quinta-feira, 2 de agosto de 2012

INTELECTUAIS NÃO SÃO SEMIDEUSES


Por Alexandre Figueiredo

O grande problema que existe na opinião pública brasileira é o deslumbramento em relação a pessoas ou fenômenos que nem de longe beneficiam ou representam qualquer interesse público, mas simbolizam o status quo de supostas esperanças de suposta sabedoria.

Com uma "tradição" de subserviência pregada pela ditadura militar e pelo poder midiático dos últimos anos, a opinião pública média, mesmo a razoavelmente progressista, está acostumada a louvar pessoas ou projetos que estão acima da pirâmide decisória da sociedade.

E isso faz com que parte da intelectualidade seja vista como uma elite divina, acima do bem e do mal, detentora do mais inabalável prestígio, a ser cortejada numa aparente unanimidade pelos seus adeptos movidos numa aura de sonho e fantasia.

A nossa imprensa se beneficiou disso, até pouco tempo atrás. Até que viesse uma ação organizada de jornalistas progressistas desmascarando as armadilhas, a sociedade parecia movida, num aparente consenso, a endeusar qualquer um que se apresentasse como "jornalista" pelos veículos midiáticos.

Nessa época, os cidadãos comuns  eram convidados, na prática, a pautar uma linha editorial em suas vidas baseada no "jornalista" de sua preferência, e acreditava-se no jornalismo não como uma atividade a serviço da sociedade, mas acima da sociedade, equívoco que garantiu poderio ideológico a várias figuras badaladas.

Esse deslumbramento já foi superado, mas hoje temos o mesmo problema com intelectuais e mesmo alguns jornalistas culturais, que se beneficiam da pretensa imagem de "semideuses" que outrora beneficiavam nomes como Gilberto Dimenstein, Ricardo Boechat ou até mesmo Mário Kertèsz.

Hoje são historiadores, antropólogos, sociólogos e críticos musicais que ostentam a aura "divinizada". Gente que, a pretexto de "zelar" pela cultura popular, defendem a mediocrização cultural da "cultura de massa", num discurso bastante engenhoso e prolixo, contraditório e apelativo, cuja visibilidade fácil permite que verdadeiras bobagens sejam veiculadas em publicações acadêmicas em tese comprometidas com o saber científico.

Embora, nos últimos meses, a reputação de gente como o baiano Roberto Albergaria - por defender o machismo humilhante do "pagodão" com alegações típicas de um praticante de bullying - , Bia Abramo - por defender as "popozudas" em detrimento das profissionais de saúde - e mesmo Pedro Alexandre Sanches - pela sua natural ojeriza a Chico Buarque - esteja arranhada, eles ainda gozam de uma superioridade ideológica que ainda seduz as mentes progressistas mais frágeis.

INTELECTUAIS NÃO SÃO DEUSES... NEM SEMIDEUSES

Os intelectuais não são deuses nem semideuses. Mas, na chamada "idade mídia" que assola o Brasil, o que eles disserem quase ninguém contesta. Eles são sacerdotes modernos, dotados de mistério e de um saber elitista, que se pretende "superior", às custas do deslumbramento de seus adeptos, a louvá-los como verdadeiros devotos.

Pouco importa a coerência de suas ideias. O mistério de nossa fé é que eles esperam de nós. Sem saber que os piores intelectuais são aqueles que adotam um discurso mais complicado para seduzir os ouvintes e leitores, muita gente acredita piamente neles. Basta acreditar, evita-se a reflexão crítica até quando se diz querer estimulá-la.

Antes, eram os mistérios e segredos forjados de ideias e crenças absurdas, sobrenaturais, surreais. Hoje são os discursos contraditórios, persuasivos, confusos, chorosos. Doutorados, mestrados, currículos de entrevistas e reportagens feitas, artigos diversos publicados, livros editados, tudo isso acaba valendo mais do que o conteúdo de suas ideias.

Estas, aliás, são de crédito bastante duvidoso se caso alguém se disponha, como no caso do editor deste blogue, a questioná-los. Não é tarefa fácil, afinal busca-se frases, ideias, informações, procedimentos, confrontam-se contextos, informações, o passado de quem diz, algo que um leitor apressado, como ainda é o leitor médio de Caros Amigos e Fórum - vários deles haviam sido assinantes da Folha até cerca de cinco ou dez anos atrás - , não consegue fazer.

Só que sabemos que intelectuais assim não são semideuses. Eles querem "vender o peixe" defendendo a "cultura de massa". Eles estão mais a serviço de divulgação e propaganda de um mercado que movimenta bilhões de reais por dia em todo o país do que por uma descoberta de um "novo folclore" supostamente escondido na "cultura de massa" dos últimos 45 anos.

Eles são seres humanos. Intelectuais bebem cerveja e se embriagam. Uns até cheiram pó. Outros querem viajar de graça para qualquer canto do país. Outros exploram empregadas domésticas e evitam contrair complicações trabalhistas. Outros querem aparecer na televisão. E, quase sempre, esses "pensadores" não passam de uns mervais e umas cantanhedes usando a palavra "popular" como se fosse uma palavrinha mágica que os promovesse como "intelectuais progressistas".

Dessa forma, eles acabam mais contribuindo para a degradação cultural do que pela valorização da verdadeira cultura popular, aquela que está mais preocupada com o verdadeiro saber e não com a lotação de plateias.

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