quinta-feira, 9 de agosto de 2012

AS OCUPAÇÕES E O MIMETISMO FESTIVO NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

"Essa é a parte fácil (protestar contra inimigos conhecidos dos movimentos sociais). Os manifestantes devem ter cuidado não só com os inimigos, mas também com falsos amigos que fingem apoiá-los e trabalham duro para diluir o protesto. Da mesma forma que tomamos café sem cafeína, cerveja sem álcool e sorvete sem gordura, eles tentarão transformar os protestos num gesto moralista inofensivo" (Slavoj Žižek, in: HARVEY, David, ŽIŽEK, Slavoj et al. Occupy: Movimentos de protesto que tomaram as ruas. São Paulo: Boitempo, 2012).

Nos últimos anos, uma nova onda de manifestações sociais ocorreu no Oriente Médio, na Europa, nos Estados Unidos e no Chile que causou fortes abalos nos poderes políticos e econômicos dominantes. No caso do Oriente Médio, sobretudo nos países do Norte da África, como Egito e Tunísia, governos foram derrubados, embora nem de longe isso represente uma prosperidade sócio-política, porque derrubar ditaduras, na verdade, é um processo de um longo e difícil reajustamento social e político de uma sociedade.

O Brasil mostra isso. A ditadura militar acabou há 27 anos, mas seus reflexos e heranças existem até hoje e, em certos aspectos, continuam valendo. E, diante do atraso social em que vive o país, agravado pelo retrocesso midiático das concessões de rádio por Antônio Carlos Magalhães e José Sarney e pelo reacionarismo midiático cada vez mais evidente, a situação do Brasil preocupa, mergulhado o país na mediocridade cultural e na acomodação social.

O livro em questão, citado na fonte da frase do filósofo esloveno Slavoj Žižek,tem seus méritos, mas mostra praticamente o caráter desigual das abordagens das ocupações sócio-políticas da parte de pensadores estrangeiros e de pensadores brasileiros (com a honrosa exceção de gente como Emir Sader).

Quando se falam em "ocupações", entende-se, de fato, em organizações sem algum programa ideológico definido, mas talvez latente, que reúne pessoas não necessariamente de um mesmo perfil ideológico, mas tendo em comum a indignação contra a opressão política e econômica. Mas isso se refere à manifestações ocorridas no exterior, já que, no Brasil, a coisa parece diluir nas finalidades pragmáticas e numa certa espetacularização dos movimentos sociais.

Aqui as "ocupações" foram um modismo que deixou pálidos e raros equivalentes. Talvez a "Marcha das Vadias" fosse o mais próximo dos movimentos sociais ocorridos a partir deste contexto. Mas de resto as manifestações enfatizadas envolvem causas pragmáticas, e mesmo a "marcha da liberdade" não escapa a isso, porque não se trata de um desejo de derrubar o "sistema" e nem de criar uma nova alternativa política, mas apenas a causas imediatas que permitam a inserção de novos agentes em contextos de consumo e usufruto de benefícios banais.

E isso é considerado quando não há o discurso cafajeste de definir o vazio, alienado (sim: alienado) e conformista entretenimento brega-popularesco como um suposto ativismo social, na ideia equivocada de converter um mero processo de consumo no lazer em "protesto" e "reivindicação", por mais claramente "sem causa" seja cada evento do tipo.

Foi assim que, por exemplo, o "funk carioca" tentou se autopromover. E já estavam de prontidão os intelectuais que queriam que o Rio Parada Funk fosse o "nosso Occupy Wall Street", usando o Largo da Carioca como cenário, ao lado do centro financeiro da Av. República do Chile e da Av. Rio Branco.

Só que existe uma grande diferença entre pessoas que apenas dançam, fumam e bebem e pessoas que, ainda que dancem, fumam e bebem, lutam por uma causa. Ninguém estava no Rio Parada Funk para "protestar". Fora a pose de vítima que os funqueiros e seus simpatizantes sempre adotam e usam, nada há de qualquer engajamento social. O que existe é a apropriação do "funk carioca" de toda uma simbologia engajada conhecida no Brasil, seja no discurso, seja nas medidas mais conhecidas.

Mas se vê isso até no "forró eletrônico" e mesmo a axé-music, há 15 anos atrás, também teve desses surtos pseudo-engajados. O tecnobrega veio depois do "funk carioca" e, como este, foi celebrar sua vitória midiática com a mais escancarada parceria com a velha grande mídia: Organizações Globo, Grupo Folha e Grupo Abril. Ou seja: Rede Globo, Caras, Folha de São Paulo, tudo às claras para todo mundo ver.

Se nos movimentos de ocupação do exterior não há um programa ideológico definido, o que não deixa de ter seu lado positivo - afinal a situação exigia apenas uma causa geral que pudesse atrair mais pessoas - , iso não significa que no Brasil tudo seja vago ou pragmático. E a espetacularização dos movimentos sociais, mesmo por conta de uma esquerda intelectual mediana, pode anular o sentido real dessas manifestações.

Afinal, o "inimigo" de que fala Slavoj são os falsos amigos que parecem apoiar a causa, mas a combatem através da diluição e da domesticação. Recentemente, houve denúncias de que a Fundação Ford e o especulador George Soros haviam depositado uma grande soma de dinheiro no Fórum Social Mundial, para enfraquecer seu potencial transformador.

Só um detalhe é suficiente para chamar a atenção: tanto a Ford Foundation (nome original da instituição ligada à gigante automobilística) quanto Soros atuam na trincheira oposta, o Fórum Econômico Mundial, da forma mais explícita e escancarada possível. Felizmente, os protestos, vindos de um grupo da Índia, repercutiram e a "contribuição" foi cancelada.

E no Brasil? Soros continua financiando a intelectualidade para que ela diga que o "funk carioca", o tecnobrega, o Michel Teló, o Leandro Lehart, o Odair José e o que vier de brega-popularesco são ou foram (no caso de Wando e Waldick Soriano) "o máximo de ativismo social". Uma tese risível, não fosse a imagem de "coitadinhos" com que seus ídolos são promovidos pela intelectualidade associada.

E são os mesmos ideólogos que fingem aprovar os protestos dos sem-terra, mas dos quais sentem um ódio no olhar. Para eles, "bonito" é ver o povo pobre rebolando e sorrindo de forma patética, até debiloide, e aí inventam que isso é "ativismo social", porque é a "afirmação cultural da cultura as periferias". Só que, quando é o povo pobre se manifestando, mesmo para criar barricadas num rodovia movimentada, esses "amigos da periferia" são os primeiros a falarem mal pelas costas, só não vão adiante porque o "protocolo" não deixa.

(Entenda-se "protocolo" o fato desses cientistas sociais ou críticos musicais, muitos deles tendenciosamente relacionados com intelectuais de esquerda, não poderem explicitar suas posturas reacionárias por diversos motivos de conveniência)

INTERESSES EMPRESARIAIS

O que está por trás dessa espetacularização, desse mimetismo festivo caraterístico de muitos dos ditos movimentos sociais no Brasil?

A pretexto de não se prender a qualquer dirigismo ideológico, o que se vê no entanto é que as "causas" defendidas escondem interesses empresariais. Eles patrocinam esse "ativismo", limitando o desejo de transformação social apenas dentro dos limites do que o "estado de bem estar social" capitalista permitem.

Neste sentido, o "ativismo social" e o esquerdismo intelectual médio se equiparam ao "iluminismo de engenho", que os manifestantes sociais do século XIX, expressavam então. E, se nessa época, o "ativismo social" não mexia sequer de longe na estrutura escravista, para não ferir os interesses dos senhores de engenho, o "ativismo" de hoje não mexe na estrutura empresarial atual, sob os mesmos motivos.

Se os ativistas sociais menos ousados eram vinculados a aristocracias e eles mesmos tinham escravos a seu serviço, os ativistas sociais medianos de hoje adotam uma relação paternalista com os trabalhadores de origem humilde mais próximos: domésticas, porteiros, faxineiros, feirantes.

Por isso, há o discurso estranho da esquerda média em evocar os movimentos sociais brasileiros só pelo aspecto do espetáculo. Não o natural espetáculo da criatividade ativista que se vê nos verdadeiros protestos, onde o humor se torna uma mensagem mais eficaz do que o panfletarismo propriamente dito. Mas o espetáculo que dilui e esvazia a causa, o espetáculo por si mesmo, pois não é o espetáculo que se serve à causa, mas a causa que se serve ao espetáculo.

E, se a causa está suborginada ao espetáculo, os movimentos sociais se esvaziam. Tudo se torna domesticado, tudo vira fachada. É o "funk carioca" ou o tecnobrega, a "marcha da liberdade" convertida em "carnavais fora de época", servidos de uma "mídia alternativa" que nada tem de alternativa, porque controladas por políticos, empresários influentes ou, quando muito, pelegos.

Com um processo destes, as verdadeiras motivações do ativismo social são reduzidas ao máximo. Porque não são mais causas que desejem romper com as estruturas causadoras de injustiças diversas, mas causas que realizam pequenas transformações e mantenham essas mesmas estruturas, tais como novos edifícios contruídos com andaimes velhos e podres.

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