sábado, 18 de agosto de 2012

A "FAZENDA MODELO" DA MPB


Por Alexandre Figueiredo

Querendo fazer "urubologia" com alegações pretensamente esquerdistas, Pedro Alexandre Sanches, querendo parecer anti-coronelista, tentou definir a MPB "biscoito fino" como "fazenda modelo".

Na sua ojeriza a Chico Buarque, Sanches queria, com tal definição, comparar o suposto "purismo" da Música Popular Brasileira com um latifúndio, e o jornalista, com isso, cometeu um grande deslize sobre o que se trata da "Fazenda Modelo".

Afinal, "Fazenda Modelo" não é necessariamente um latifúndio cujo suposto "coronel" seria, na imaginação fértil de Pedro Alex Sanches, o autor do referido livro. Nada disso.

Para começo de conversa, Fazenda Modelo é uma alegoria sobre o Brasil, bem ao jeito da Revolução dos Bichos de George Orwell, só que, em vez da Rússia governada por Josef Stalin, a obra mostra o Brasil da ditadura militar.

Ou seja, a tal "fazenda" não é um latifúndio ao pé da letra, mas o nosso próprio país. Ou seja, se nós queremos que a música brasileira se torne uma "fazenda modelo", como se expressa a paranoia elitista (elitista, pelo fato de desejar ao povo pobre não a emancipação cultural, mas a escravidão do brega) de Pedro Alexandre Sanches, então somos "coronelistas" porque queremos o Brasil mais e melhor Brasil.

Querer que a cultura brasileira rompa com a mediocridade do brega - no fundo uma gororoba feita de "restos" de tudo de bom e ruim produzido na cultura e no entretenimento, transformados em "lavagem de porco" para o povo pobre consumir - nada tem a ver com elitismo ou higienismo social.

Se a MPB "biscoito fino", herdeira dos debates cepecistas incompletos devido à imposição ditatorial - o mesmo poder que, pela força da censura, obrigou Chico Buarque a escrever uma fábula para explicar a ditadura militar -, é uma "Fazenda Modelo", que seja assim então, porque a MPB se torna o Brasil no pleno debate de seu destino cultural e artístico. Melhor ser "fazenda modelo" do que prostíbulo.

Querer a evolução cultural do povo pobre, a volta ao caminho perdido dos ritmos populares autênticos, sem o controle férreo dos empresários do entretenimento - capatazes modernos do coronelismo lúdico que Sanches ignora e os considera "tão pobrezinhos" - , é querer o verdadeiro progresso cultural, o que não é elitismo algum, porque queremos para a Cultura o que queremos para a Educação. Cultura com C maiúsculo e Educação com E maiúsculo, diga-se de passagem.

Cultura tem mais a ver com educação do que com entretenimento. Entretenimento é passatempo, consumo, e é feito apenas para o momento presente. Querer que o brega-popularesco, descartável e composto de "restos" de tudo de bom e ruim que se passa na "cultura de massa", seja a "verdadeira cultura" é, isso sim, expressar o elitismo paternalista.

Além disso, no "paradisíaco" Pará do tecnobrega e outras breguices, há muito mais a influência do latifúndio, que patrocina com gosto essa "cultura das periferias" que permite exercer o poderio dos "coronéis" sobre as classes populares sem que muito sangue seja derramado, mas sempre através da dominação e da alienação que domestica culturalmente as classes populares através de referenciais confusos e medíocres.

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