quarta-feira, 8 de agosto de 2012

AS MORTES DE MAGRO E CELSO BLUES BOY E O DESERTO DA MEDIOCRIDADE


Por Alexandre Figueiredo

Nos últimos dias, dois grandes músicos brasileiros faleceram, vítimas de câncer: o guitarrista Celso Blues Boy, um dos grandes ícones do Rock Brasil, e o multiinstrumentista Antônio José Waghabi Filho, o Magro, também um dos cantores do histórico grupo MPB-4, em atividade desde os anos 60.

É muito doloroso, mas seria menos triste se, a cada grande talento que perdêssemos, tivéssemos seguidores que, embora não soassem (e nem devessem soar) iguais aos falecidos, pelo menos seguissem suas lições à sua maneira, em pleno diálogo com os mestres que se foram.

Muita gente boa já faleceu na música brasileira: de Tom Jobim a Chico Science, de Raul Seixas a Sílvia Telles, de Agostinho dos Santos a Itamar Assumpção, de Renato Russo a Elis Regina, de Maysa a Redson (Cólera).

Tudo bem, mas o problema é que, como o Brasil vive numa mediocrização crescente, essas perdas se tornam mais preocupantes. Recentemente, também faleceu o violeiro Décio Marques, representante da boa música caipira mineira, mas não houve qualquer alarde.

A MPB está ficando envelhecida, até o Rock Brasil está cheio de cinquentões e até sessentões. A maioria dos principais nomes da MPB têm entre 65 e 70 anos, com idade de aposentados do INSS. E o mais grave é que é nessa faixa ou menos que estão morrendo os nossos melhores músicos, que morrem duas vezes, seja pelo motivo biológico, seja pela sentença do esquecimento.

Nelson Jacobina, o co-autor da vibrante música "Maracatu Atômico", lançada por Gilberto Gil (h0je com 70 anos, mas que já perdeu um filho músico com 19, Pedro Gil, em 1990), faleceu aos 58 anos. Décio Marques tinha 65, Celso Blues Boy 56 e Magro, 68.

Chico Science, outro que gravou "Maracatu Atômico", morreu com 31 anos. E o que dizer sobre as mortes de Elis Regina (aos 37), Raul Seixas (aos 44), Nara Leão (aos 47), Tom Jobim (aos 67), Itamar Assumpção (aos 54), Cazuza (aos 32, como Sílvia Telles) e Renato Russo (aos 36)...

Jorge Mautner, o outro autor de "Maracatu Atômico", continua vivo, mas já tem 71 anos. A moderna MPB dos anos 60 já é feita por gente idosa. Sérgio Ricardo já é um octogenário, como João Gilberto. Enquanto isso, os mais jovens pensam que "ter atitude" e estar conectado pela Internet e pelas novidades fashion faz qualquer um virar gênio da MPB.

Isso quando não sucumbem ao apoio do brega-popularesco. Os ídolos bregas e os ritmos derivados cresceram tanto que hoje não há mercado que comporte a mediocrização cultural dominante no nosso país. É um deserto de mediocridade, feito meramente por interesses comerciais, que não produz conhecimento, não traz valores sociais relevantes, e no entanto se acha a "verdadeira música popular brasileira" só pela fácil atração de multidões sem esforço.

A campanha intelectualoide em prol do brega e seus derivados (inclusive axé-music, "funk carioca" e as tendências "universitárias" do brega) tenta empurrar seus ídolos para os redutos da MPB, enquanto a MPB autêntica é obrigada a sair até mesmo de seus poucos espaços que restam.

Tudo isso é feito na maior cara-de-pau, através da promoção de "ídolos coitadinhos". Tudo para ver ídolos bregas, de Odair José a MC Leozinho, de Amado Batista à Banda Calypso, de Gretchen a Mr. Catra, de Almir Rogério a Zezé di Camargo & Luciano e de Benito di Paula a Alexandre Pires nos mesmos ambientes da MPB.

E aí falam do "mau gosto" como se fosse um movimento "libertário", para enganar a opinião pública. Enquanto espaços de MPB são hoje reduzidos à extensão da breguice que já possui espaços demais no rádio e nas casas de espetáculos, os músicos de MPB perdem aos poucos seus poucos espaços, são expulsos de sua própria casa, como um Pinheirinho musical.

"Lindo" é ver Joelma e Chimbinha se apresentando num festival de MPB numa cidade qualquer. "Lindo" é ouvir Gaby Amarantos na MPB FM, Alexandre Pires, pedante, fazendo cover de Lupicínio Rodrigues. O que a intelectualidade chorosa da esquerda mediana derramou em lágrimas por causa da choradeira em torno de Zezé di Camargo & Luciano, nos tempos do filme Os Dois Filhos de Francisco, é de causar muito constrangimento.

Mas a opinião pública média pouco importa se, morrendo Magro, o MPB-4 fica sem uma grande voz. Ou se, no país de Chimbinha, Celso Blues Boy fará a maior falta. No entanto, houve a choradeira em torno do drama do breganejo Pedro Leonardo. É bom ele estar vivo, porque como ser humano ele traz a alegria de seus amigos, parentes e admiradores. Mas, musicalmente, ele nada acrescenta para a música brasileira.

As mortes dos músicos da MPB autêntica, que nunca se preocuparam em lotar plateias com facilidade, nos deixa a pensar sobre os rumos da música brasileira, atualmente em crise, não pela falta de talentos, que continuamos tendo, mas pela falta de espaço e de reconhecimento público destes.

Enquanto isso, a intelectualidade etnocêntrica, da forma mais paternalista, quer porque quer que o brega-popularesco seja aceito pela MPB. O brega-popularesco é inútil para a cultura brasileira, quando muito são apenas paródias de ritmos populares, uma piada a não se levar a sério.

Mas se levarmos o brega-popularesco a sério demais, estaremos comprometendo o futuro da música brasileira, que cada vez mais será escrava do "mau gosto" que durante décadas atendeu e continua atendendo aos interesses dos barões da velha grande mídia.

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