sábado, 4 de agosto de 2012

A MPB NÃO TEM MAIS FUTURO?


Por Alexandre Figueiredo

A mediocridade gritante do brega-popularesco - em que nem o pretensiosismo pseudo-sofisticado de nomes como Victor & Léo consegue resolver - , pelo menos, voltou a receber críticas pesadas da opinião pública.

Depois que um lobby de intelectuais quase fez afastar essas críticas através de uma engenhosa argumentação, há pelo menos dez anos atrás, só nos últimos anos aquela campanha crítica que víamos em nomes como Ruy Castro e Dioclécio Luz, além de um hoje já idoso José Ramos Tinhorão, pelos idos dos anos 90, voltou a ter a força de antes.

Até mesmo no Facebook, muitos perderam o medo de falar mal do "funk carioca", uma das "vacas sagradas" da intelectualidade etnocêntrica. E mesmo os próprios intelectuais, como Bia Abramo, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna e o "mais divino deles", Paulo César Araújo, já recebem duras críticas, não somente deste blogue.

É certo que as reações são de igual para igual. Se temos a lucidez de Kiko Zambianchi e Alceu Valença, temos a condescendência de Zeca Baleiro e Celso Fonseca. Se temos músicos de MPB e Rock Brasil que não querem se vender a duetos com bregas para arrumar lugar em vaquejadas e micaretas, temos músicos que ficam felizes por esse caminho tendencioso.

Só que o maior problema não está nesse combate, mas no que vai haver na música brasileira. É certo que o brega-popularesco voltou a ser reprovado por uma parcela da opinião pública que não se incomoda em ser chamada de "preconceituosa", rótulo claramente urubológico despejado pela intelectualidade que defende o brega e seus derivados. Até porque o experiente Millôr Fernandes, falecido há alguns meses, já nos preveniu do oportunismo de quem se diz "sem preconceitos".

O problema está no que significará a música popular no futuro. Hoje discutimos a mediocridade gritante que ocorre, de forma hegemônica, sob o rótulo "popular". Mas qual será a verdadeira música a ser produzida pelas classes populares?

MISTURAR CAFONAS E PERFORMÁTICOS É INÚTIL

Até hoje, o que se viu foi, de um lado, a "confraternização", altamente tendenciosa, de ídolos bregas com medalhões da MPB e do Rock Brasil e, de outro, a influência dos tradicionais ritmos folclóricos na música de artistas de música de qualidade vinculados às classes mais abastadas.

De um extremo, a "casa da Mãe Joana". De outro, a Academia Brasileira de Letras. No primeiro caso, é o populismo de conveniências que faz com que o brega, que posa de "excluído" mas é o que detém o poder da mídia, se associe à parte da MPB e do Rock Brasil que busca algum lugar na mídia. No segundo caso, são os mesmos efeitos do diálogo interrompido entre as classes universitárias e o povo pobre, desde o golpe de 1964.

É esse diálogo interrompido que gerou a falsa impressão de que as classes populares hoje não podem mais fazer sambas, baiões, modinhas, frevos etc, porque "é muito burguês". Uma visão absurda, porque o povo pobre, através dessa crença absurda - veiculada, sob aplausos dos desavisados, por uma intelectualidade muito badalada - , é proibido de fazer algo que é próprio deles.

A intelectualidade badalada não quer que o povo pobre brasileiro seja ele mesmo. Ele é que deve se contentar em ser sua própria caricatura. Que a cultura das classes populares seja subordinada, em primeira instância, pelo poder radiofônico, seus engodos e enlatados, e o povo terá que "(re)criar" a "sua" cultura em cima de tudo isso.

Daí a chamada cafonice cultural, dotada de referenciais de fora impostos pelo poder midiático tardiamente veiculados e assimilados de forma provinciana. A mediocridade está tanto na "leitura" local da cultura de fora quanto pela pouca consciência de elementos culturais locais.

Aí as classes abastadas só precisam legitimar essa pseudo-cultura, sob os apelos nervosos da intelectualidade - com toda "urubologia" jogada por gente como Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo - , e "ensinar" as classes pobres a fazer aquela cultura que, a princípio, lhes é privada.

Ou seja, é algo muito cruel. Por exemplo, o favelado carioca não pode mais fazer seus próprios sambas, porque é "muito burguês". Fazer um samba hoje, o legítimo samba do morro, do jeito que um Zé Kéti fez, é "muito Zona Sul" para o povo carioca, segundo a intelectualidade festiva de hoje.

De outro modo, fazer uma música caipira tal qual se fazia nos tempos de Cornélio Pires, é "ser muito atrasado", o "máximo" hoje é posar de caubói e cantar letras de problemas amorosos, isso quando não se investe no "tchu, tchá" ou no "tchetchererê" ou em bobagens tipo "Enrosca, enrosca, assim você me mata, ai se eu te pego". Quando muito, chega-se a um pedantismo pós-MTV de Victor & Léo e sua "MPB de mentirinha".

Mas o pior é que nem baiões podem ser feitos pelo povo pobre. Baião agora, do jeito que Luiz Gonzaga fazia no auge da carreira, virou artigo de luxo, coisa para rapagão rico de Curitiba fazer. Os pobres nordestinos são obrigados a fazer um engodo que mistura, de forma caricata, disco music, country e ritmos caribenhos, onde nem o som do acordeão é nordestino. Um som que consiste no chamado "forró eletrônico", forró-brega ou "oxente-music".

Apoiar tudo isso ou juntar essa cafonice toda com artistas performáticos, como quer o Coletivo Fora do Eixo - estranho grupo que se diz "alternativo" e de "esquerda" mas faz parcerias com a Rede Globo e Folha de São Paulo (apesar dos protestos dos irmãos Bocchini) e defende Yoani Sanchez -  , como se isso resolvesse a situação da cultura popular, juntando os "mais esclarecidos" com os medíocres.

POVO POBRE É REFÉM DO MERCADO

O povo pobre, na verdade, é refém de uma indústria comandada por capatazes modernos, que controlam os meios de divulgação e produção de "cultura popular". Um mercado que esconde, além da clara mediocridade artística (nem sempre admitiada pela intelectualidade, que a vê, "positivamente", como a "vitória do mau gosto sobre o elitismo cultural"), um processo de exploração e alienação das classes populares.

O povo só consegue, hoje em dia, se projetar culturalmente dessa forma, dominado pelos referenciais do mercado e da velha mídia. Mesmo os mercados "locais" são influenciados por essa lógica de mercado, nada há de "alternativo" ou "independente", tal qual tentam pregar os "fora do Eixo". O que há é o hit-parade a cada vez mais regionalizado. Mas, ainda assim, tão comercial e tendencioso.

A solução seria romper com tudo isso. Romper com todos os paradigmas popularescos. Algumas ONGs até contribuem, ensinando cultura de verdade para as classes pobres. O problema é quando elas fizerem música de qualidade compactuando com a breguice dominante. Isso não vai levar o povo pobre à verdadeira MPB.

Ninguém quer novos Victor & Léo fazendo pseudo-sofisticação às custas de uma mera assimilação de mais informação. Não queremos bregas mais informados e organizados. O que se quer é uma MPB que realize uma ruptura com o brega, devolvendo a cultura popular do passado ao povo pobre, permitindo uma atualização cultural que não seja ditada por programadores de rádio FM controladas pelo latifúndio.

O futuro da MPB existe, mas ele não é brega. O brega é o festival de entulhos e esgotos resultantes das crises sociais, políticas, morais, culturais e econômicas provocadas pela ditadura militar e pelos governos civis associados.

Portanto, não será a aliança do brega com a MPB, apoiada abertamente pela velha grande mídia, que fará o povo pobre renovar sua cultura. Será, sim, a ruptura entre essas duas forças antagônicas que fará com que o povo, livre da escravidão coronelista midiática, pudesse desenvolver a cultura que realmente quer, através de uma reestruturação de valores e desejos que não são os defendidos pelos barões da grande mídia.

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