terça-feira, 7 de agosto de 2012

AS APELAÇÕES DOS "SERTANEJOS UNIVERSITÁRIOS"


Por Alexandre Figueiredo

A "cultura popular" de hoje é pobrezinha? Nem tanto. Aliás, nunca ela se tornou tão milionária do que antes. E há muito tempo ela é o establishment, por mais que os intelectuais associados vejam nesse "universo" uma multidão de "coitadinhos" que busca o "justo reconhecimento" na Música Popular Brasileira.

Pois enquanto Pedro Alexandre Sanches chama a MPB "biscoito fino" de "latifúndio", num desses discursos pseudo-esquerdistas do colonista-paçoca, o latifúndio mesmo, aquele que impõe concentração de terras e elimina a bala quem desafia o poder de seus "coronéis", patrocina com gosto o "humilde" entretenimento "popular" do brega-popularesco.

Se nem o reino mineral consegue acreditar que o dito "sertanejo" dos últimos 30 anos é a expressão do "humilde trabalhador do campo" - seria demais o mercado associá-los aos "incômodos" sem-terra - , também não dá para esconder o patrocínio latifundiário, seja a grupos de "forró eletrônico", seja para cantores, duplas e grupos do dito "sertanejo".

E o Festival de Barretos, uma das maiores vitrines dessa música pseudo-caipira - um dos maiores e mais fortes exemplos do império da mediocrização cultural que assola o Brasil - , é um dos eventos claramente patrocinados não só pelo latifúndio local, mas pelo PSDB e pela pessoa do governador paulista Geraldo Alckmin, aquele que resolve os problemas sociais pela truculência.

E se já víamos o ridículo numa dupla como Chitãozinho & Xororó, que dissimula sua péssima produção autoral alternando-as com pedantes regravações de clássicos alheios da música brasileira e hoje tentam uma carreira "sinfônica", imagine então com as gerações "universitárias" recentes, que agora só "querem tchu, querem tchá".

E os "artistas", tão "pobrezinhos" e "sem espaço na grande mídia" (com a "modesta exceção" das Organizações Globo, Folha de São Paulo, revistas Contigo e Caras), possuem tecnologia de ponta para lançar mão de todo tipo de apelação que possa camuflar a péssima expressão musical, não fosse suficiente a fetichização das duplas que resulta.

Não obstante, essa fetichização resulta no reacionarismo violento dos fãs da dupla João Bosco e Vinícius, que, contrariando a reputação autoral dos dois artistas de MPB do qual a dupla "surrupiou" os nomes, até agora só conseguiram emplacar um sucesso em cima de uma canção do norte-americano Jason Mraz. O reacionarismo desses fãs não é muito diferente da "milícia talifã" que sabiamente o humorista Bruno Mazzeo definiu dos fãs de Luan Santana, outro ícone dessa safra "sertaneja".

Pois agora a dupla Fernando & Sorocaba - cuja "preocupação" com a cidadania resultou em canções pró-bebedeira como "É Tenso (Eu Bebo Mesmo)" - , atração mais esperada pelos fãs de breganejo, resolveu apelar pelos efeitos especiais, criando o tal "teletransporte" - efeito usado no seriado Jornada nas Estrelas (Star Trek) - que "leva" um dos cantores da dupla do palco para a plateia.

Claro, não tem música que dê para ouvir por si só, é preciso que algum efeito especial a torne mais "palatável". Para não dizer a bebedeira defendida como um "mal necessário" em "É Tenso". E o império jabazeiro se alimenta de tudo isso, e ainda é capaz de usar intelectuais de nome para promover os mesmos ídolos como "coitadinhos".

Só uma observação. Embora o chamado "pagode romântico" seja visto como "novidade", ele já havia sido atração de Barretos em outros eventos, sobretudo com Alexandre Pires e Exaltasamba. Agora é o cantor Thiaguinho, ex-Exaltasamba, e os Inimigos da HP (aqueles que armaram um "tributo" a Chico Buarque para arrancar verbas da ministra e irmã do cantor).

Isso porque o "pagode romântico" ou sambrega não é um ritmo brega-popularesco de projeção nacional e precisa se alimentar de outros mercados para sobreviver. Dessa forma, o sambrega faz "parcerias" com a axé-music quando vai a Salvador e, em São Paulo, precisa se associar ao "sertanejo", ou breganejo.

Mas os próprios objetivos de diluição unem o breganejo e o sambrega. Se um dilui a música caipira, outro dilui o samba. Com os mesmos propósitos bregas, com a mesma mediocridade e pedantismo artísticos. No fundo, o sambrega sempre sentiu em casa quando vai a Barretos. Faz parte do negócio.

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