sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A "MPB DE MENTIRINHA"


Por Alexandre Figueiredo

A música brega tem dessas coisas. Primeiro, se cria um repertório medíocre, que gera muito sucesso, durante os primeiros anos de carreira de um ídolo. Depois esse ídolo, se fazendo por coitadinho, mendiga novos espaços e tenta a todo custo querer ser levado a sério.

Entre muitos artifícios que são feitos são o banho de loja, de tecnologia e de técnica feitos para "enobrecer" o cafoninha de plantão. Ou, em certos casos, estilos inteiros criam gerações que já nascem pedantes e pretensiosas, mas no fundo é gente mais próxima da sigla MTV do que da sigla MPB.

Geralmente, se cria uma "MPB de mentirinha", um simulacro daquela mesma MPB que a intelectualidade dominante no Brasil julgava decadente, quando era feita por músicos e cantores originários da cena da MPB dos festivais de música dos anos 60 e 70.

No entanto, essa mesma "MPB de segunda categoria", de baladas açucaradas, letras sobre relações amorosas, e uma estrutura luxuosa e pomposa que obrigava os cantores a gravar discos em Los Angeles com uma orquestra numerosa, quando feita por ídolos bregas geralmente surgidos nos anos 80 e 90, tornou-se "respeitável", porque não são mais os campeões dos festivais que gravam tais repertórios, mas os "coitadinhos" que "só fizeram sucesso" nas programações "populares" de rádios e TVs.

Claro que há muita coisa por trás disso. A MPB dos anos 60/70 nunca iria aceitar essa fórmula pasteurizada por muito tempo, depois de tantas discussões com produtores, arranjadores e executivos. Vieram então os ídolos bregas, sambistas falsificados, sertanejos postiços, que viam nessa mesma fórmula a mina de ouro para elevar suas carreiras e fazer com que eles sejam vistos como "artistas sérios".

Ou seja, o jogo não mudou. Aquela "MPB enjoada", que causa repugnância de intelectuais de nome, que desperta horror e asco de críticos musicais badalados, continua valendo, só mudaram os jogadores. E como os atuais jogadores têm mais gosto com o passatempo do que os antecessores, a intelligentzia respira aliviada, dando tempo até para fazer "teses viajantes" sobre os "novos artistas da parada".

Sabemos que havia os bregas originais, dos anos 70, que viviam isolados no tempo e no espaço, retrógrados e retardatários nas referenciais culturais. Isso valeu até surgir o império midiático dos barões do entretenimento Michael Sullivan e Paulo Massadas.

Paralelo a isso, corria a MPB pasteurizada pelas gravadoras, que citamos acima, e que entediava sobretudo o público mais jovem. Sullivan e Massadas juntaram elementos dessa "MPB das gravadoras" com o brega dos anos 70 e impulsionaram o neo-brega, que gerou a safra de ídolos "populares" que muita gente acredita ser "sofisticada" nos dias de hoje: Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Alexandre Pires, Daniel, Belo, Zezé di Camargo & Luciano, Frank Aguiar, Latino, Ivete Sangalo, Chiclete Com Banana.

Os neo-bregas foram rapidamente adotados pela Rede Globo, o antigo abrigo de Sullivan e Massadas que rumava para um pretenso "popular" com roupagem luxuosa para atrair as "boas famílias". E os neo-bregas passaram a cantar e tocar covers de MPB, da forma mais tendenciosa possível, apoiados pelas Organizações Globo, pelas grandes gravadoras e até pelas multinacionais.

Esses ídolos nada acrescentavam para a Música Popular Brasileira. Eram até piores do que os cantores e músicos da MPB autêntica, acusados de "elitistas". Isso porque sua aparente sofisticação artística é apenas um aparato, uma fachada, e os covers de MPB - geralmente escolhendo as músicas mais manjadas e "inofensivas" - são uma forma de disfarçar a mediocridade musical dos neo-bregas.

E aí vieram os pós-bregas, influenciados pela MTV. Se os neo-bregas são os bregas encontrando a Rede Globo, os pós-bregas são os bregas encontrando a MTV. E aí vieram Victor & Léo, Banda Calypso, MC Leozinho, Parangolé, Gaby Amarantos. Todo mundo também puxando o saco da MPB, mas metidos a ter um referencial cultural mais arrojado.

Daí Victor & Léo bajulando Neil Young, Parangolé falando em trance dance (um derivado da música eletrônica), MC Leozinho dizendo que "curte" Led Zeppelin e Chimbinha da Banda Calypso alegando ser "fã" dos Ventures (que ele, quando muito, só ouviu mesmo através do sampler de "Hawaii 5.0" da colagem do Jive Bunny).

Eles também não deixam de fazer sua "MPB de mentirinha", afinal a MPB pasteurizada que provocou o êxodo dos verdadeiros artistas para a gravadora Biscoito Fino encontrou seus serviçais certos. Que nunca irão acrescentar algo relevante e forte para a cultura brasileira, prevalecendo mais como fetiches, celebridades, como famosos a dar declarações pretensiosas ou qualquer frase de efeito.

Os neo-bregas parecem "MPB de verdade", parecem "cultura tradicional". A memória curta garante tais lorotas. E os neo-bregas tentam ganhar o tempo se passando por "vanguardistas". Só que isso irá prejudicar a verdadeira cultura brasileira que, perdendo seus espaços, precisa negociar duetos tendenciosos que possam colocar um Geraldo Azevedo ou Nando Reis na próxima vaquejada do interior do Nordeste. Se não for isso, nem chorando.

Choradeira na mídia é coisa de gente brega.


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