quarta-feira, 1 de agosto de 2012

NEM TODO MUNDO VIRA PROGRESSISTA AO FALAR DO "POPULAR"


Por Alexandre Figueiredo

A opinião pública média, sabemos, está mais vulnerável a armadilhas que, há quatro décadas atrás, seriam facilmente evitadas.

A pretexto de "mudança de valores" ou porque "os tempos são outros", pessoas que nasceram nos últimos 35 anos sucumbem facilmente à crença em fenômenos e projetos duvidosos, porque agora "não temos mais ideologias" e tudo agora "é diferente".

Sem perceber que as armadilhas são as mesmas que antes, os mais jovens, ou mesmo os mais velhos que cansaram de tantas batalhas, constrangem em suas credulidades, que não raro contradiz a vocação e a responsabilidade progressista de vários deles.

É o caso do termo "popular", uma palavra mágica que faz com que qualquer oportunista seja acolhido pela multidão progressista com muita facilidade. Bajulou o "popular", virou "progressista", pouco importando os surtos urubológicos eventuais.


É  sintomático isso, pois o "popular" que tanto se exalta nas rodas de debates e palestras aí afora nem sempre é aquela ligada realmente aos interesses das classes populares. Pelo contrário, trata-se de um "popular" caricato, estereotipado, uma imagem ao mesmo tempo patética, glamourizada e resignada do povo pobre.

Só que temos um lobby fortíssimo de intelectuais que defendem essa imagem do "popular" como se fosse a verdadeira imagem das classes populares. O povo está "feliz" e isso é o que importa, segundo eles. O povo vira um verdadeiro "gado" do mercado do entretenimento e no entanto os intelectuais, numa clara intenção bajuladora e paternalista, define isso como "ativismo social".

Só que isso lembra muito o discurso dos demagogos políticos, quando falavam em "povo", dentro de uma intenção enganadora e ilusória. Certamente é um discurso menos habilidoso do que o que os intelectuais de hoje fazem, mas era a demagogia da época, pelo menos até cerca de 50 anos atrás.

Hoje, no entanto, as coisas são mais sutis. O discurso é ainda mais sedutor, não são mais cestas básicas distribuídas em comícios no interior, são documentários, resenhas, artigos, teses acadêmicas, monografias. Discursos que glamourizam a pobreza de uma forma tão complexa, embora também confusa, que os aplausos são fáceis, tanto o apoio que se dá a essa visão docemente deturpada do que é o popular.

Só que ninguém vira progressista agindo dessa forma. Mas a intelectualidade foi esperta nisso. Com a crise do governo Fernando Henrique Cardoso, o mentor ideológico desses intelectuais, através da tragédia da plataforma P-36 da Petrobras (que quase mudaria seu nome para o patético Petrobrax) e do apagão, seus discípulos naturais, vendo o barco furando, foram para o plano ideológico progressista, apesar de suas ideias claramente neoliberais.

E aí vemos Paulo César Araújo, que seria o historiador dos sonhos da Era José Serra, passar a ser cortejado pela "esquerda média", pouco depois de encerrar a Era FHC lançando um livro que tratava os ídolos cafonas como se fossem "coitadinhos revoltados". E veio Bia Abramo, a filha "lacerdista" de Perseu Abramo, elogiar as "mulheres-frutas" da época, a ponto de chamar de "moralistas" as enfermeiras que protestavam contra a exploração pornográfica de seus trabalhos.

E isso anos antes do primo de Bia Abramo (por sinal contaminada pelos valores do Projeto Folha), Cláudio Weber Abramo, ingressar com gosto no Instituto Millenium. Passada a faixa presidencial de FHC para Lula, pouco depois já se via Pedro Alexandre Sanches, o aluno exemplar de seu patrão-colega Otávio Frias Filho, passear pelas redações de esquerda tentanto ludibriar os leitores de Carta Capital.

Mas mesmo o cafajestismo claramente machista, no caso dos professores baianos Roberto Albergaria e Milton Moura, e claramente reacionário, como no caso do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, embarcaram nessa "fórmula mágica" da palavra "popular" como meio de alguém virar "progressista" sem qualquer esforço.

E não são somente os intelectuais. Muitos troleiros a "zelar", através de mensagens grosseiras despejadas na Internet, o "estabelecido" pela velha grande mídia do entretenimento, também queriam se passar por "progressistas", não bastasse serem protegidos pelo tempo biológico, já que muitos adultos, de forma generalizada, ainda veem na juventude uma "fauna necessariamente progressista e revolucionária".

Por trás disso, porém, veiculam-se visões elitistas, paternalistas, antipopulares, reacionárias, tudo isso em nome do rótulo "popular" que transforma até mesmo qualquer fascista em "progressista nato". O que é um grande risco para a verdadeira cultura popular, que já sofre a mais cruel exploração deturpatória do mercado e da mídia, e é atingida de graça por uma pregação intelectualoide e internauta que muitos acreditam serem favoráveis ao interesse das classes populares, quando, na verdade, são extremamente nocivas a esse interesse.

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