sábado, 25 de agosto de 2012

A MPB, A FALTA DE RENOVAÇÃO E O INCHAMENTO DO BREGA


Por Alexandre Figueiredo

Nas últimas semanas, a MPB perdeu nada menos que quatro grandes nomes: o guitarrista Celso Blues Boy, o cantor Magro (MPB-4), o maestro Severino Araújo, da orquestra Tabajara, e o flautista e arranjador Altamiro Carrilho.

Todos eles de notáveis contribuições para a Música Popular Brasileira, com seus trabalhos que primam não pelo sensacionalismo mas pela qualidade artística e pela transmissão de conhecimentos que deixam marca nos seus legados.

Infelizmente, hoje, predomina na música brasileira não a expressão do saber, mas a expressão do não-saber. É aquela história: cantores e grupos primeiro expressam sua mediocridade gritante, em CDs de repertório risível, eles fazem sucesso cinco anos seguidos e depois, com banho de loja, de técnica, de tecnologia e publicidade, passam a fazer a tal "MPB de mentirinha" com muita pompa e luxo.

Ou seja, temos uma infinidade de "artistas" que não expressam transmissão de conhecimento, nada acrescentam artisticamente e ainda precisam da ajuda de medalhões da MPB que lhes ensinam macetes e fornecem até covers para os cantores brega-popularescos gravarem. No último domingo, a dupla breganeja Victor & Léo tocou "Sexy Yemanjá", de Pepeu Gomes, no Domingão do Faustão.

A mediocridade cultural, no âmbito da música, segue uma situação catastrófica. Afinal, para cada um nome respeitável de MPB que morre, centenas de nomes do brega-popularesco surgem, como cupins em madeira ruim. Só o "sertanejo" de Victor & Léo e João Bosco & Vinícius - só para citar dois nomes dotados de fãs fanáticos e agressivos - já gera uma infinidade de duplas e de cantores, esses puxados pelos sucessos de Luan Santana e Michel Teló.

A coisa chega ao risível de haver duplas diversas com integrantes chamados "Daniel", "Mariano", "Fabiano", "Marcelo", "Luciano" e outros nomes já existentes. Já pensou se essas duplas "racham" em cantores solo? Imagine vários cantores com o nome artístico de Daniel.

Leonardo, ex-Leandro & Leonardo, já sofreu até processo judicial por ter o mesmo nome artístico de outro Leonardo, irmão de Michael Sullivan, que, ironicamente, teve sua canção "Talismã", em parceria com Paulo Massadas, gravada por... Leandro & Leonardo.

Mas, nomes à parte, o que é preocupante é o crescimento da mediocrização musical e também cultural. De outro modo, também se multiplicam jornais popularescos, apresentadores de TV broncos, musas "popozudas", também com o ritmo de crescimento de cupins. Com direito até a "reis" e "rainhas" que se destacam no enxame.

"LINHA DE MONTAGEM"

Só a dupla Rick & Renner, pioneira no breganejo mais festivo, já conta com diversos "genéricos": Bruno & Marrone, César Menotti & Fabiano e, atualmente, João Lucas & Marcelo, a tal dupla do "tchu, tcha". E, em vez da criatividade musical, o que se vê é apenas a expansão de fórmulas, de "linhas de montagem", associadas ao fetichismo bolado para cada intérprete brega-popularesco.

O mesmo ocorre com outros ritmos. Seja no "pagode romântico", seja no "funk carioca", seja no "forró-brega". E, em certos casos, um mesmo grupo se desdobra em dois ou três, mais os vocalistas que seguem depois uma carreira solo. E tudo isso fazendo um mesmo som, uma mesma "linha de montagem".

Isso é grave, porque o mercado brega-popularesco sofre um processo de inchaço tão grande, com a multiplicação de nomes a sustentar modismos diversos que dá para perceber por que certos intelectuais foram escalados para tentar empurrar, através de uma choradeira discursiva, alguns bregas mais veteranos para os espaços da MPB autêntica.

Elementar, caros leitores. Não se trata de um "reconhecimento de valor" de uma "nova arte" que "não" compreendemos. É apenas ampliação de mercado. A competição mercadológica de ídolos brega-popularescos é tão grande que aqueles mais veteranos, sobretudo os neo-bregas da safra 1985-1997, com medo de parecerem antiquados tentam fazer uma "MPB de mentirinha" para tentar permanecer no mercado.

E eles nem por isso se tornam mais criativos. Nomes como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano, Latino, Belo e outros apenas repetem os mesmos vícios, até de forma piorada, do que se via na fase mais comercial da MPB nos anos 80. Só possuem maior apelo popular, mas chegam a ser piores do que a "MPB de mercado" que fez a juventude, entediada, trocar a música brasileira pelo Rock Brasil.

E as regras dessa "MPB burguesa" continuam valendo. Uma "MPB" mais dotada de pompa e de clichês. Que nada lembra a MPB altamente criativa que teve seu apogeu nos anos 60 - e não só entre 1967 e 1968, porque a coisa fervia até mesmo na virada de 1959 para 1960 - , cuja criatividade estava acima das classes sociais, com artistas pobres e outros de classe média alta igualmente criativos.

Hoje o que temos são os "genéricos" da MPB dos anos 70. Jorge Vercilo emulando Djavan. Ana Carolina emulando Ângela Ro Ro. Maria Gadu emulando um pouco a Nana Caymmi, com trejeitos de Cássia Eller e Marisa Monte. Chico César, emulando Caetano Veloso, não deixou marca.

Tudo bem que a geração anos 90 da MPB autêntica emulasse os antigos mestres, até para localizar o público que, já numa fase menos inspirada do Rock Brasil, parecia indiferente à MPB mais comezinha. Mas hoje ficou até rotineiro evocar a MPB de 1967-1970, se era novidade cultuar Wilson Simonal e Miriam Batucada em 1993, hoje virou lugar-comum.

"ENSINAR MPB" AOS BREGAS NÃO OS FAZ MAIS CRIATIVOS

E com essa estória de que "a música brasileira nasceu em 1967", vieram logo os neo-bregas e pós-bregas pegando carona. Mas até os bregas dos anos 70, como eram cronologicamente coincidentes com a MPB pós-tropicalista, também eram jogados na geleia geral feito gororoba nos dias de hoje.

E isso não garante que a breguice tenha maior criatividade. Mesmo a fórmula de "imitar Simonal" recentemente adotada pelo "pagode romântico" soa uma outra "linha de montagem". Como era, há dez anos atrás, a fórmula de "imitar Zeca Pagodinho" depois que o sambista de "Deixa a Vida me Levar" deixou de ser ignorado pela mídia.

Aí é que vem o problema. Os bregas, neo-bregas e pós-bregas sempre ignoram a MPB autêntica. Eles desprezam, desdenham, até com um certo esnobismo. Acham que é música para colunista social. Depois, quando a imprensa começa a divulgar mais a MPB autêntica, é que os bregas correm atrás, pegam carona e fingem ser seus seguidores.

Só que, por trás dessa postura tendenciosa, que envolve desde um mal-humorado Leandro Lehart até os espertos Chitãozinho & Xororó com jeitão de "penetras na festa da MPB", há a obsessão em disfarçar a falta de criatividade na adoção de fórmulas, quaisquer que elas sejam. Isso, repetimos, não traz mais criatividade, e mostra o quanto o brega sempre depende do que a MPB faz para tentar alguma "renovação".

Mas não são renovações verdadeiras. Esse é o maior problema. Enquanto vemos a MPB autêntica desaparecer nos obituários de seus músicos mais valiosos, sem falar que a chamada nata da MPB já é relativamente idosa, vemos o brega-popularesco se desdobrar numa avalanche de "novos artistas", além dos diversos "desmembramentos" de grupos já existentes em dois, três, quatro ou até cinco nomes diferentes, entre ex-vocalistas em carreira solo ou conjuntos dissidentes.

E "ensinar MPB" para essa "fauna" brega não vai resolver o problema. Primeiro, pela falta de espontaneidade. Segundo, pelo desprezo natural à MPB autêntica, só desfeito tendenciosamente. No mais, tudo é feito não para que eles se tornem mais criativos, mas para que eles pareçam menos vergonhosos. Mas, ainda assim, continuam vergonhosos e constrangedores.

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