segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A FÓRMULA FÁCIL DO "SERTANEJO UNIVERSITÁRIO"


Por Alexandre Figueiredo

Por incrível que pareça, o rótulo "universitário", atribuído a uma geração recente do já duvidoso "sertanejo" - que os críticos fazem bem em defini-lo como breganejo - , não criou uma reputação "mais sofisticada" do gênero.

Pelo contrário, o termo virou nome de uma fórmula mais fácil, que faz com que uma infinidade de "duplas sertanejas", geralmente formada por "gente bonita", surgisse aos montes.

A multiplicação de duplas e cantores do gênero chega mesmo a atrofiar cenários como o interior de Minas Gerais, que carece de um novo Clube da Esquina, ou a região de Niterói e São Gonçalo, antes pouco receptivas às formas diluídas da música caipira, que castigam a cultura popular desde as primeiras diluições de Chitãozinho & Xororó e quejandos.

O breganejo original - que se aproveita da memória curta para vender na mídia sua falsa imagem de "música de raiz" - foi o prato principal da geração neo-brega dos anos 80 e 90. Nomes como Chitãozinho & Xororó, Gian e Giovani, Leandro & Leonardo (dupla da qual resta o segundo), Zezé di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel (da qual também resta o segundo) e outros faziam uma deturpação da música caipira bem nos moldes da música de Waldick Soriano. E a geração já tinha também os precursores da atual tendência do "sertanejo pegação", Rick e Renner.

Mas, com o tempo, veio uma geração intermediária entre os "tradicionais" breganejos - que, espertos, passaram a parasitar o antigo cancioneiro caipira e os diversos covers de clássicos da MPB para levarem vantagem - e os atuais "universitários", de nomes como Bruno & Marrone, Rionegro & Solimões, César Menotti & Fabiano e outros.

E aí veio a geração "universitária". Se os breganejos "tradicionais" e falsamente "de raiz" passaram a namorar a Rede Globo e pegar carona nos tributos e festivais de MPB patrocinados pela grande mídia, os "universitários" tentam dialogar com os jovens e estão "hiperconectados" com o espírito da MTV, tentando soar "modernos" enquanto seus antecessores queriam parecer "sofisticados".

Os primeiros "universitários" prometiam "maior qualidade musical" e "informações atualizadas" de sua, digamos, "arte" (ou o que o mercado entende como tal). Bajulam até Byrds e Neil Young, devem tirar o sono de Bob Dylan com tanto puxa-saquismo.

Uns já vieram com muito pretensiosismo, como Victor & Léo. Mas outros são mais oportunistas, como João Bosco & Vinícius, nome adotado para confundir as coisas, parodiando um cantor e um poeta ligados à MPB autêntica.

Mas aí vieram outros nomes, como Fernando & Sorocaba - espécie de "genérico" do Rionegro & Solimões na sua obsessão pela música country - , Maria Cecília & Rodolfo e Luan Santana (que começou "universitário" ainda adolescente), até que viessem cantores com temática mais "urbana" como Michel Teló e Gusttavo Lima.

Aí veio o tal "sertanejo pegação", impulsionado sobretudo pelas "pesquisas" do funqueiro Latino e seu projeto "junto e misturado". Letras que falavam de festa e de bebedeira, coisas que já se via em Chitãozinho & Xororó, com "Cerveja", também cantada junto a Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo no programa Amigos, da Rede Globo, e Fernando & Sorocaba, com "É Tenso" (do verso "eu bebo mesmo").

E aí, como todo o breganejo, sabemos, é patrocinado pelo latifúndio, associado aos barões da grande mídia e às grandes empresas nacionais e sobretudo multinacionais - ou "transnacionais", no jargão mais "transbrasileiro" - , teve dinheiro de sobra para os empresários de Michel Teló comprarem espaços de divulgação no exterior, sobretudo através de um jogador de futebol português ou de um factoide montado por soldados israelenses (falou-se israelenses, não palestinos, entendeu intelligentzia?).

Só faltou Pedro Alexandre Sanches, capaz de ver "ativismo social" em atitudes inócuas de entretenimento vazio, inventar que Michel Teló era o "nosso Julian Assange". Por sorte, não se chegou a tanto, mas depois de tantas tentativas de promover o cantor de "Ai Se Eu Te Pego" como "cidadão do mundo" não vingaram, a música hoje pereceu rapidamente, como todo hit descartável, e hoje Michel Teló soa "velho", da mesma forma que Luan Santana, apesar da pouca idade, também soa "velho".

Mas como o mercado brega-popularesco precisa de uma sucessão de novos ídolos e novos sucessos, investe-se em novos ídolos e novos sucessos, contratando rapazes para fazer tais papéis e comprando todo tipo de espaço possível de divulgação e consumo.

Com muito mais dinheiro, compra-se até espaços da MPB autêntica - como fizeram os breganejos "tradicionais" - , incluindo os direitos autorais de covers de MPB e duetos com artistas de MPB em troca da inclusão deles em eventos musicais do interior do país. Tudo é MPB? Não, tudo é jabaculê. Nada é cultura, quando o comercialismo é o que importa, em detrimento dos valores sócio-culturais hoje esquecidos.

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