quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A MEDIOCRIZAÇÃO CULTURAL ÀS VÉSPERAS DA INTERNET


Por Alexandre Figueiredo

Não é preciso ser especialista em Comunicação ou mesmo analista da mídia para entender por que a mediocrização cultural do Brasil, dominante desde os anos 90, tentou se reciclar depois às custas de uma nova retórica, tão conhecida nos meios intelectuais.

Afinal, como se fosse da noite para o dia, uma multidão de cientistas sociais, críticos musicais, artistas e celebridades passou a adotar um discurso em que a mediocrização cultural dos anos 90 era a "verdadeira cultura popular", "o novo folclore brasileiro" e uma "maneira pop de entender o país".

Em abordagens um tanto confusas quanto desesperadas - havia até mesmo ataques contra quem reprovava a mediocrização cultural, até em artigos acadêmicos (!) - diversos intelectuais de todo o país, partindo da choradeira de Paulo César Araújo aos antigos ídolos cafonas e passando de Milton Moura e Mônica Neves Leme a Pedro Alexandre Sanches e Ronaldo Lemos, o brega-popularesco se reciclou com essa "pequena ajuda" da intelligentzia associada e em boa parte patrocinada pelo especulador estrangeiro George Soros.

O jabaculê tinha que se reciclar, não mais naquele método tradicional do suborno de rádios, TVs e revistas. Esse método continuava, mas a ênfase tornou-se outra, como vender a falsa imagem de "feministas" para as "popozudas" através de monografias ou documentários. Ou de promover os bem-sucedidos ídolos cafonas e neo-bregas como se fossem "coitadinhos sem lugar algum ao Sol".

Essa campanha, feita já a partir de 1996 com o texto "Esses pagodes impertinentes...", texto de argumentações duvidosas e escrito sem qualquer linguagem objetiva pelo historiador baiano Milton Moura, já previa a blindagem que a intelectualidade faria com maior intensidade quinze anos depois. Moura, na ocasião, pretendia defender o "pagodão" baiano derivado do sucesso do É O Tchan.

Cinco anos depois, veio o livro-tese de Paulo César Araújo, Eu Não Sou Cachorro Não, que defendia os ídolos cafonas do passado. E isso puxou toda uma gama de livros, reportagens, artigos, documentários, monografias, além do apoio de celebridades em vários eventos, para completar o jabaculê sofisticado em torno da "cultura" brega e todos os seus derivados.

E essa intelectualidade estava toda a serviço de um projeto cultural bolado pelos tecnocratas em volta do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Mas como Lula foi eleito em detrimento do escolhido tucano José Serra - em que pese os fisiologismos do PT e as políticas neoliberais adotadas - , a intelligentzia dominante de então teve que se voltar para o proselitismo de esquerda.

Tudo isso para tentar evitar que propostas mais avançadas de regulação midiática e melhorias sócio-culturais sejam postas em prática. O que Pedro Alexandre Sanches faz, por exemplo, para barrar o avanço de propostas de gente como Emir Sader para melhorar a cultura do país é de uma sutileza que poucos conseguem perceber.

MEDIOCRIDADE COMO DOMINAÇÃO SOCIAL PELA MÍDIA

Isso se deu porque a Internet brasileira se popularizou, no final da década de 90, neutralizando o monopólio da mídia, sobretudo rádios FM, TV aberta e "imprensa popular", o que deu o sinal para a ditadura midiática adotar um meio de evitar o despertar cultural das classes populares, tão castigada pela imbecilização vigente desde a ditadura militar.

A mediocrização cultural já era intensa quando a breguice foi despejada nos anos 90, depois que a Era Sarney e a liberdade democrática garantida pela Constituição de 1988 perigasse retomar aquela consciência crítica da sociedade brasileira no pré-1964.

A sociedade já começava a falar mal do governo por causa dos descaminhos do Plano Cruzado e aí a mídia teve que despejar, a partir de 1990, desde duplas "sertanejas", dançarinos de lambada, um demagogo tipo Fernando Collor, o policialesco Aqui Agora, os patéticos funqueiros hoje ditos "de raiz", as "musas" da Banheira de Gugu Liberato e outras barbaridades.

A intelectualidade influente então ainda era aquela que reprovava a mediocridade cultural. Era gente influenciada pela geração do Pasquim, pelos Centros Populares de Cultura da UNE e de outras iniciativas de melhorar a sociedade, que se achavam traídos pela adesão da mídia, em plena democracia, à imbecilização midiática mais aberta.

Nos anos 90, víamos gente como José Ramos Tinhorão - que hoje poderia ser visto como o anti-Paulo César Araújo, embora este, "desavisado", "estranhasse" que Tinhorão não tivesse apoiado a música brega - puxando o coro. Arnaldo Jabor ainda tinha excelentes textos contra a mediocrização cultural. Dioclécio Luz surgia e nomes como Ruy Castro e Mauro Dias também reforçavam a campanha contra a mediocridade reinante.

Mauro, aliás, havia escrito um excelente texto chamado "O massacre cultural sem precedentes", publicado em 1999 no jornal O Estado de São Paulo num tempo em que o jabaculê era menos intenso nos cadernos culturais, que ainda gozavam de uma certa autonomia e relativa honestidade.

Se bem que, nesses tempos, Otávio Frias Filho estava ensinando timtim por timtim as lições depois seguidas pelo fiel pupilo Pedro Alexandre Sanches, tão fiel que foi capaz de seguir seu mestre mesmo rompendo profissionalmente com a Folha de São Paulo.

Foi aliás depois do impacto causado por este texto de Mauro Dias - juntando os textos de Tinhorão, Ruy Castro e Dioclécio, além de outros até de músicos como Thedy Correa (Nenhum de Nós) - , mais as gozações de Marcos Mion e João Gordo contra o brega nos Piores Clipes do Mundo da MTV Brasil, entre 1999 e 2002, que a grande mídia e o mercado jabazeiro tiveram que criar uma contrarreforma intelectual.

Desse modo, a intelectualidade designada para defender a mediocridade cultural passou a apelar para tudo, até para verdadeiras "urubologias", acusando quem a rejeitasse de "preconceituoso". A campanha de defesa ao brega envolveu das retóricas intelectualoides, da publicidade dos famosos e até das trolagens feitas na Internet e não só prorrogou a mediocridade cultural já em desgaste como a fez mais hegemônica do que há 20 anos atrás, hoje ameaçando os espaços remanescentes da MPB e da cultura alternativa.

O avanço da Internet iria desviar as classes populares da mediocrização cultural e, no atual estágio da blindagem intelectual, existe até mesmo a apropriação desses referenciais medíocres com os referenciais culturais de qualidade. Tudo no desespero de prolongar a mediocrização a qualquer custo.

Convém mantermos os olhos abertos. O joio quer se parecer como uma parte inseparável do trigo.

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