quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A TRAJETÓRIA SOMBRIA DA TRANSMIL


A TRAJETÓRIA SOMBRIA DA TRANSMIL

Por Alexandre Figueiredo

Moradores de Mesquita e Nilópolis, na Baixada Fluminense, vivem um drama interminável na hora de se deslocarem para o Rio de Janeiro ou de lá voltassem para suas cidades. Dependem unicamente de uma empresa que insiste em manter-se em circulação, mesmo com um péssimo serviço e uma frota velha e sucateada, apenas eventualmente reparada pelo esforço corajoso de funcionários mal-remunerados que tentam oferecer alguma dignidade para uma empresa mal-administrada.

Embora se diga que a Turismo Trans1000 Ltda., o nome jurídico de tal empresa, vive "sérios problemas financeiros", a empresa, na verdade, segue o mesmo gênero, de matizes tragicômicas, da "empresa pobre de empresários ricos". Mas isso, no caso da empresa sediada em Mesquita, esconde uma trajetória que inclui até mesmo uma tragédia.


Depois que a Turismo Transmil, que surgiu em 1981 de um desmembramento da antiga Transa - empresa que, mudando o registro do DETRO, migrou para Três Rios e é melhor administrada - , deixou de fazer parte do grupo Guanabara (do empresário Jacob Barata), a empresa ficou com quatro sócios.

O problema é que, em 19 de março de 2009, um deles, Luís Carlos Duarte Batista, o Carlinhos da Tinguá, foi assassinado num crime político. Ele era ligado tanto ao Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, quanto à política da Baixada Fluminense e até hoje os motivos do crime não foram ainda esclarecidos, embora alguns suspeitos tenham sido presos em maio de 2011.

A decadência da empresa se deu quando a última renovação de frota com carros vindos de fábrica foi em 2007, e mesmo assim com o tipo "midibus", ônibus de porte médio, mais baratos no mercado. Depois a empresa passou a substituir as frotas não mais com carros inéditos, e nem sequer com carros de segunda mão, mas com carros de terceira mão, geralmente de empresas cariocas ou de São Gonçalo que já integravam frotas de outras empresas da Baixada Fluminense.

Outras irregularidades também vieram à tona, como descumprimento de encargos trabalhistas, problemas nos registros de cada ônibus da frota - alguns circularam com problemas na documentação, e até mantendo a chapa com o crédito da cidade do Rio de Janeiro, correspondente ao da empresa anterior do veículo - e a demora na espera de um ônibus.

O DETRO, entidade ligada ao governo fluminense que se responsabiliza pelo transporte intermunicipal, se limita a apreender os ônibus e depois liberá-los. Mas em vez de impor sanções ou qualquer tipo de punição à empresa, fora as multas, ela é poupada, enquanto passageiros utilizam os ônibus da Transmil temendo por sua segurança.

Afinal, os ônibus rodam em alta velocidade com pneus carecas e parafusos quase soltos, indicados pelo fato de que os ônibus "sacolejam" pelas estradas enquanto correm. Num incidente, um ônibus da Transmil teve um dos pneus soltos num trecho da Av. Brasil. Em outro incidente, um ônibus circulou com problemas no freio, condição potencial para um trágico acidente.

Na melhor das hipóteses, o que ocorre é o enguiçamento do motor. Não há tragédia nem feridos, mas os passageiros se atrasam em seus compromissos, o que pode causar problemas na chegada ao trabalho, e muitos moradores de Nilópolis e Mesquita trabalham no Rio de Janeiro, e é difícil, num mercado instável que é o brasileiro, ser exemplar na sua profissão, porque apenas cumprir o horário não é suficiente para o patrão confiar no seu subordinado.

FÃ-CLUBE ESTRANHO

Além da estranha persistência de uma empresa cheia de irregularidades, cuja permanência na operação de suas linhas não é garantia de que a empresa vá sanar as supostas dificuldades financeiras - que, provavelmente, são resultantes da incompetência e improbidade administrativas de seus donos - , há o estranho fã-clube de uma minoria barulhenta de busólogos, fato compreensível apenas pelo contexto da atual busologia do Rio de Janeiro, que vive uma crise, tomada de uma minoria arrogante e caluniadora que defende medidas antipopulares e está movida por politicagem.

São busólogos que se irritam quando surge alguma campanha pelo fim da Turismo Transmil. Eles tentam dizer que "também entendem" os sofrimentos dos passageiros, mas mostram um nervosismo quando alguém diz que a Transmil deveria ter sido extinta faz tempo.

Fazem argumentações surreais. "A Transmil está com dificuldades...", é a mais comum. Mas, independente de quem torce ou não pela Transmil, o que se vê são boatos dos mais diversos tipos, desde informações sobre a suposta transferência de linhas como 003 e 005, que ligam Nilópolis e Mesquita, respectivamente, para o Rio de Janeiro, para outras empresas da Baixada Fluminense.

Uns chegam mesmo a dizer que a Transmil é "uma das melhores empresas da Baixada". Outros tentam fazer comentários invejosos contra empresas dotadas de frota de qualidade, como a Transportes Blanco e a Viação Caravele. Mas tudo o que se fala da Transmil não passa de "rádio-leão" - adaptação do termo sindical "rádio-peão", que significa "boato", na gíria busóloga - , e a empresa fica na mesma.

POLITICAGEM E PROMESSAS DE LICITAÇÃO

O problema mais grave é a politicagem que está em torno da Transmil, cujas irregularidades chegaram ao conhecimento da ALERJ. Um político do PP chegou mesmo a pegar carona na revolta da população de Nilópolis e cobrou do governo do Estado do Rio de Janeiro, meses atrás, alguma medida contra a deficitária empresa.

Aparentemente, o governador Sérgio Cabral Filho concordou com as denúncias e prometeu licitar as linhas que ligam a Baixada Fluminense e o Rio de Janeiro. Mas, além da promessa da adoção de uma padronização visual - praga que já incomoda os passageiros que usam as linhas municipais do Rio de Janeiro e Niterói - , a licitação pode fazer com a Transmil assim como a de Eduardo Paes fez com algumas empresas deficitárias.

Em outras palavras, a Transmil pode reassumir as mesmas linhas sob um outro nome. Ela poderá fazer alguns paliativos para fingir que "é uma empresa melhor", e, através da camisa de força de consórcios, poderá arrancar da empresa líder alguns carros semi-novos para dizer que "está renovando as frotas", carros que mais tarde ficarão sucateados por "falta de dinheiro" (a grana vai para os bolsos dos donos).

E, para piorar, será terrível ver a Transmil, na camuflagem visual do sistema Baixada X Rio, ter as mesmas cores da Flores, Mageli, Evanil, Caravele e Blanco. Isso será um grande desastre. E os passageiros serão mais uma vez tapeados. E, mesmo com um outro nome (ou seria pseudônimo?), a Transmil seguirá sua trajetória sombria maltratando os passageiros que só dependem dela para irem e virem no trajeto de Mesquita e Nilópolis (além de uma linha de Nova Iguaçu) para o Rio, rezando para que pelo menos voltem sãos, salvos e com o emprego mantido.

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