segunda-feira, 20 de agosto de 2012

AS UTOPIAS E AS DESILUSÕES QUANTO A CULTURA E DESENVOLVIMENTO SOCIAL


Por Alexandre Figueiredo

Em outras oportunidades, havia escrito que o problema da geração intelectual de esquerda nos anos 60 foi acreditar na aliança da burguesia nacional, tida como incapaz de trair os esquerdistas mas que as traiu quando os burgueses brasileiros defenderam o golpe de 1964.

Havia uma utopia que se deve prestar atenção. Uma utopia que envolvia vários intelectuais simpatizantes do marxismo, figuras hoje bastante conhecidas na direita ideológica. José Serra, Arnaldo Jabor, Paulo Francis, Ferreira Gullar eram alguns desses nomes, que viam a pobreza das classes populares com um certo romantismo e achavam que a burguesia nacional iria financiar a emancipação social do povo pobre junto com o populismo nacionalista de João Goulart, a máquina estatal e as universidades.

Não se vai falar muito dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Mas é certo que seus dirigentes tinham uma visão um tanto paternalista das classes populares. Tudo bem, eram integrantes das classes abastadas, tinham que estar dotados de algum etnocentrismo. Mas isso não era o maior problema para os CPCs da UNE, porque isso em si não impedia o debate entre intelectuais e o povo,  e o papel dos CPCs hoje é um enigma, porque foi prematuramente extinto por força do golpe de 1964.

No entanto, parte da geração que se envolveu com a UNE e com o cepecismo se desiludiu com o glamour subdesenvolvido expresso na sua compreensão bem-intencionada, mas superficial do folclore brasileiro, se desiludiu com o passar dos anos, seja pela falência de uma conscientização social mais sonhadora do que realista, seja pelas desilusões com os rumos do cenário político brasileiro.

Acreditava-se numa revolução socialista cabocla, dentro de uma perspectiva demasiado militante, onde tanto o marxismo e o folclore brasileiro eram apenas conhecidos nos aspectos gerais. Pessoas que mal entendiam esses temas acreditavam já estarem prontas para liderar o processo de emancipação social, sem verificar as armadilhas, as pressões e os conflitos de interesses das diversas partes envolvidas no cenário sócio-político de 1963-1964.

As desilusões quanto ao golpe de 1964 e as utopias do "livre mercado" fizeram com que os antigos esquerdistas de 1964 migrassem em boa parte para a direita, preparando o tapete vermelho para outros esquerdistas tardios, como Fernando Gabeira, o casseta Marcelo Madureira e a ex-VJ da MTV Soninha Francine aderirem também aos direitistas.

O que a gente observa, comparando essa geração com os pretensos "esquerdistas" de hoje, como Pedro Alexandre Sanches, Eugênio Arantes Raggi e Ronaldo Lemos - Paulo César Araújo nunca se declarou "esquerdista", mas é queridinho desse grupo, e Bia Abramo se contaminou com as "lições" do Projeto Folha - é que a outra geração (mesmo da parte do hoje pateticamente reacionário José Serra) era muito mais sincera no seu esquerdismo que os "esquerdistas" de hoje, crias tendenciosas do "efeito Lula" dos primeiros oito anos do PT no poder.

Eles tinham uma visão paternalista sobre cultura popular e um pouco conhecimento da teoria esquerdista, só lendo Karl Marx e Antonio Gramsci, por exemplo, de forma superficial e apressada. Mas eram bem intencionados, talvez fossem românticos e idealistas demais.

Os de hoje, embora pareçam "mais convictos" no seu (suposto) esquerdismo, nem de longe leram Marx, e Gramsci mal conseguiram ouvir de nome. Seu esquerdismo ainda exala um forte cheiro do "esquerdismo" que o professor Fernando Henrique Cardoso exibia na sua Teoria da Dependência, atraindo José Serra para seu apoio, coisa que vale até hoje, em que pese os eventuais atritos entre os "caciques" do PSDB.

A utopia dos pretensos esquerdistas de hoje é até um paternalismo ainda mais radical que o dos antigos militantes da UNE de 50 anos atrás. Um paternalismo tão radical quanto radicalmente não assumido. Se a geração de Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar sonhava em conduzir a cultura popular de raiz para o panfletarismo comunista, a de Pedro Sanches e Eugênio Raggi tem outros sonhos bem menos realistas e muito mais pragmáticos.

A geração de Sanches e Raggi julga o folclore defendido pelos cepecistas como coisa morta. Prefere a "cultura popular" de cativeiro do brega-popularesco, "manufaturada" pela televisão e pelo rádio, e acredita que o povo pobre vá se emancipar através da aliança do brega-popularesco, da intelectualidade e do mercado, visto de forma meio romântica, como se as grandes corporações não fizessem parte dele.

É uma outra utopia, que no entanto é vista como se fosse uma "visão realista". Mas não é. É um paternalismo enrustido, um endeusamento do mercado também enrustido. Pelo menos, nos tempos dos cepecistas, o povo pobre tinha sua consciência social reconhecida pelos intelectuais. Hoje o povo pobre, que o brega-popularesco "coisifica", só é "sujeito" quando aceita essa condição de "coisa" pelo mercado brega, numa inversão retórica e ideológica da intelectualidade atual.

O problema é quando outras mudanças dos rumos sociais, políticos e culturais irão ocorrer e como elas mexerão com as utopias da intelectualidade etnocêntrica atual. Como essa intelectualidade irá reagir a essas mudanças ainda não há uma previsão totalmente certa. Mas as recentes "urubologias" de Pedro Alexandre Sanches, sobretudo contra a MPB esquerdista, já são um sinal do que pode vir por aí.

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