faz, por exemplo, quando reclama que parte da sociedade "não tem ideia" das "maravilhas" do livre-mercado, que, quando realiza demissões em massa, "sugere" para os desempregados se virarem em outra coisa, de preferência pagando não-sei-o-quê de cursos de especialização, com que dinheiro não se sabe etc.

É uma espécie de "urubologia" funqueira. Seus dirigentes e defensores fazem a choradeira na mídia dizendo que são "vítimas de preconceito". Fazem toda uma verborragia para dizer que o mero consumismo funqueiro é "ativismo social". Fazem toda essa campanha, mas no entanto não aceitam ser questionados. E, de tão questionados pela sociedade, já ficam nervosos e tentam fazer réplicas sem sentido.

Claro, enquanto eles posam de vítimas e inventam que estão fora da mídia, mesmo estando em tudo quanto é espaço nas Organizações Globo e na Folha de São Paulo, eles são os donos do mercado. Os empresários do "funk carioca", tão "pobrezinhos", praticamente são os donos das favelas e impõem o que o povo pobre tem que consumir, que é, claro, o "funk carioca", ou, quando muito, aquele insosso "pagode romântico" ou sambrega.

O discurso dos dirigentes funqueiros e seus militantes é bastante conhecido. Além da habitual choradeira, eles criam um "pancadocentrismo" - não chamo funkocentrismo porque aqui não inclui o funk autêntico de Tim Maia, James Brown etc - no qual o "funk carioca" é a medida de todas as coisas. O tal pancadão ou batidão são o centro do universo, segundo esses retóricos. E quem contestar isso "não sabe" das coisas.

Ou seja, os defensores do "funk carioca" só aceitam o samba, o baião e outros ritmos quando subordinados ao império funqueiro. Primeiro vem o "funk", o resto vem em segundo plano. Isso em si já mostra o quanto o "funk carioca" está no poder, de braços dados com os barões da mídia.

Lembra muito a Idade Média e as imposições dos sacerdotes de então. E as favelas são escravizadas pelo "funk carioca", não podem ter outra expressão. Muitas jovens querem ser professoras, cozinheiras, costureiras etc. Terão que ser MCs ou "mulheres-frutas". Lei do mercado. Lei da selva. E quem contestar isso "não sabe" das coisas.

Esse "pancadocentrismo" mostra o quanto o "funk carioca" cria reservas de mercado facilmente. A choradeira faz o ritmo penetrar em redutos de classes mais abastadas, e o ritmo já faz parte do "cardápio" das festas de aniversários organizadas por produtoras de eventos. A choradeira tenta sensibilizar a sociedade, a "urubologia" tenta intimidar os críticos. Mas não consegue.

Afinal, os dirigentes funqueiros acabam se comportando igual a Veja, a José Serra, ao PSDB, ao Merval Pereira. Eles não aceitam críticas. Tentam fazer proselitismo nas esquerdas (vide MC Leonardo escrevendo para Caros Amigos), mas falam mal das esquerdas pelas costas. Tentam ser totalitários, absolutistas, centralizadores, e ainda têm a coragem de desmentir isso. Mas seu discurso sempre vai no mesmo caminho: o de tentar convencer-nos que o "funk carioca" é a medida de todas as coisas.

Querem tolerância, mas não aceitam críticas. Vá-se entender...

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