segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A (IMPRÓPRIA) MEDIDA DOS PROGRAMAS POLICIALESCOS NAS TARDES NA TV


Por Alexandre Figueiredo

Há muito tempo, uma coisa errada acontece nas televisões do Brasil. Com a obsessão de chamar mais audiência, a veiculação de conteúdo violento, através de filmes de ação e programas de noticiário policialesco, virou uma febre na TV aberta.

O pior é que essa mania fez com que o conteúdo violento fosse despejado justamente à tarde, diante de crianças na sala e tudo, e infelizmente continua valendo, apesar das reclamações cada vez mais crescentes.

Claro, em nome do rótulo de "popular", se santifica qualquer barbaridade. Se reclamamos, a intelectualidade dominante cai em uníssono, nos acusando de "elitistas" e "preconceituosos", tentando relativizar o ruim com se fosse "coisa boa", às custas de muita, muita, muita retórica. E muita choradeira também, mesmo expostas nas "mais científicas" monografias.

E a chamada "imprensa policialesca" não é excessão à regra nessa choradeira capaz de transformar reles funqueiros em "ativistas sociais" ou bregas à beira do ostracismo em "gênios vanguardistas". Quem conta um conto aumenta um ponto, quem glamouriza uma lorota ganha mais pontos. É tudo pelo "popular".

Há o caso dos jornais impressos que seus defensores, confusos, não sabem dizer se é "imprensa investigativa" ou "jornalismo de humor". E, desconhecendo totalmente a história de nossa imprensa, só "de ouvir falar", acham que jornalecos como Meia Hora e Supernotícia são "inspirados" na Última Hora ou no Pasquim. Verdadeiro atestado de burrice e desinformação históricas.

E há também os programas televisivos. Sempre com algum apresentador um tanto bronco, prometendo "justiça" para os espectadores, mostrando o "mundo cão" como se a realidade fosse isso. E sem medir escrúpulos em apresentar assassinatos para telespectadores mais sensíveis e até na mais tenra idade infantil.

Tudo isso veio desde que o Aqui Agora fixou nas tardes o filão dos programas policialescos, nos anos 90, algo inconveniente mas defendido com unhas e dentes pelos executivos de televisão. Foi a radicalização de um processo que até houve antes, de forma secundária, que foi a vulgarização da televisão, numa espécie de populismo canhestro, com um quê de conservador, que nada tinha a ver com o nacional-popular da era Jango.

Isso era batata. Afinal, o começo dessa onda popularesca veio logo com a ditadura em 1964, com um dos primeiros deslizes da TV Cultura de São Paulo, então ligada aos Diários Associados, ao criar um talk show com o sensacionalista Jacinto Figuiera Jr.. Sabem aqueles programas em que familiares brigam até causar quebradeira por causa de bobagens? Pois é.

Mas antes havia muitas alternativas na televisão. E, antes do golpe de 1964, culturalmente procurávamos nos evoluir. Imagine um programa do formato Viola Minha Viola que Inezita Barroso apresenta atualmente, transmitido pela TV Record? Hoje seria impensável, teria que ter muito breganejo para salvar audiência, e se até o programa teve que, dentro da lógica tucana da TV Cultura atual, receber canastrões como Chitãozinho & Xororó e Daniel (de quê, afinal?), dá para sentir o drama da televisão de hoje, em que o comercialismo contamina até mesmo antigos oásis como as emissoras educativas e a TV paga.

E o que dizer de Móbile, que Fernando Faro, um programa vanguardista que alternava, em edição aparentemente aleatória, entrevistas, vinhetas, curtas e clipes, passar em 1962 na TV Paulista, uma emissora comercial? A televisão aberta nem era 24 horas, em média as emissoras entravam no ar às 15 horas, e a popularização da televisão pré-1964 não indicava uma inclinação ao popularesco mais grosseiro.

Nas tardes, só para se ter uma ideia, havia programas femininos ou programas infantis. Quando muito, um boletim jornalístico era lançado para noticiar um fato grave. Mas nada desse "jornalismo mundo cão" que se despeja hoje ainda sob o céu claro.

O que acontece hoje na televisão é altamente vergonhoso. Mas, à menor reclamação do grotesco que existe hoje sob o rótulo de "popular", somos acusados de "preconceituosos" e "elitistas". Os intelectuais se gabam com sua defesa à "ditabranda do mau gosto", que para eles é "causa nobilíssima", mas poucos admitem que essa questão de gosto inexiste, porque tudo hoje na mídia é motivo mais de persuasão.

Mas não vamos nos ater agora nessa questão de gosto. Já foi publicado um texto assim, mas ainda vai se falar nesse gosto artificialmente conduzido pela mídia, nesse "popular" midiático onde o povo pobre é "convidado" a se tornar caricatura e estereótipo de si mesmo, para o gozo da intelectualidade mais paternalista.

Não temos, atualmente, pessoas de visão como Walter Clark ou Fernando Barbosa Lima, este ainda mais audacioso. Walter pensava numa televisão comercial de qualidade, e, mesmo sendo ex-TV Rio, pôde adaptar até mesmo as conquistas da TV Excelsior para a programação da Rede Globo, evidentemente naquilo que ideologicamente não feria os interesses da ditadura (mas às vezes sim, como na primeira versão da novela Roque Santeiro, quase pronta para entar no ar em 1975 até ser vetada pela censura).

Já Fernando Barbosa Lima, filho de Barbosa Lima Sobrinho, queria mais ousadia, aperfeiçoando a linguagem da televisão com o máximo de qualidade, sem deixar de dialogar para o público simples. Mas mesmo os executivos de televisão eram mais flexíveis. E olha que Barbosa Lima era ligado a uma agência de comunicação, a Esquire. Tudo poderia sucumbir ao comercialismo mais pragmático, mas naquela época havia respeito ao cidadão.

Aqui tudo é feito através do jabaculê, da libertinagem, e ainda se fala que isso é "a verdadeira cultura", só por causa da palavrinha mágica "popular". E vemos o quanto de efeitos nocivos isso causa. E o quanto é ridículo nossos intelectuais falarem que nossas críticas contra o "popular" midiático são preconceituosas.

Criticamos o popularesco da mesma forma que criticamos o analfabetismo. Defender a alfabetização é "europeizar" o povo pobre? Defender uma cultura melhor é "aburguesar" as periferias? Enquanto a intelectualidade faz cara feia com as críticas feitas à "divertida cultura de massa", a degradação sócio-cultural acontece desafiando o mais condescendente relativismo intelectualoide.

Pois a violência que aparece nos filmes de ação - agora tidos como pretensamente cult - e pelo noticiário popularesco que jura só "mostrar a realidade nua e crua das ruas", além de viciar os hábitos do público, acaba criando gerações de jovens agressivos, que desprezam qualquer necessidade de respeito humano e resolvem as coisas, na "melhor" das hipóteses, através da trolagem mais depreciadora na Internet.

As brigas de torcidas organizadas de futebol, por exemplo, ou os crimes conjugais, os parricídios, fratricídios, os latrocínios que tornam qualquer ladrão pé-de-chinelo altamente perigoso por conta de um revólver na mão, tudo isso é movido por uma visão de "justiça" que só empurra uma injustiça contra outra.

O intelectual que defende essas barbaridades midiáticas porque "é divertido e o povo gosta" não deve saber bem das coisas. Sua visão é elitista, por mais que ele julgue o contrário. E, tentando promover justiça com o povo pobre, é o que mais promove sua injustiça, porque em vez de defender, de fato, o povo pobre, o intelectual de nome acaba defendendo mesmo o que os barões da mídia fazem com a população pobre.

Na boa, os programas de noticiário policialesco deveriam ser transmitidos, na mais generosa hipótese, na meia noite, ou à uma da manhã durante os horários de verão. Não dá para admitir que programas assim sejam transmitidos abertamente de tarde, expostos até para a criançada, mesmo com as mais persistentes alegações.

Até porque o "grosso" da violência humana costuma ocorrer nas madrugadas de qualquer lugar. Seria mais justificável transmitir um programa policialesco nesse horário. Até por causa da "demanda" que é maior nesses horários. Não melhoraria nossa TV, mas seria mais conveniente.


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